ENTREVISTA

Em fala paz e amor ao Nordeste, reduto de Lula, Bolsonaro diz que recuperação econômica vai demorar, que não quer "guerra civil" e 7 de setembro será pacífico

Presidente concedeu entrevista, nesta quinta-feira (26), ao programa Passando a Limpo apresentado pelo radialista Geraldo Freire

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 26/08/2021 às 9:02
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Jair Bolsonaro é entrevistado por Geraldo Freire na Rádio Jornal - FOTO: Reprodução
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Com um estilo mais paz e amor, diferente do habitual, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que a recuperação econômica do Brasil ainda deve demorar e citou que a solução para a redução da inflação no país e, consequentemente de produtos, como gás de cozinha e combustíveis, passa pelos governadores. A declaração foi dada nesta quinta-feira (26), em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, apresentado pelo comunicador Geraldo Freire.

 

“Tenho uma notícia boa para o Brasil todo: a economia está se recuperando. Nós passamos momentos difíceis no ano passado quando aquela política do 'fique em casa, a economia a gente vê depois' abalou nossa economia profundamente", afirmou Bolsonaro. "Tomamos medidas para que os empregos formais com carteira assinada não fossem destruídos pela política de alguns governadores e prefeitos, como o lockdown. Atendemos o pessoal mais necessitado, os informais, que não tinham carteira assinada, com Auxílio Emergencial. Agora, as coisas não vão ser tão rápidas como muitos querem”, emendou.

"Estamos vendo a inflação, sim, na casa dos 7%, quando falo isso, é uma inflação global. Lógico que os alimentos estão muito acima disso, o que é preocupante. Se bem que a inflação, no tocante aos alimentos, veio para o mundo todo. Todos estão sofrendo", disso o presidente, afirmando que o preço médio do gás de cozinha está R$ 130, o botijão de 13kg. "Posso conversar com vocês, e temos saída para isso, mas passa pelos governadores, bem como a questão dos combustíveis. O combustível está caro? Não está? Já ultrapassou os R$ 6. Na refinaria, o litro de gasolina custa R$ 2 e pode chegar a R$ 6 ou R$ 7 na ponta da linha. Temos alternativas? Temos, mas eu sozinho não tenho como resolver esse assunto. Passa por um entendimento com os governadores.", pontuou.

O chefe do Executivo nacional disse ainda não acreditar uma "guerra civil" para defender seu mandato, como sugeriu o deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ), investigado por ataques à democracia pelo Supremo Tribunal Federal. 

"O que eu entendo do Otoni de Paula, uma pessoa que vota grande parte das matérias conosco e com quem eu já estive algumas vezes, é que ele tem toda sua liberdade de se expressar. Não acredito em guerra civil. Não provocamos e nem queremos isso daí. Nós votamos por liberdade de imprensa. Nós lutamos para o cumprimento de todos artigos previsto na nossa Constituição. O resto é responsabilidade da pessoa", assegurou Bolsonaro. "Não queiram botar na minha conta como querem fazer o tempo todo, me responsabilizar por opiniões das pessoas. Ele é nosso aliado e tem liberdade de expressão", completou.

Sobre os atos promovidos por seus apoiadores no dia 7 de setembro, o presidente garantiu que eles serão pacíficos. "Acredito que esse movimento do dia próximo dia 7, como todos os outros feitos por pessoas simpáticas ao nosso governo ou simpáticas àquilo que nós defendemos, serão movimentos extremamente pacíficos. Inclusive, há locais em que, quando há manifestações, você não acha um papel no chão. Nós não destruímos patrimônio alheio", declarou Bolsonaro acusando movimentos sociais, como o MST de depredarem bancos e atirarem pedras em policiais. "Nós não fazemos isso. Não fizemos e nem faremos. Reconheço a liberdade que o povo tem para se manifestar contra ou a favor de quem quer que seja. Nós devemos respeitar a opinião pública", concluiu.

Veja a entrevista completa

Presidente, para gente começar essa nossa história hoje em alto astral, o senhor tem uma notícia boa para Pernambuco?

Tenho uma notícia boa para o Brasil todo: a economia está se recuperando. Nós passamos momentos difíceis no ano passado quando aquela política do “fique em casa, a economia a gente vê depois” abalou nossa economia profundamente. Tomamos medidas para que os empregos formais com carteira assinada não fossem destruídos com a política de alguns governadores e prefeitos, como o lockdown. Atendemos o pessoal mais necessitado, os informais, que não tinham carteira assinada, com Auxílio Emergencial. Agora, as coisas não vão ser tão rápidas como muitos querem. Estamos vendo a inflação, sim, na casa dos 7%, quando falo isso, é uma inflação global. Lógico que os alimentos estão muito acima disso, o que é preocupante. Se bem que a inflação, no tocante aos alimentos, veio para o mundo todo. Todos estão sofrendo. A gente vê a questão do gás de cozinha, posso falar sobre o preço médio do gás de cozinha: R$ 130, o botijão de 13kg. Posso conversar com vocês, e temos saída para isso, mas passa pelos governadores, bem como a questão dos combustíveis. O combustível está caro? Não está? Já ultrapassou os R$ 6. Na refinaria, o litro de gasolina custa R$ 2 e pode chegar a R$ 6 ou R$ 7 na ponta da linha. Temos alternativas? Temos, mas eu sozinho não tenho como resolver esse assunto. Passa por um entendimento com os governadores. Quando se fala em alimentos, com o ‘fique em casa’, começou-se a produzir menos no Brasil, e o consumo, acredite, aumentou. Qual foi a consequência? Inflação. Estamos vivendo a maior crise hidrológica da história do Brasil. Nos últimos 90 anos, nunca se viu uma seca tão grande. Isso afeta diretamente a geração de energia, que move a economia. Tivemos também agora geadas, que pegaram mais, obviamente, a Região Sul. A região mais fria, que manda safras, como a do milho. Isso impacta no preço da galinha, do frango e do ovo. Temos notícias tristes, mas temos que nos unir e enfrentar esses desafios. Tanto é que eu não fujo de conversas com a imprensa, com vocês, ao vivo. Estamos à disposição para sermos criticados, questionados e até sermos pressionados por vocês. Este é o nosso trabalho: mostrar a verdade acima de tudo.

Presidente, há pouco ouvimos o ministro Paulo Guedes afirmar que, quase certamente, ele teria que furar o teto de gastos em 2022. Isso lhe preocupa?

É lógico que preocupa. São duas decisões do Supremo, a que trata dos precatórios, se eu não me engano, na casa de R$ 90 bilhões. E a outra que tem a ver com o ICMS, que chega aí, não tenho certeza, na casa dos R$ 200 bilhões. Isso arrebenta com a economia do Brasil. Agora tem algo mais grave do que isso, com todo respeito a esses quase R$ 300 bilhões, chama-se: Marco Temporal, que o STF está para decidir. Iria votar ontem, mas passou para hoje, e talvez termine na semana que vem. Se o Supremo mudar o seu entendimento sobre o Marco Temporal, vem uma ordem judicial para que eu demarque, em terras indígenas, o equivalente ao tamanho da Região Sudeste. Atualmente, temos, praticamente, 14% do território nacional demarcado para terras indígenas, vai passar para aproximadamente 28%. Ou seja, poderemos ter em breve, num curto espaço de tempo, o equivalente a toda Região Sudeste e Sul. Então, uma área desse tamanho como terra indígena. Sem contar os quilombolas. Ou seja, simplesmente não teremos mais agricultura no Brasil. O país está fadado a viver não sei como. Talvez, importando alimentos. Pagando com que dinheiro? Também não sei. Então, são duas decisões do Supremo, que precisam de modulação — espera-se que o consenso impere por lá —, e essa terceira possível decisão que simplesmente acaba com o agronegócio no Brasil.

Um dos seus programas mais elogiados na pandemia acabou nessa quarta (25), o senhor já havia prorrogado por mais de uma vez, aquele de ajudar as empresas no pagamento aos funcionários. Isso pode ser renovado, presidente?

Tem coisa que já foi renovada, outras estão em estudo. Nós conseguimos manter os empregos ano passado com esses dois projetos: o Pronampe e o tal do BEm, que visava diretamente o governo pagando uma parte dos salários dos trabalhadores de carteira assinada, como benefício aos empregadores, para não demiti-los. Então, isso, você pode ver, nós concluímos dezembro de 2020 com mais gente empregada do que dezembro de 2019. É uma coisa fantástica, quase inacreditável. E a economia funcionando basicamente também em cima do Auxílio Emergencial. Nós gastamos no ano passado, com o Auxílio, o equivalente a 13 anos de Bolsa Família. Agora, o governo somos todos nós, vocês pagam a conta, quem nos ouve paga a conta no final da história. A gente não pode continuar gastando dessa maneira, porque é igual a uma pessoa quando extrapola a sua capacidade de pagar as dívidas. Ela simplesmente desaparece. O que aprendemos a fazer agora? Esse Auxílio Emergencial, tivemos que diminuir o valor sim, está, em média, R$ 250 atualmente, mas o pessoal não pode esquecer que a média do Bolsa Família está em R$ 192, uma quantia muito pequena. Então, está tudo certo se essas contas aí não extrapolarem demais, passaremos a dar um reajuste de, no mínimo, 50% para o Bolsa Família, a partir de novembro. O emprego não está fácil. Sabemos disso. Depende de qualificação, também, por parte da pessoa que procura emprego. Cada vez mais, se exige mais daquela pessoa que busca emprego. Agora, tem uma parcela da sociedade que, por causa da idade ou de outros problemas, não tem como conseguir emprego. É quase impossível. Então, nós devemos atendê-los com esse novo programa chamado Auxílio Brasil, que vai substituir o Bolsa Família. Mas o que interessa? Ainda é uma quantia pequena, sabemos disso, na casa dos R$ 300 para ajudar essas pessoas.

Presidente, agora falando de um assunto bem nordestino e bem pernambucano, não sei se o senhor já foi procurado para falar sobre isso, mas o senhor conhece a história do Nordeste em busca da Transnordestina. Pernambuco, há 20 anos, fala da possibilidade de essa ferrovia passar por Suape, mas chegou agora a informação de que a empresa que faz a parceria com o governo não vai usar Suape, vai direto para Pecém, no Ceará. Pernambuco inteiro está esperando para saber do senhor se isso é definitivo ou se o governo federal pode entrar em ação e beneficiar o Estado com essa parceria.

Olha, você falou parceria. Não é dinheiro do Governo Federal, são contratos que nós fazemos com a iniciativa privada e esta visa, obviamente, o lucro. Não visa o atendimento político de quem quer que seja. Eu me comprometo com vocês que vou entrar em detalhe sobre isso com a minha equipe. Está prevista, na minha Live hoje à noite, a presença do ministro Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura. Ele vai tocar nesse assunto — ele está na minha frente aqui. Esse é um problema que se arrasta desde 2014 quando a obra foi paralisada. Faz sete anos e ela volta a andar agora. Nós queremos concluí-la e atender ao Nordeste. Agora, repito aqui, essas questões para atender politicamente não passam por nós. Passam pela iniciativa privada. O Governo Federal, como você bem disse no começo, tem duas paulada aqui, o ICMS e os precatórios. Nós não temos dinheiro. O orçamento do Tarcísio está na casa dos R$ 8 bilhões por ano, o que é muito pouco para o tamanho do Brasil. Esse valor caberia muito bem em um Estado como Pernambuco. Daria para atender basicamente muito bem o Estado e, talvez, sobrasse algum dinheiro. Agora, no Brasil como um todo, complica isso aí. Eu estou vendo o que o Tarcísio vai falar à noite. Sei que é uma ligação do porto de Pecém, no Ceará, ao de Suape, em Pernambuco. R$ 6 bilhõe já foram executados. Faltam R$ 5 bilhões e não temos recursos para isso. É por isso que é um entendimento com a iniciativa privada. O que nós queremos é concluir. Se não for possível atender agora Pernambuco, atenderemos em outra oportunidade. Então, o ministro Tarcísio explica hoje à noite. Me desculpe, aqui, não poder entrar em mais detalhes do que já falei até agora.

É impossível a gente não falar neste assunto, que foi uma decisão dessa quarta, e é a primeira vez que o senhor está falando de público depois dela. O arquivamento, no Senado, do seu pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes. Qual sua avaliação sobre a decisão do presidente do Senado?

Os poderes são independentes, mas vou falar, eu entrei com a ação com intuito de que o processo fosse avante. Nem vou dizer cassar ou não o Ministro Alexandre de Moraes, mas que o processo fosse avante. O presidente do senado, o senhor Pacheco, entendeu e acolheu uma decisão da advocacia do Senado. Agora, quando chegou uma ordem do ministro Barroso para abrir a CPI da Pandemia, ele mandou abrir e ponto final. Então, ele agiu de maneira diferente de como agiu no passado. E nós sabemos, vocês sabem, que nessa briga eu estou praticamente sozinho. O que as acusações contra o ministro Alexandre de Moraes falam? Ele simplesmente ignora a Constituição. Ele desconhece e ignora vários incisos do artigo 5º da Constituição. Ali fala sobre o direito de ir e vir, liberdade de expressão, e ele ignora tudo isso aí. Ele abriu o inquérito sobre fake News, que nem está tipificado no Código Penal. Lá não está escrita a palavra fake News. Ele simplesmente começa a investigar qualquer um. Ele prende e tira a liberdade de qualquer um, como está sem liberdade agora o Roberto Jefferson, como está o jornalista Eustáquio, em prisão domiciliar, como está o deputado do Rio de Janeiro Daniel. Isso tudo baseado em matérias que os caras colocaram nas redes sociais ou pronunciamentos. Mas a nossa Constituição é bem clara: essa é a sua liberdade de expressão. Então, se você erra, o se você extrapola, qualquer um entra na Justiça para pedir danos morais, ressarcimento ou ei lá o quê. Mas nunca prender as pessoas. Não é essa a maneira de agir. E agora, em combinação com o ministro Salomão, do Tribunal Superior Eleitoral, que é corregedor do TSE, manda desmonetizar canais que, por coincidência, têm uma linha semelhante à minha. Mas nada do outro lado. Então, eu lamento a profissão do senhor Rodrigo Pacheco, no dia de ontem, mas nós estaremos aqui no limite, dentro das quatro linhas da Constituição, para buscar garantir a liberdade do nosso povo.

Com relação ao voto impresso, depois da decisão da Câmara, o senhor está disposto a não falar mais neste assunto?

O que acontece? Eu fiz duas lives, uma foi numa quinta-feira, e o TSE rebateu online essa nossa live, apesar de termos comprovado ali estatisticamente fraudes nas eleições da capital de São Paulo no ano passado. Eu posso falar para você rapidamente isso aqui. E na segunda live, como eu usei documento do próprio TSE, o tribunal não rebateu online absolutamente nada. Então, eu comprovei com documentos do TSE que um hacker ou um grupo de hackers ficou por oito meses dentro das máquinas do TSE. Iisso englobou as eleições de 2018. E quando ali, sobre esse inquérito da Polícia Federal que eu revelei, no qual em um dado momento a PF pediu os logs. O que é isso? São as impressões digitais desses hackers que estavam lá dentro. Então, qual foi a resposta do TSE, assinada por seu gerente de informática? Que os logs foram apagados. Ou seja, apagaram as impressões digitais. Se você fizesse isso ou eu nós, seríamos enquadrados por obstrução da Justiça e, com toda certeza, você estaria preso, e eu estaria brigando para não ser preso. Então foi isso que aconteceu lá. Nós comprovamos que o sistema é frágil. Não é que eu não vou falar mais nisso. Agora, estamos trabalhando em outra frente, porque o que nós queremos são eleições limpas. Ninguém falou que não queremos eleições no ano que vem. Nós queremos, sim, eleições democráticas limpas nas quais o Seu Manoel ou a Dona Maria tenham os seus votos efetivamente contados para aquelas pessoas em teque, por ventura, eles votarem. É isso que nós queremos. É isso que mais da metade da população brasileira quer.

Presidente Bolsonaro, e esse evento que está sendo programado, com muita repercussão, para o dia 7 de setembro? Há, inclusive, um aliado seu, o deputado Otoni de Paula, que é do RJ, que aparece dizendo o seguinte: ‘vamos sim ter uma guerra civil no Brasil’. Ele disse que seria uma guerra para defender o seu mandato. Mas é uma coisa meio chocante, porque, imagine alguém querer investir no país sabendo que corremos o risco de ter uma guerra civil. Eu lhe pergunto, o senhor perderia o sono se soubesse que, por alguma razão, teria sido a causa de uma guerra civil no seu país?

Qualquer pessoa que fala algo, que exagera, que extrapola, se ela tem qualquer ligação comigo, se tem um plástico no seu carro escrito ‘Bolsonaro’, o pessoal vincula a mim como se aquela pessoa fosse meu porta-voz. O que eu entendo do Otoni de Paula, uma pessoa que vota grande parte das matérias conosco e com quem eu já estive algumas vezes, é que ele tem toda sua liberdade de se expressar. Não acredito em guerra civil. Não provocamos e nem queremos isso daí. Nós votamos por liberdade de imprensa. Nós lutamos para o cumprimento de todos artigos previsto na nossa Constituição. O resto é responsabilidade da pessoa. Não queiram botar na minha conta como querem fazer o tempo todo, me responsabilizar por opiniões das pessoas. Ele é nosso aliado e tem liberdade de expressão. E acredito que esse movimento do dia próximo dia 7, como todos os outros feitos por pessoas simpáticas ao nosso governo ou simpáticas àquilo que nós defendemos, serão movimentos extremamente pacíficos. Inclusive, há locais em que, quando há manifestações, você não acha um papel no chão. Nós não destruímos patrimônio alheio. O outro lado, quando vai fazer os movimentos, os antifas, o pessoal do MST com bandeira vermelha ou foice e martelo, eles depredam agências bancárias, tocam fogo em pneus na rua e atiram pedras em policiais. Nós não fazemos isso. Não fizemos e nem faremos. Reconheço a liberdade que o povo tem para se manifestar contra ou a favor de quem quer que seja. Nós devemos respeitar a opinião pública.

Presidente, com relação ao Estado de Pernambuco, na próxima eleição para governador, aqui ou ali aparece um dizendo ‘sou candidato de Bolsonaro’. Diga pelo menos três nomes que o senhor poderia dizer: eu tenho três e escolho um.

Não vou dizer que vou disputar a reeleição, até lá tudo pode acontecer. Um cargo como o meu, de Presidente da República, tem que buscar aliados pelo Brasil, se bem que eu não tive em 2018. Meu grande aliado foi o povo brasileiro. Agora Pernambuco, em si, eu tenho um ministro de Pernambuco, que é o Gilson Machado, uma pessoa que me traz informações do Estado. Converso com ele e discutimos bastante. Agora, eu tenho interesse, caso dispute a eleição, em uma bancada de deputados federais e senadores. Interessa ter governador? Interessa, mas ficaria em um segundo plano. Até porque eu não consegui, até o momento, ter um partido para dizer que vamos disputar as eleições e o nosso compromisso é esse. Então, vou deixar o governo do Estado para um segundo plano, e quem me orienta muito e me ajuda muito aí, em primeiro lugar, porque tenho mais gente, é o Gilson Machado.

Agora, voltando às questões administrativas, no começo do governo, o senhor chegou até a trazer uma equipe de Israel para trabalhar com relação à questão hídrica do Nordeste e a dessalinização. Essa coisa sempre foi falada no Nordeste, mas andou muito devagar. Depois, o senhor parou de falar nele. Como está esse processo? O senhor desistiu dele?

Não. O que nós temos que levar em conta é que o mundo todo não viajou durante a pandemia. Israel é um Estado que continua fechado ainda para visitantes, e isso atrapalhou bastante. Ninguém pode negar isso daí. O Ministro Marcos Pontes criou polos tratando desse assunto pelo Brasil. O que posso garantir para vocês é que ele tratou na Paraíba. Então, este assunto continua, logicamente, vivo entre nós. Ontem, por coincidência, discutimos isso com o nosso embaixador que está em Israel. Tratamos do assunto e um intercâmbio entre os nossos países, que seria uma espécie de um projeto Rondon. Isso estava para ser tratado comigo lá atrás, antes mesmo das eleições. Agora, fomos, sim, abatidos em pleno voo nas propostas que pudessem avançar. Agora, sobre a água no Nordeste, estamos trabalhando. Estamos concluindo obras. A transposição do Rio São Francisco é uma realidade no tocante a isso tudo. Já investimos R$ 4 bilhões nessa questão com o ministro Rogério Marinho. Isso é para atacar o grosso, como um todo, no problema da falta de água no Nordeste. Agora, o particular passa sim por dessalinização. Passa por máquinas semelhantes ao ar condicionado,que fica pingando água ali na ponta da linha, que está bastante avançado com o Marcos Pontes. Sobre essas questões, me desculpe, demora um pouquinho para ocorrer. Lamentamos, mais uma vez, a questão da pandemia, que atrasou todas as nossas propostas de buscar algo mais concreto para a falta de água no Nordeste. Eu poderia só adiantar uma coisa para vocês, Israel chove menos do que o sertão nordestino, e lá eles têm uma agricultura pujante. Nesta agricultura, eles conseguem a sua segurança alimentar bem Como exportar parte do que produzem para Europa. Estive três vezes em Israel, antes da para pandemia, obviamente, e fui conhecer a agricultura no deserto. Vamos apelidar esse projeto, dar um nome para esse programa, de Davi Rondon. Dar uma grande ênfase nossa, levando a garotada, no último ano, que faz agronomia para lá, para ver como é a agricultura no Nordeste. Inclusive, uma coisa que é proibida de falar no Brasil, espero que não enquadrem como fake news,quando estive em Israel, eu fui conhecer o que é o botão do transgênico. É um dispositivo, não é um botão fisicamente falando, é uma figura de linguagem, mas é o momento em que passam a produzir transgênicos. São vegetais plantas modificadas geneticamente. E por que eles tem isso daí? Porque imaginam a possibilidade de uma grande crise alimentar no futuro. Até porque a população cresce no mundo na casa dos 60 milhões por ano. Nós, no Brasil, crescemos um pouco abaixo, mais ou menos, dois milhões de habitantes por ano. Levando em conta que cada habitante consome 1 kg de alimento por dia, você começa a ver que nós temos que investir muito nessa questão da agricultura. Os ruralistas fazem um bom trabalho, tanto é que, ano após ano, eles batem recorde de produtividade. Então isso tudo está encaixado na produção de alimentos e na geração de água, que não é de uma hora para outra. Mas estamos trabalhando nesse sentido. Assim como hoje à noite, eu vou estar com o Tarcísio da infraestrutura, eu posso nas próximas semanas, convidar e trazer o Ministro Marcos Pontes para a gente discutir, entre outros assuntos, o que você me questiona agora.

Presidente, o senhor está em rede estadual, como todo o nosso sistema, e com o Nordeste inteiro lhe ouvindo pelas emissoras do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, inclusive Petrolina. O senhor falou da Transposição do São Francisco. Então, eu lhe pergunto, o senhor teria, mais ou menos, uma data para dizer ‘nesta data eu entrego a transposição completa’?

Tem avançado bastante com Rogério Marinho. Ele tinha dito para mim que termina até o final do ano que vem, se não formos obrigados a fazer contingenciamento, claro. Se não tivermos que cortar recursos por causa de outras decisões, até mesmo judiciais. Então, nós pegamos a obra em andamento. Sim, não é obra minha. Na verdade, o projeto começou lá atrás, com Dom Pedro. Então a decisão que eu tomei aqui junto com os ministros foi a de concluir obras. Obra parada é prejudicial para todo mundo. E obras concluídas são vantajosas e lucrativas para todos também. Então, esperamos que até o final do ano que vem a gente resolva esse assunto. Você pode ver, em pouco tempo eu estive lá em Jucurutu, uma barragem que começou a ser feita em 1952. E ela só não foi concluída agora, faltam apenas 3% para concluir, porque dependemos de, via judiciário, retirar 12 famílias que estão à margem do rio, que com fechamento da barragem para atender mais de 300 mil pessoas, terão que ser removidas de lá. Agora, estão com ações na justiça, não querem sair de lá e o prejuízo está aí: 300 mil pessoas que já poderiam ter a garantia de água potável, não só para consumo próprio, como para agricultura, que estão parados por causa disso aí. Não é fácil você resolver as questões no Brasil. Mas estamos vencendo. Como esperamos vencer este ano com autorização judicial também para que nós possamos fazer os linhões do Tucuruí. O que é isso aí? Levar energia elétrica, que sai lá de Manaus e vai até Boa Vista, em Roraima, que no momento está isolada. Roraima vive de termoelétrica. Ou seja, energia elétrica gerada de usinas movidas a óleo. E nós gastamos, quer dizer, o povo gasta, por ano, em subsídios, porque se nós fossemos cobrar do povo o preço da geração de energia vindo do diesel, não haveria como pagar. Então, o Brasil paga por ano mais de R$ bilhão para que o povo do Estado de Roraima tenha energia elétrica.

Presidente, tem um projeto rolando no Congresso Nacional, já passou na Câmara e vai para o Senado, que mexe com a Reforma Trabalhista. Ele tem artigos muito polêmicos. Em um dos casos, o trabalhador perde férias, FGTS. Eu lhe pergunto, um projeto desse tipo, o senhor pode prometer que veta?

Olha, não acredito, com todo respeito a você, que o projeto vise perder férias. Até porque esses direitos trabalhistas, grande parte deles, estão lá no artigo 7º da Constituição. Ou seja, são cláusulas pétreas, portanto, não há como você mexer nisso. Eu lembro que, nos idos de 2002, votou-se uma reforma trabalhista aqui no Parlamento, e o PT usou essa reforma trabalhista, que havia sido aprovada na Câmara e no Senado, dizendo que o trabalhador perderia fundo de garantia, hora extra, licença gestante, entre outros benefícios. Mas não era bem isso. Na verdade, quando se falava em férias, por exemplo, os militares das Forças Armadas poderiam pedir descontos em férias. Ele iria vencer o ano, tinha férias atrasadas, e, em vez de tirar 30 dias de férias, ele tirava 10, depois mais 10 e mais 10. Sem problema nenhum. No tocante à licença gestante, lá atrás,o que o projeto permitia era que uma mulher, por exemplo, que teve uma criança, mas essa criança faleceu, e queria suspender a licença gestante para poder tirar ela mais tarde. Permitia isso daí. Permitia também a antecipação de 13º salário. Em vez de você procurar um agiota e pagar 10%, 15% e 20% de juros por mês, a pessoa poderia antecipar o 13º e quitar suas dívidas de uma só vez. Agora, o que a esquerda fez? Disse que o projeto de 2002 retirava direitos. Mas era mentira. Eu não acredito que um projeto desta forma como você falou esteja tramitando no parlamento brasileiro. O que pode é ter algo parecido com que eu acabei de falar que ocorreu em 2002. Aí pode acontecer. Sem retirar direitos, apenas dar uma flexibilizada para poder ajudar também o patrão, ajudar ele a não quebrar. Porque se o patrão quebrar perdeu-se o emprego. Agora, quando se fala em direitos trabalhistas, não consegui levar adiante um projeto meu, não sei se vou conseguir, para que todo mundo possa criar minha primeira empresa. Ou seja, se o empregado está chateado com o patrão, ele cria a empresa dele e daí todos os direitos que fossem dificultados para ele, ele poderia potencializar esses direitos e conceder aos seus futuros empregados.

Para fechar nossa conversa, lhe agradecendo pela atenção por hoje, eu lhe pergunto, como vai ser a sua agenda no 7 de Setembro?

O que está previsto? Não haverá formatura militar aqui em Brasília. Nós faremos uma solenidade às 8h da manhã, aqui no Palácio do Alvorada, com hasteamento da bandeira e vamos ouvir a Banda Marcial, e às 10h da manhã está previsto eu ir para a Esplanada conversar com população, não irei falar muita coisa, serei bastante breve. Como tenho um compromisso no dia 8 em São Paulo, no dia 7, eu embarco por volta de meio-dia para São Paulo e pretendo sim participar do evento na Avenida Paulista, onde devo chegar por volta das 15h30. E aí sim, farei um pronunciamento mais demorado, falar com população, dar uma mensagem de esperança e também mostrar para o mundo a fotografia do local, de quão o povo está preocupado com seu futuro. O quanto ele, em parte, está a apoiar o governo federal ou apoiar pautas que interessam a todos nós: a liberdade, a liberdade de expressão, o direito de ir e vir. Então é um movimento popular, não devemos entender como normal e quem não quiser apanhar é um direito deles. Agora ser contra um movimento que vem do povo nós não podemos aceitar isso aí. O que a gente mais vê por ocasião das eleições? Não é o político no meio do povo? Então, teremos eleições nesse ano, por isso seria bom que políticos de todo o Brasil, não pode ser diferente em Pernambuco, compareçam a esses movimentos e façam o uso da palavra para tranquilizar e mostrar o que ele está fazendo e pode fazer pela população. Democracia e liberdade acima de tudo, essa é a nossa agenda para o dia 7 de Setembro.

MARCOS CORRÊA/PR
Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) - FOTO:MARCOS CORRÊA/PR

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