DECISÃO

Após ameaças, Grupo Globo e Folha de S.Paulo anunciam suspensão da cobertura de Bolsonaro na saída do Alvorada

A decisão foi tomada pela "falta de segurança" aos jornalistas

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Publicado em 25/05/2020 às 23:27
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ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL
A cobertura jornalística de ambos os veículos de comunicação está suspensa temporariamente - FOTO: ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL
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Nesta segunda-feira (25), o Grupo Globo e o jornal Folha de S.Paulo decidiram suspender a cobertura jornalística na saída do Palácio do Alvorada, a residência oficial do presidente da República. A decisão de ambas as empresas se deu devido a "falta de segurança" aos jornalistas no local, que é conhecido como "cercadinho", onde os profissionais da imprensa ficam próximos dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Os profissionais da Rede Globo, do portal G1 e da Folha de S.Paulo suspenderam a cobertura por tempo indeterminado, enquanto que os do jornal Valor Econômico deixarão de cobrir a saída do chefe do Executivo na saída do Alvorada por uma semana. O Grupo Globo, inclusive, enviou uma nota ao general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), relatando os insultos que os profissionais da empresa vêm passando.

 

Um dos episódios mais conhecidos de agressões contra profissionais de comunicação aconteceu no dia 3 de maio, durante uma manifestação pró-governo. Na ocasião, o fotógrafo do jornal O Estado de S. Paulo Dida Sampaio registrava imagens do presidente em frente a rampa do Palácio do Planalto, numa área restritiva para a imprensa quando foi agredido. Sampaio usava uma pequena escada para fazer o registro das imagens quando foi empurrado duas vezes por manifestantes, que desferiram chutes e murros. O motorista do jornal, Marcos Pereira, que apoiava a equipe de reportagem, também foi agredido fisicamente com uma rasteira.

Mais recente, no dia 17 de maio, outra agressão a uma profissional da imprensa foi registrado em mais uma manifestação em prol de Bolsonaro. Uma apoiadora do presidente bateu com o mastro de uma bandeira do Brasil na cabeça de uma jornalista da Band News TV que esperava para entrar ao vivo durante manifestação, em Brasília.

Depois da agressão, a repórter Clarissa Oliveira relatou que o tom dos manifestantes foi "bastante agressivo" em relação à imprensa. A responsável pela agressão, de acordo com ela, circulava com a bandeira do Brasil chamando profissionais da imprensa de "lixo". Após acertar com a bandeira na cabeça da profissional, a mulher riu da situação e pediu desculpas, ainda aos risos. 

Na tarde desta segunda-feira (25), jornalistas foram hostilizados por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e criticados pelo chefe do Executivo. "No dia que vocês tiverem compromisso com a verdade, eu falo com vocês de novo", disse Bolsonaro, e foi apoiado por pessoas presentes.

Também nesta segunda, uma mulher passou pelo grupo de jornalistas que esperavam o presidente os chamando de "lixos, ratos, ratazanas", e afirmou ser "Bolsonaro até 2050". "Imprensa podre. Comunistas", gritou a apoiadora do presidente.

"Ser vergonha. Vocês não mostram a realidade", disse outra mulher. "Eu não sei como vocês conseguem dormir a noite. Vocês não representam a população brasileira. Mídia comunista, comprada. Cambada de safados", gritou um homem.

A Folha de S.Paulo questionou sobre o episódio ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), responsável pela segurança do Alvorada, e a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), mas não recebeu resposta. Segundo o jornal, a cobertura será retomada "somente depois das garantias de segurança aos profissionais por parte do Palácio do Planalto".

Também ao GSI, o Grupo Globo comunicou a decisão de não enviar mais repórteres. Segundo o comunicado, os jornalistas irão encontrar "maneiras seguras de apurar e relatar o que se passa ali, sem prejuízo do público".

Na carta enviada ao ministro-chefe do GSI, Augusto Heleno, o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo, afirmou que "são muitos insultos e apupos" que os profissionais vêm sofrendo.

Bolsonaro cita jornalistas da Folha e Globo em reunião ministerial

Ataques do presidente Jair Bolsonaro à imprensa brasileira são feitos constantemente. Inclusive, na reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, divulgada na última sexta-feira (22) após decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, o chefe do Executivo chamou o jornal Folha de S.Paulo de 'bosta', e criticou uma reportagem do veículo de comunicação na qual informava que Renato Bolsonaro, irmão do presidente, foi barrado de entrar em um açougue após recusar cumprir as medidas de segurança determinadas pela Prefeitura de Registro, no Estado de São Paulo, por conta do novo coronavírus.

Bolsonaro também ameaçou integrantes do governo que forem elogiados pela Folha de S.Paulo ou pela Globo. "Aqui eu já falei: perde o ministério quem for elogiado pela Folha ou pelo Globo", declarou. Ele ainda criticou o vazamento de informações sobre seu governo e disse que era necessário ignorar "100%" os veículos de imprensa. "Tem que ignorar esses caras 100%. Senão, a gente não vai para frente. A gente está sendo pautado por esses pulhas. O tempo todo jogando um contra o outro", completou.

 

Leia a íntegra da carta enviada ao GSI

"Ao cumprimentar V.Exa., trazemos ao conhecimento desse Gabinete uma questão que envolve a segurança da cobertura jornalística no Palácio da Alvorada. É público que o Senhor Presidente da República na saída, e muitas vezes no retorno ao Palácio, desce do carro e dá entrevistas, bem como cumprimenta simpatizantes. Este fato fez vários meios de comunicação deslocarem para lá equipes de reportagem no intuito de fazer a cobertura.

Entretanto são muitos os insultos e os apupos que os nossos profissionais vêm sofrendo dia a dia por parte dos militantes que ali se encontram, sem qualquer segurança para o trabalho jornalístico.

Estas agressões vêm crescendo.

Assim informamos por meio desta que a partir de hoje nossos repórteres, que têm como incumbência cobrir o Palácio da Alvorada, não mais comparecerão àquele local na parte externa destinada à imprensa.

Com a responsabilidade que temos com nossos colaboradores, e não havendo segurança para o trabalho, tivemos que tomar essa decisão

Respeitosamente,

Paulo Tonet Camargo

Vice-Presidente de Relações Institucionais

Grupo Globo"

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