SESSÃO

CPI da Covid ouve Carlos Wizard, que seria membro de "gabinete paralelo" de Bolsonaro; acompanhe

Defensor do uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento dos sintomas da covid-19, mesmo sem evidências científicas que comprovem sua eficácia, Wizard se aproximou do então ministro da Saúde Eduardo Pazuello e passou a atuar como conselheiro

Vanessa Moura
Vanessa Moura
Publicado em 30/06/2021 às 8:50
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MARCOS OLIVEIRA/AGÊNCIA SENADO
O empresário é ouvido nesta quarta (30) - FOTO: MARCOS OLIVEIRA/AGÊNCIA SENADO
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O empresário Carlos Wizard, apontado como colaborador informal do Ministério da Saúde, é ouvido nesta quarta-feira (30), a partir das 9h, pela CPI da Covid. Wizard, fundador da maior rede de ensino de idiomas do Brasil, é investigado como membro do suposto "gabinete paralelo" de aconselhamento ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O assunto é prioridade entre as linhas de investigação da CPI e, segundo avaliação da cúpula, este gabinete teria influenciado o Palácio do Planalto a tomar decisões sem respaldo científico no enfrentamento à pandemia da covid-19. Acompanhe ao vivo: 

Defensor do uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento dos sintomas da covid-19, mesmo sem evidências científicas que comprovem sua eficácia, Wizard se aproximou do então ministro da Saúde Eduardo Pazuello e passou a atuar como conselheiro. Tempo depois, chegou a receber a proposta de um cargo na pasta, mas preferiu não aceitar para continuar agindo de forma independente e junto ao governo federal.

O depoimento do empresário, que deveria ter acontecido desde o dia 17 de junho, tem sido bastante aguardado pelos parlamentares. Na ocasião, ele afirmou que estava nos Estados Unidos e não poderia comparecer a oitiva. Por causa disso, Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, solicitou a retenção de seu passaporte.

Nas redes sociais, Wizard afirmou que estava em Utah, nos EUA, visitando os pais desde março. Depois disso, relatou ter ido à Flórida para encontrar-se com sua filha grávida. "Agradeço à manifestação de apoio e carinho dos amigos. Estou com a consciência em paz", escreveu. 

A CPI da Covid no Senado Federal também deve pressionar Wizard a responder se ele e outros empresários que têm afinidade com o governo Bolsonaro — a exemplo de Luciano Hang (dono da varejista Havan) — participaram de forma direta ou indireta das negociações para compra de vacinas.

Nesta quarta-feira, a comissão deve pressionar o empresário a responder questões sobre a negociação para compra de vacinas. A CPI também deve votar novos convites, convocações e quebras de sigilos, como a convocação do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), apontado pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) e pelo seu irmão, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, por supostamente ter participado em irregularidades no contrato para a compra da vacina indiana Covaxin.

Além disso, o suposto pedido de propina por dose de vacina contra covid-19 por parte do então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, exonerado após a denúncia, também deve repercutir na sessão. 

Pedido de propina

O representante de uma vendedora de vacinas teria dito em entrevista à Folha de S. Paulo que recebeu pedido de propina de US$ 1 por dose em troca de fechar contrato com o Ministério da Saúde. As informações foram publicadas pelo jornal na noite da terça-feira (29).

Segundo a Folha, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que se apresenta como representante da empresa Davati Medical Supply, disse que o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, cobrou a propina em um jantar no restaurante Vasto, no Brasília Shopping, na capital federal, no dia 25 de fevereiro. O jornal acrescenta que Roberto Dias foi indicado ao cargo pelo líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Sua nomeação ocorreu em 8 de janeiro de 2019, na gestão do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM).

De acordo com a Folha, a Davati procurou o governo federal para oferecer 400 milhões de doses do imunizante desenvolvido pela Astrazeneca e a Universidade de Oxford. Na época, cada dose sairia por US$ 3,5 (o equivalente a R$ 17,35 pela cotação desta terça-feira).

"Eu falei que nós tínhamos a vacina, que a empresa era uma empresa forte, a Davati. E aí ele falou: 'Olha, para trabalhar dentro do ministério, tem que compor com o grupo'. E eu falei: 'Mas como compor com o grupo? Que composição que seria essa?'", afirmou Dominguetti à Folha

Foi aí que Dias teria apresentado a proposta de majorar o valor do imunizante para viabilizar o negócio. O empresário teria dito que esse tipo de acordo não era possível porque as doses vinham do exterior e, lá, as companhias não operavam dessa maneira.

A solução apresentada pelo diretor do ministério seria adicionar um dólar ao valor de cada dose. Com a cotação atual, US$ 400 milhões equivalem a R$ 1,984 bilhão. "Foi uma coisa estranha porque não estava só eu, estavam ele e mais dois. Era um militar do Exército e um empresário lá de Brasília", descreveu Dominguetti à Folha.

Ao jornal, o empresário disse ter certeza que conversou com o representante do governo federal. Sugeriu que os dados telemáticos do seu celular e as câmeras de segurança do local podem ser usadas para confirmar o encontro.

Como Dominguetti rejeitou o acordo, Dias teria pedido para que ele pensasse e voltou a chamá-lo para ir à pasta dois dias depois. Ele teria pedido ao empresário para esperar numa sala, enquanto concluía uma reunião.

"Disso, eu recebi uma ligação perguntando se ia ter o acerto. Aí eu falei que não, que não tinha como. Isso, dentro do ministério. Aí me chamaram, disseram que ia entrar em contato com a Davati para tentar fazer a vacina e depois nunca mais. Aí depois nós tentamos por outras vias, tentamos conversar com o Élcio Franco, explicamos para ele a situação também, não adiantou nada. Ninguém queria vacina", afirmou ao jornal.

A Folha disse que tentou contato com Roberto Dias, mas não teve sucesso. Por meio de nota, Ricardo Barros disse desconhecer a denúncia. "Em relação à matéria da Folha, reitero que Roberto Ferreira Dias teve sua nomeação no Ministério da Saúde no início da atual gestão presidencial, em 2019, quando não estava alinhado ao governo. Assim, repito, não é minha indicação", afirmou o deputado.

Saúde anuncia exoneração de diretor citado em denúncia

Após a publicação da Folha, o Ministério da Saúde divulgou uma nota na qual anunciou a exoneração de Roberto Dias, diretor de Logística.

A pasta não explica o motivo da exoneração, dizendo apenas que a decisão foi tomada durante a manhã desta terça-feira (29).

"O Ministério da Saúde informa que a exoneração de Roberto Dias do cargo de Diretor de Logística da pasta sairá na edição do Diário Oficial da União desta quarta-feira (30). A decisão foi tomada na manhã desta terça-feira (29)", informou o ministério.

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