INDIGENISTA

Após dia de homenagens e comoção, indigenista Bruno Pereira é cremado em Pernambuco

Corpo do indigenista, morto com o jornalista Dom Phillips na Amazônia, teve despedida com comovente ritual do povo Xucuru

Emannuel Bento
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Emannuel Bento
Publicado em 24/06/2022 às 18:47 | Atualizado em 24/06/2022 às 19:20
GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
RITUAL Indígenas do povo Xucuru, de Pesqueira, participaram do velório de Bruno Pereira, no Cemitério Morada da Paz, com cânticos e danças - FOTO: GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
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O corpo de Bruno Pereira, um dos mais respeitados indigenistas brasileiros, foi cremado no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, no Grande Recife, na tarde desta sexta-feira (24), por volta das 15h.

Antes da cremação, o velório foi marcado por despedidas de familiares, amigos e de indígenas, que fizeram um comovente ritual.

Os indígenas da aldeia Xucuru, localizada em Pesqueira, entoaram canções e danças fúnebres ao redor do caixão de Pereira, que foi decorado com uma foto do indigenista, bandeiras de Pernambuco e de seu time de coração, o Sport Clube do Recife.

Considerado um dos maiores especialistas em povos isolados do País, Bruno Pereira foi assassinado junto com o jornalista britânico Dom Phillips na região do Vale do Javari, no Amazonas. Bruno dedicou sua vida profissional à defesa dos povos indígenas.

Familiares, amigos e indígenas se despedem

GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
DESPEDIDA Velório do indigenista Bruno Pereira em Paulista, no Grande Recife - GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
Gabriel Ferreira/TV Jornal
Familiares se despedem de Bruno Pereira no Morada da Paz - Gabriel Ferreira/TV Jornal

"Sem dúvida, é uma perda que não tem como explicar o porquê de tudo isso. Como uma pessoa tão feliz pelo que fazia com empatia gigantesca com seu povo desaparecer da pior forma que poderia acontecer. É inaceitável, principalmente, pela omissão de quem deveria se responsabilizar", disse Manoel Santos, um amigo de faculdade de Bruno.

O colega também questionou o inquérito. "Nós estamos numa situação muito estranha. O inquérito antes de terminar diz que não tem um mandante. Eu desconheço isso. Você pode falar isso depois que acabar o inquérito, não antes", questionou.

"Todas essas pessoas que se envolvem com essas questões territoriais, a denúncia de mineração nas terras indígenas, tudo isso coloca em cheque os direitos dos povos indígenas. Eles estão no alvo como o que aconteceu com o Bruno e com o Dom", afirmou Vânia Fialho, representante da Rede de Monitoramento de Direitos Indígenas em Pernambuco.

GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
DESPEDIDA Velório do indigenista Bruno Pereira em Paulista, no Grande Recife - GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
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DESPEDIDA Velório do indigenista Bruno Pereira em Paulista, no Grande Recife - GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
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DESPEDIDA Velório do indigenista Bruno Pereira em Paulista, no Grande Recife - GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL
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DESPEDIDA Velório do indigenista Bruno Pereira em Paulista, no Grande Recife - GABRIEL FERREIRA/TV JORNAL

"A cerimônia que viemos fazer aqui foi uma despedida para trazer da mata sagrada do território Xingu a força do encantamento, porque hoje ele se torna um encantado para nós. É uma grande perda não só para nós, mas para todo o Brasil, todos os que lutam em defesa da vida, porque defender a mãe terra é defender a vida", disse o cacique Marcos Xucuru.

"Hoje, a terra onde ele nasceu o recebe, seu corpo reencontra o barro, as raízes das plantas, a água e o calor do solo", disse em nota o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados, para o qual Pereira trabalhava. "Seu corpo carrega o perfume salgado do mar e o aroma denso da mata que ele defendeu até que os destruidores da floresta o mataram de forma traiçoeira", acrescentou a organização.

Após a conclusão da perícia pelo Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, o corpo de Bruno Pereira chegou à capital pernambucana em um avião da Polícia Federal (PF), às 18h36 desta quinta-feira (23). O voo saiu de Brasília e teve uma parada no Rio de Janeiro, local onde o corpo de Dom Phillips foi entregue aos familiares do jornalista.

Quem foi o indigenista Bruno Pereira

REPRODUÇÃO DE VÍDEO
Aldeias indígenas já se despedem de Bruno Pereira com rituais - REPRODUÇÃO DE VÍDEO
Acervo Pessoal/Reprodução
Ex-alunos postam fotos com Bruno Pereira no Colégio Contato - Acervo Pessoal/Reprodução

Nascido no Recife, Bruno Pereira estudou no Colégio Contato e deixou Pernambuco aos 22 anos, em meados dos anos 2000, para seguir o sonho de trabalhar na Amazônia. Ao longo da última década, foi coordenador regional da Funai de Atalaia do Norte, que compreende justamente a área onde ele foi visto pela última vez.

O servidor deixou o cargo em 2016, durante um intenso conflito registrado entre povos isolados da região. Em 2018, se tornou o coordenador-geral de Índios Isolados e de Recém Contatados da Funai, quando quando chefiou a maior expedição para contato com índios isolados dos últimos 20 anos.

Bruno Pereira atuava em territórios contra os invasores, como garimpeiros e madeireiros da região. Em 2019, ele foi exonerado do cargo de coordenador-geral, mas continuou atuando como assessor na União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). O local, que é a segunda maior terra indígena do País, é foco de disputa do tráfico de drogas, roubo de madeira e o garimpo.

O indigenista já havia denunciado que estaria sofrendo ameaças na região, informação confirmada pela PF, que abriu procedimento investigativo sobre a denúncia. Casado com a antropóloga Beatriz Matos, o indigenista deixou três filhos.

Investigações sobre mortes de indigenista e jornalista continuam

REPRODUÇÃO
DUPLO HOMICÍDIO Bruno Pereira e o repórter Dom Phillips foram executados na região do Vale do Javari - REPRODUÇÃO

Os peritos dos corpos concluíram que eles foram assassinados a tiros: Bruno foi baleado três vezes, na cabeça e no tórax, e Dom uma vez, no peito.

A Polícia Federal já identificou oito pessoas envolvidas nas mortes, sendo que três estão presos e cinco foram identificados por terem participado da ocultação dos cadáveres.

Os presos são Amarildo da Costa Pereira, conhecido como Pelado, Jefferson da Silva Lima e Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como Dos Santos. Os corpos foram encontrados após a confissão de Amarildo.

Autores do crime já afirmaram que a motivação do assassinato teria sido justamente a atuação de Bruno e Dom na denúncia de acesso e exploração ilegal da reserva.

A PF chegou a dizer, no último dia 17, que não haveria mandantes nem participação de organizações criminosas. A conclusão, no entanto, foi rechaçada pela Univaja, que, em nota, informou terem sido repassados dados sobre organizações criminosas que estariam atuando na região.

De acordo om a PF, as investigações continuam para esclarecer todas as circunstâncias, os motivos e os envolvidos no caso.

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