MOBILIZAÇÃO

Surgem quatro movimentos em defesa da democracia em menos de 10 dias

Quatro movimentos foram lançados em menos de 10 dias defendo o regime democrático de direito, como o Estamos#Juntos, Somos 70% e Basta !

JC
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Publicado em 06/06/2020 às 1:37
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Foto: Filipe Jordão/ JC Imagem
A lista de quem assinou o manifesto do Estamos#Juntos vai de Luciano Huck a Marcelo Freixo (PSOL) - FOTO: Foto: Filipe Jordão/ JC Imagem
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A crise sanitária, política e econômica tem provocado movimentos novos na sociedade. Em menos de 10 dias, surgiram quatro agrupamentos unindo muita gente em tese de campos políticos diversos: o Estamos#Juntos, 0 Somos 70%, 0 Basta! e o Somos Democracia, este último reunindo torcidas organizadas (com histórico recente de violência) que até então se tratavam como rivais. A característica dos movimentos é a abrangência das pessoas que subscreveram ou apoiaram algumas dessas iniciativas. O manifesto do Estamos#Juntos foi assinado por políticos dos mais diversos partidos, indo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) até o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), além de contar com o apoio de artistas, intelectuais, cientistas e outros profissionais que também não comungam da mesma concepção política. No motivo principal, a reiterada ameaça de integrantes e apoiadores do governo Bolsonaro a poderes constituídos.

>> Manifesto Estamos #Juntos une personalidades de diferentes campos políticos em defesa da democracia

Todos os grupos têm em comum premissas como a defesa da democracia, a obediência à Justiça e o respeito às instituições que formam o alicerce da independência e equilíbrio dos poderes no Brasil. É um cansaço pela forma como age o governo Bolsonaro. Em tempos de pandemia, a insatisfação não pode ser mostrada na rua. Com esse tamanho e diversidade, não víamos tanta gente no mesmo movimento desde as Diretas Já”, resume o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino. O Diretas Já foi um movimento articulado por alguns segmentos da sociedade, nos anos 1980, que acabou recebendo o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e que contribuiu para o Brasil voltar a ter um presidente civil depois do regime militar.

Mas, voltando aos atuais movimentos, o manifesto do Estamos#Juntos foi assinado por 278,6 mil pessoas até a última sexta-feira (5), quando completou oito dias de existência. “Esses movimentos refletem também a necessidade que as pessoas estão sentindo de dizerem que querem a preservação do estado democrático de direito. Estão ocorrendo várias medidas autoritárias ou estranhas por parte do governo federal e de seus apoiadores. As pessoas estão percebendo”, argumenta Leandro.

Uma das coisas que ele considera estranha é a divulgação do número de mortos e infectados pelo coronavírus, que era feita pelo Ministério da Saúde no final da tarde e, desde a semana passada, passou a ser divulgado depois das 21h.

Alguns analistas entendem que os atuais movimentos podem abrir as portas para reações maiores, quando a pandemia passar. Leandro e mais dois entrevistados também enxergam a possibilidade de que essas iniciativas suprapartidárias possam mitigar a polarização da sociedade e da política no País, iniciada desde 2014.

“Nunca vi antes tanta adesão aos movimento, como está ocorrendo com o Estamos#Juntos, por exemplo. É possível que, depois dessa pandemia e desses movimentos, comece algo diferente. A polarização entre o Lulismo versus o Bolsonarismo pode se tornar os Bolsonaristas versus todos os demais”, argumenta o economista e ex-professor da UFPE Tarcísio Patrício de Araújo, que, além de assinar o manifesto do Estamos#Juntos, mandou informações sobre o movimento para vários grupos de WhatsApp do qual participa. E acrescenta: “Há um momento novo, a sociedade mostrou que está viva. É um respiro”.

VISÕES DE MUNDO

“A pandemia foi um choque de proporções tectônicas na polarização. E o governo continuou polarizando mais com ameaças ao Congresso, à Justiça, particularmente ao Supremo Tribunal Federal. Esses movimentos são uma defesa dessas instituições. O que ocorreu de mais positivo até agora foi a valorização da democracia dentro dos parâmetros democráticos, sem violência”, comentou o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Carlos Pereira. Ele considera cedo para dizer qual o caminho que esses movimentos vão percorrer, principalmente durante uma pandemia.

A quantidade de pessoas infectadas e mortas por causa do coronavírus pode provocar consequências na política, sobretudo porque ações foram politizadas, como o uso de máscaras e autorização para administração da cloroquina. “Dependendo do desgaste do governo federal, esses movimentos também podem lançar uma articulação diferente para 2022”, argumenta Leandro.

Os especialistas também não decifraram ainda como o PT – também alvo de um movimento grande de rejeição frente aos escândalos do mensalão e do petrolão – vai participar desses movimentos. O ex-presidente Lula (PT) chegou a divulgar nas redes sociais que não assinaria esses manifestos.
No entanto, um dos principais quadros do PT, o ex-presidenciável e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad assinou o Estamos#Juntos. “A tendência é haver um isolamento de posições radicais do governo e dos que não aderirem a esses movimentos”, argumenta Leandro.

Há um apelo no manifesto dos movimentos por união, de deixar as diferenças de lado e exigir “que nossos representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país”, como diz o manifesto do Estamos#Juntos, ao argumentar querer um Brasil “que nos traga de volta a alegria e o orgulho de ser brasileiro”.

 O JC separou algumas frases retiradas das redes sociais sobre a adesão ao Estamos#Juntos

"Somos cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras e fazemos parte da maioria que defende a vida, a liberdade e a democracia", diz o diretor do conselho do Porto Digital, Sílvio Meira, citando trecho do manifesto .

"O Manifesto Estamos#Juntos não é de esquerda nem de direita. Seus objetivos são claros na defesa da democracia e da liberdade contra retrocessos que infelizmente nestes tempos de Bolsonaro estão a cada dia mais evidentes. A frente é ampla", afirma o ex-deputado federal Roberto Freire.

"Hora de agir. Estamos mobilizados pela democracia do Brasil", posta o apresentador Luciano Huck.

 

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