URBANISMO

"Já vimos isso acontecer", diz comunidade do Recife sobre promessa de habitacional para sanar desapropriação para construção de ponte

Após pressão popular, prefeitura anunciou a construção de um habitacional que deve abrigar as famílias afetadas pela futura Ponte Engenheiro Jaime Gusmão. O mesmo, no entanto, foi feito em 2012 na comunidade. Quem teve a casa marcada, teme não ter onde morar

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Katarina Moraes

Publicado em 04/11/2021 às 6:00 | Atualizado em 04/11/2021 às 7:15
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Em meio à pressão popular, da oposição e da Comunidade Vila Esperança/Cabocó, a Prefeitura do Recife anunciou, na última semana, a construção de um habitacional que deve abrigar as famílias afetadas pela futura Ponte Engenheiro Jaime Gusmão - que vai ligar o bairro do Monteiro ao da Iputinga, passando por uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS). Mas o que pareceu ser um alento, na verdade, preocupou ainda mais os moradores, que foram pegos de surpresa com o projeto que tem início marcado para junho do ano que vem, enquanto o corredor já teve as obras retomadas após sete anos paradas.

O principal temor é que a história que eles presenciaram acontecer com vizinhos quando a ponte começou a ser construída em 2012, na gestão de João da Costa (PT), se repita. À época, mais de 400 casas foram marcadas para demolição. Algumas famílias receberam indenizações, e outras somente a promessa de que iriam para um habitacional. Todavia, só um edifício foi construído até então, com 16 apartamentos, e cerca de 20 famílias até hoje continuam a receber um insuficiente auxílio-moradia de R$ 200, segundo a líder comunitária Regina Célia.

É o caso da educadora social Teonice Barbosa. “Já vimos essa história acontecer. Eu e meu marido morávamos em uma casa que foi marcada em 2012. A gente iria receber um apartamento no habitacional em até 2 anos, mas até agora nada. Não sabemos se vamos para esse novo habitacional, ninguém nos informou nada”, disse. Já a sogra dela, a aposentada Maria da Guia, ganhou R$ 35 mil pela residência, que valia em média R$ 80 mil. "Se forem despejar, que pelo menos deem o valor que a casa vale", cobrou.

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Se forem despejar, que pelo menos deem o valor que a casa vale", afirma a aposentada Maria da Guia, que, em outra desapropriação, em 2012, ganhou R$ 35 mil pela residência, que valia em média R$ 80 mil - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM

Para o Habitacional Vila Esperança, são previstos dois blocos com térreo e mais quatro andares, um com 40 unidades e o outro com 35, e apartamentos com área de aproximadamente 40 m² e dois quartos, além de creche, horta, pomar, playground, bicicletário, espaço para coleta seletiva e equipamentos para eficiência energética. O acesso ao habitacional seria feito pela Rua 19 de Abril.

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Local das obras que dão seguimento à construção da Ponte Engenheiro Jaime Gusmão - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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DESAPROPRIAÇÃO Moradores da Vila Esperança contaram ter sido surpreendidos com anúncio de que deveriam deixar casas por causa de obras - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Local onde deve ficar o Habitacional Vila Esperança, segundo a Prefeitura do Recife - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Comunidade Vila Esperança/Cabocó, no Monteiro, sofre com anúncio repentino da desapropriação - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM

Pelas redes sociais, o prefeito João Campos (PSB) anunciou a construção enquanto visitava as obras da ponte, afirmando que o projeto foi feito “com muito diálogo com a comunidade, entendendo que as famílias que moravam na Zeis há muitos anos têm sempre o direito de escolha”. A Autarquia de Urbanização do Recife (Urb) informou que entraria em contato com os moradores que teriam direito ao habitacional ou à indenização.

Mas é justamente a falta de comunicação uma das principais críticas de quem reside na Vila Esperança. "São eles quem querem comprar. A gente não colocou placa, nada aqui. Então eles que precisam explicar. Nenhum projeto foi mostrado com clareza para a gente, nem de habitacional, nem de ponte. Uma hora dizem uma coisa, outra hora dizem outra. Em momento nenhum os moradores estão sendo ouvidos”, disse a autônoma Lidiane Santana, que reside no local há mais de 30 anos.

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A autônoma Lidiana Santana pede maior transparência à Prefeitura do Recife - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM

O drama da comunidade já havia sido reportado pelo JC em setembro deste ano, quando moradores foram surpreendidos com a notícia de que teriam de sair do local onde moram há décadas.

O assunto também foi pauta em audiência pública na Câmara dos Vereadores do Recife em 25 de outubro. Na ocasião, o vereador Alcides Cardoso (DEM) cobrou que a Prefeitura apresentasse o cronograma de construção do habitacional e a regularização fundiária das casas da região, o que iria valorizá-las.

“Defendemos que primeiro seja construído o habitacional para retirá-los e, então, derrubar as casas. Ali é uma Zeis, e queremos que os moradores tenham primeiro a posse, que é direito deles, para depois ter uma indenização, porque agora estão indenizando só o terreno, e o valor fica muito mais baixo”, disse o parlamentar.

A gestão municipal teria 15 dias para responder às indagações feitas durante a reunião, mas afirmou que, até agora, “não recebeu os encaminhamentos da audiência pública”. Por enquanto, disse ao JC, por nota, que o habitacional terá 75 apartamentos para as 67 famílias afetadas pelas obras da ponte, sem detalhar se o número também engloba as pessoas despejadas na primeira etapa de sua construção.

PONTE MONTEIRO-IPUTINGA

Segundo noticiou o JC, a obra da Ponte Engenheiro Jaime Gusmão tem um orçamento de R$ 38 milhões e deve beneficiar, diretamente, 58 mil pessoas, de acordo com informações da Prefeitura do Recife. O prazo para realização das obras é de 24 meses. Considerada importante para a mobilidade da cidade, vai ligar a Zona Norte à Zona Oeste da cidade, reduzindo em até 33% o tempo de deslocamento das pessoas que moram nessas duas regiões.

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