Entrevista

Forças Armadas não são instrumento de intimidação política, diz Santos Cruz após Bolsonaro retirar comandantes

Santos Cruz concedeu entrevista à Rádio Jornal

Cássio Oliveira
Cássio Oliveira
Publicado em 31/03/2021 às 9:42
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MONUSCO/Myriam Asmani/Reprodução/Wikipedia/Marcado para reutilização
O general da reserva deixou o governo Bolsonaro por não concordar com os rumos tomados pela gestão do presidente - FOTO: MONUSCO/Myriam Asmani/Reprodução/Wikipedia/Marcado para reutilização
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Ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz criticou a tentativa de '''se arrastar'' as Forças Armadas brasileiras para o campo político. Em entrevista à Rádio Jornal, na manhã desta quarta-feira (31), o militar falou sobre a quebra de expectativa com a gestão Jair Bolsonaro e discordou da forma como foram exonerados os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.

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Sobre a discussão de que os militares caíram por se opor a fazer política, Santos Cruz explicou o real papel das Forças. "Tem suposições, pela mídia principalmente, de que foi por conta de não alinhamento político das Forças Armadas. Mas as Forças Armadas não existem para pra se alinhar com ninguém, elas ajudam a manter o estado de direto, de acordo com a lei, ajudam nas crises do país. No Nordeste, por exemplo, tem permanente distribuição de água, na parte mais seca. Então, as Forças Armadas não são instrumento de intimidação politica para projeto de poder. Os comandantes estavam certos e não há divisão nenhuma no Exército, o pessoal deve estar mais unido ainda", comentou.

Vejo um bloco monolítico (nas Forças Armadas), que não se deixa ser arrastado politicamente
General Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo

Na segunda (29), Bolsonaro confirmou seis mudanças em ministérios, incluindo o Ministério da Defesa, o que acabou levando à demissão dos três comandantes das Forças Armadas, conforme a pasta anunciou nessa terça (30), em nota. Os comandantes estariam receosos que houvesse uma demanda por um alinhamento político das tropas com Bolsonaro. Na carta em que anuncia as demissões, Fernando Azevedo disse que, durante o período que comandou a pasta, preservou "as Forças Armadas como instituições de Estado".

Ouça a entrevista com o general Santos Cruz:

Para Santos Cruz, reformas ministeriais são normais, mas "não é normal nessa reforma ministerial trocar os três comandantes de Forças Armadas. "Infelizmente, o afastamento dos comandantes se deu de forma absurda, houve falta do mínimo de consideração institucional e com o público. Uma reforma ministerial é normal, agora, os comandantes militares não são políticos, não fazem parte deste nível ministerial. Eles são pessoas que vem de dentro da própria instituição e têm uma média de 45 anos de serviço. Foram testados e selecionados dentro da instituição. Não é como trocar um ministro”, lembrou. 

Confira outros pontos da entrevista de Santos Cruz à Rádio Jornal:

Governo Bolsonaro

Santos Cruz: Você vai trabalhar em um governo para ajudar a população, mas, desde o primeiro momento, isso ficou comprometido pelo comportamento pessoal do presidente e desse grupo mais extremista, com uma intensa ação de internet. O país não encontrou a paz que precisava depois da eleição. Depois da eleição, você tem de governar pra todo mundo. Essa paz não chegou e isso perturbou o ambiente político todo.

Golpe militar de 1964

Santos Cruz: O que acontece é que sou da geração que não acha que foi golpe, que fala de revolução, contra-revolução. Uma situação daquelas tem preço politico grande, não é ideal a um país, o ideal é a normalidade democrática, mas falamos de 56 anos atrás, na velocidade de mudança, hoje é outra sociedade. Tem os que perderam que criticam, é normal, não adianta discutir se foi golpe ou não uns acham uma coisa outros acham outra. Tem que respeitar, mas não pode retroagir e ficar fixado na discussão. Pode-se discutir com quem tem posicionamento diferente e respeitar. O problema hoje é o fanatismo e isso acaba em violência, isso não é bom.

Eleição de 2018

Santos Cruz: A eleição do presidente (Bolsonaro) foi dentro de um dos componentes fortes foi sentimento antipetismo, o PT se desgastou, teve escândalos, que não foi só PT, outros partidos também, mas isso colaborou e foi uma parcela de quem votou em Bolsonaro. Havia expectativa de mudança de ciclo, mudança de comportamento, mas isso não vem sendo confirmado. A família militar, era o grupo que sustentava as eleições (de Bolsonaro), depois para presidente foi de forma nacional e essa imagem militar, o título de capitão, colaborou para puxar voto, mas o comportamento político deixa a desejar, baseado em conflito, em espetáculos quase diários e culmina com essa demissão absurda, sem nenhuma explicação.

Filhos de Bolsonaro atrapalham o governo?

Santos Cruz: Infelizmente, o presidente iniciou o governo com influência grande do grupo que se comporta como uma seita. A população votou  em uma pessoa, não em uma família. Cada um tem seu espaço legislativo, é bom que cada um fique no seu quarado, na sua área de atuação. A a sociedade não gosta dessa interferência, é problema de influencia de um grupo extremista, que comete barbaridades na internet, comete até crimes. Se o presidente não afastar essa gente, a chance de ter problema é maior. Não sei como ele fará, pois ele faz parte desse grupo, que não é grande, mas atrapalha.

Pretensões políticas

Santos Cruz:  Não tenho interesse agora (em disputar eleição). Vivi em conflito na África, vi o fanatismo e vejo agora o fanatismo alimentado no Brasil. É perigoso e pode levar à violência. Minha motivação é alertar sobre isso, não pode deixar aumentar. E estou para não deixar arrastar as Forças Armadas para política. Ser falou em poder moderador, se fala toda hora em Forças Armadas na imprensa e isso não pode acontecer. Essas são minhas motivações. Não sou filiado, sou cidadão normal e se lá na frente tiver interesse, me filio e vou para o que a população decidir. Mas isso não ocupa minha cabeça e se fizer será no último minuto do segundo tempo.

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