NOVELAS

As mortes de Tarcísio Meira e Paulo José fazem cair a ficha de que é o fim de uma era da teledramaturgia

Os dois mestres construíram personagens marcantes porque eram profundos no que faziam

Romero Rafael
Romero Rafael
Publicado em 12/08/2021 às 17:21
Análise
Reprodução
Tarcísio Meira e Paulo José em trabalhos épicos - FOTO: Reprodução
Leitura:

As partidas de Tarcísio Meira, nesta quinta-feira (12), aos 85 anos, e de Paulo José, na noite da quarta-feira (11), aos 84, deixam um País em luto. A cultura brasileira resulta, fisicamente, menos fortalecida, com a perda de dois referenciais, que passam a ser pura memória.

Mas, as mortes de Tarcísio Meira e Paulo José são ainda mais simbólicas. Elas fazem cair a ficha de que chega ao fim um era da teledramaturgia. A teledramaturgia que eles próprios ajudaram a consolidar como o sucesso estrondoso que foi e que, na TV Globo, já soma cerca de 55 anos de história.

Tarcísio Meira e Paulo José são de um tempo em que os atores eram amados e admirados por todo o País - e não o contrário, odiados como hoje são por certa perversidade e inversão. Eles ofereciam aos brasileiros aquilo que tão bem souberam fazer - antes de vender algum produto, que não a própria imagem e o próprio talento, foram trabalhadores da cultura. Fomentaram a cultura brasileira, que é a alma do povo brasileiro. O que é que define uma nação senão a própria cultura, sua alma?

Os dois mestres construíram personagens marcantes porque eram profundos no que faziam. Antes da fama havia o estudo. Partiam do teatro - da formação nos textos de grandes dramaturgos que refletiram, em suas peças, os dilemas e as brechas mil de se ser humano e viver em sociedade - quer fosse para seus personagens no próprio teatro, ou para o cinema, ou para a TV.

Famílias de artistas

Também são atores que, vivendo nas coxias de teatro, nos estúdios da Globo e nos sets de filmagens, geraram uma descendência nutrida do mesmo alimento.

Tarcísio Meira, no seu casamento de 59 anos com a atriz Glória Menezes, 86, que segue internada também por causa da covid-19, deixa Tarcísio Filho, chamado pelos colegas de Tarcisinho como sua descendência não apenas genética, mas artística.

Paulo José, que formou um dos casais conhecidos da televisão brasileira, quando casado com a atriz Dina Sfat, falecida em 1989, também deixa mais do que herdeiros de sangue. Os dois tiveram três filhas, as atrizes Ana Kutner e Bel Kutner (no ar como Celestina, na novela das seis da Globo, "Nos Tempos do Imperador"), e a diretora Clara Kutner; além do editor Paulo Caruso, do casamento com a atriz Bethy Caruso.

A atriz Fernanda Torres, filha da atriz Fernanda Montenegro e do ator e diretor Fernando Torres, falecido em 2008, comentando sobre as mortes de Tarcísio Meira e Paulo José, disse que, igual os filhos deles, ela era também "filha de circo"; ou seja, dos palcos. De família de artistas, como foram também a de Paulo Goulart, falecido em 2014, e Nicette Bruno, vítima da covid-19 em dezembro do ano passado; e como é a de Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça.

Novos tempos

Esses que partiram, sepultando referenciais tão poderosos, nos fazem concluir de uma vez por todas que, nos últimos anos, vivemos o fim de uma era na televisão - a das telenovelas e minisséries como se consolidaram e conhecemos: quando o drama era sempre maior do que o entretenimento. Trata-se do tempo e de sua obra.

A propósito, o site Na Telinha publicou, recentemente, que José Luiz Villamarim, novo diretor de Teledramaturgia da Globo, e Ricardo Waddington, novo diretor de Entretenimento, pretendem fazer uma revolução na dramaturgia da emissora nos próximos anos. Vamos aguardar, sem perder no fio da história os que abriram esse caminho.

DIVULGAÇÃO
Paulo José e Tarcísio Meira foram parceiros de cena na novela 'Um Anjo Caiu do Céu' - FOTO:DIVULGAÇÃO

Comentários

Últimas notícias