COMEMORAÇÃO

Dia do Nordestino: a importância de contar o Nordeste pela nossa própria história

Neste 8 de outubro, comemora-se o Dia do Nordestino - povo responsável por grande parte da formação do que hoje entendemos como Brasil, e que continua sendo alvo de estereótipos e preconceitos

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 08/10/2021 às 6:00
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
"Se eu puder dar 10 'Viva o Nordeste', talvez eu dê um 'Viva o Brasil", diz J. Borges, um dos maiores xilogravuristas do país - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Com informações da repórter Cinthia Ferreira, da TV Jornal

Não é exagero falar que as mãos nordestinas formaram o que hoje entendemos como Brasil. Foi na região - certa vez a mais rica do país - agora composta por nove estados distintos entre si que a colonização começou. Mesmo assim, parece nunca termos tido a oportunidade de contar nossa própria história: as narrativas e a imagem do que somos no imaginário popular são permeadas do que regiões economicamente mais prósperas achavam que éramos. Atrasados. Burros. Famintos. Mas é preciso reinventá-las. Neste Dia do Nordestino, 8 de outubro, celebra-se mais do que a história de um povo, mas a pluralidade e as novas formas de pensar e ser Nordeste - sem perder a essência dele.

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A data é celebrada há 12 anos, quando foi oficializada em 13 de julho de 2009 no estado de São Paulo - estado com maior concentração de nordestinos, fora o próprio Nordeste - no centenário do grande poeta, cantor e compositor cearense Antônio Gonçalves da Silva, que ganhou o mundo com o codinome Patativa do Assaré (1909 - 2002). O texto foi revogado em 2019, por nova lei que alterou a comemoração para 2 de agosto - data do falecimento de Luiz Gonzaga (1912-1989), o rei do Baião. No entanto, a mudança não caiu no gosto popular, que continuou considerando 8 de outubro como o dia oficial.

E estes são apenas alguns dos grandes nomes advindos de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte ou Sergipe. Ariano Suassuna (1927-2014), Gilberto Freyre (1900 - 1987), Paulo Freire (1921-1997), Gregório de Matos (1636-1696), José de Alencar (1829 - 1877), Graciliano Ramos (1892 - 1953), Jorge Amado (1912-2001), entre outros, elevaram a literatura do Brasil ao mais alto grau. Na música, fizeram ou fazem o mesmo o papel Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Chico Science (1966 - 1997), Belchior (1946 - 2017), Reginaldo Rossi (1943 - 2013) e mais.

“O nordeste sempre foi um celeiro de talentos, de conquistas e de vitórias. Essa é uma questão aritmética, não opinião. Se contabilizar os 100 maiores intelectuais de todos os tempos do Brasil, verá que a maioria absoluta é nordestina. É extraordinário”, comenta a antropóloga Ciema Mello, do Museu do Homem do Nordeste. “Ainda menciono as personalidades que são classificadas equivocadamente, ao meu ver, como atores da cultura popular - porque não há cultura popular ou erudita, há simplesmente cultura”, defende.

JC IMAGEM
Antropóloga Ciema Mello, do Museu do Homem do Nordeste - JC IMAGEM

Mais um exemplo nasceu na cidade de Bezerros, no Agreste de Pernambuco: José Francisco Borges, conhecido artisticamente como J. Borges, um dos maiores xilogravuristas do país. Aos 86 anos, ainda retrata o dia a dia no interior e famosos cordéis em suas obras de arte de estilo único, e não economiza as palavras quando se trata de falar bem do Nordeste. “Para mim, ser nordestino é ser a pessoa mais importante do mundo, porque nos países e em estados do Brasil que já andei, não encontrei um pessoal tão inteligente, tão bom, tão amigável como o nordestino”, afirmou em entrevista à TV Jornal. “Tenho orgulho, alegria e satisfação. Se eu puder dar 10 'Viva o Nordeste', talvez eu dê um 'Viva o Brasil'”.

De Caruaru, também no Nordeste do Estado, o forró de Onildo Almeida continua a tocar pelo país. Ele foi autor de mais de 530 canções - gravadas por nomes como Luiz Gonzaga e Gilberto Gil -, entre elas, “A Feira de Caruaru” e “ABC do Amor”. “O Nordeste é uma região árdua, difícil tanto de se viver, quanto de se administrar. Mas existe uma certa pureza no viver nordestino. É mais realista. No Sul, é mais fantasiosa. Vida de apresentação, como se fosse o principal mundo, que não é. O Nordeste é uma terra muito boa de se viver. A vida aqui tem mais sentido. O Nordeste hoje é independente. Tem vida própria”, opina o compositor.

Mas nem só de artistas famosos se faz a região. O professor aposentado Maurício Azevedo passeava pelo tradicional Mercado de São José, no Centro do Recife, quando a reportagem o encontrou admirando o artesanato produzido em Pernambuco. Ao ser questionado, ele não consegue escolher um aspecto do Nordeste de que mais gosta, e pontua alguns: “nossa cultura, nosso litoral, nossa gastronomia”, diz, com orgulho. “Ser nordestino é privilégio de alguns, do Maranhão à Bahia, tem que ter orgulho, seja aonde você for. Desde nossas raízes, porque fomos um povo sofrido, mas que nunca deixou de lutar onde estiver.”

No mesmo equipamento, Cleiton Cavalcanti respira todos os dias da semana a cultura nordestina, já que escolheu trabalhar vendendo itens típicos da região. “Os turistas chegam aqui e se encantam, porque não encontram artesanato tão fácil pelo Sul”, conta. “Sou suspeito para falar do Nordeste. Viajo muito comprando e vendendo mercadoria, já viajei para São Paulo e Rio de Janeiro, onde gosto de passear, mas para mim o Nordeste é um lugar para se viver, para criar seus filhos com mais tranquilidade”, diz.

Ainda que todo esse reconhecimento seja dado, os nordestinos continuam a sofrer com estereótipos criados principalmente pela mídia. Através do humor, a atriz e jornalista pernambucana Ademara Barros, ou Ademaravilha para seus quase 500 mil seguidores, soube usá-los como combustível. No vídeo “Sudestino”, ela inverte papéis e faz com que o internauta perceba o preconceito enraizado nos supostos “elogios” que escuta desde que se mudou para o Rio de Janeiro, elogiando o sotaque de um paulista e confundindo a cultura dele com a de outros estados.

A antropóloga Ciema Mello defende que, para esta realidade mudar, “precisamos ser um pouco mais combativos nesse aspecto e não permitir que outras pessoas injustamente nos diminuam”. “É preciso que o resto do país pare de se referir a nós como o paraíba, como se existisse um nordestino genérico. Cada um tem um nome. Cada estado tem sua originalidade, e isso precisa ser respeitado”, alega. E completa: se eu tivesse que resumir quem é nordestino numa frase, diria que é uma forma obstinada e vitoriosa de ser brasileiro”.

Campanha do SJCC

Oito de outubro é o Dia do Nordestino, e não tem jeito melhor de celebrar a data do que espalhando para todo mundo o seu orgulho de ter nascido em uma região tão encantadora, não é? Clique aqui e baixe o vídeo da campanha "Orgulho de Ser Nordestino", do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, para compartilhar nas suas redes sociais.

Pode me chamar de amostrado, marminino! Eu chamo isso orgulho de ser nordestino!

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Antropóloga Luciana Mello, do Museu do Homem do Nordeste - FOTO:JC IMAGEM

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