CONTROVERSA

J.K. Rowling fica de fora do especial de 20 anos de Harry Potter; entenda o caso

A autora J.K. Rowling não fará novas aparições no especial em comemoração aos 20 anos do lançamento da saga Harry Potter nos cinemas

Lívia Maria
Lívia Maria
Publicado em 22/11/2021 às 17:37
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JK ROWLING - FOTO: DIVULGAÇÃO
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Depois que a Warner Bros. e a HBO Max anunciaram o especial em comemoração dos 20 anos da estreia da saga Harry Potter nos cinemas, com direito a reencontro dos atores e presença do diretor do primeiro filme, chamou a atenção de fãs e internautas a ausência de J. K. Rowling entre os convidados do especial. A autora dos livros nos quais os filmes são baseados não aparece entre os convidados anunciados, que inclui uma diversidade de atores que participaram dos filmes, mesmo aqueles que não estiveram em todos, como é o caso de Gary Oldman.

De acordo com o The Hollywood Reporter, a ausência da autora da saga no especial tem uma explicação: as acusações de transfobia que pairam sobre J.K. Rowling. A autora se envolveu em uma série de polêmicas no Twitter no final de 2019 e ao longo de 2020 depois de falar que indivíduos transgêneos devem ser definidos por seu sexo biológico. Os comentários controversos da autora a colocaram em um debate intenso sobre transfobia que envolveu não apenas seus fãs e seguidores, mas também fez membros do elenco dos filmes Harry Potter se pronunciarem publicamente, como Daniel Radcliffe, que dá vida ao personagem principal da franquia.

Para relembrar o caso, preparamos uma recapitulação dos comentários apontados como transfóbicos feitos por J.K. Rowling, a resposta das redes sociais e trazemos uma breve explicação sobre o que é transfobia.

O que é transfobia?

Nas últimas décadas, o entendimento sobre sexualidade e gênero tem tido grande avanço na sociedade e expressões de gênero que eram mantidas à margem se tornaram pautas centrais de conversas que envolvem não apenas os sujeitos da comunidade LGBTQIA+, mas também meios de comunicação, artistas, criadores de conteúdo. Entre os assuntos que ainda levantam grandes polêmicas estão aqueles relacionados às vivências de pessoas transgêneros - ou seja, indivíduos que manifestam características comportamentais de um gênero diferente de seu sexo biológico. Estes indivíduos são, em sua grande maioria, mal compreendidos pela sociedade que, por falta de conhecimento, reforçam atitudes discriminatórias e de opressão em relação aos sujeitos transgêneros.

A transfobia, de uma forma literal, designa atitudes que evocam “aversão a algo ou a alguém”, como definido pelo sufixo “fobia”. Nesse caso, os alvos dessa aversão são sujeitos transgêneros que, são vítimas de intolerância e preconceito praticados por meio de violência física, verbal, psicológica ou moral.

Por que J. K. Rowling foi acusada de transfobia?

As acusações à J.K. Rowling se desenrolam há algum tempo, mas o ponto de virada aconteceu em junho de 2020, quando a autora criticou uma matéria jornalística que usava no título a expressão “pessoas que menstruam”. Segundo Rowling, a palavra “mulheres” daria para explicar sobre quem o texto se referia. Entretanto, a matéria incluía homens trans, que ao nascerem foram designados com o sexo biológico feminino e, portanto, também menstruam.

Rapidamente seguidores e fãs da autora tentaram convencê-la que o uso de “pessoas que menstruam” é mais atual e inclusivo e Rowling tentou justificar seu posicionamento, ou seja, que não se pode negar o sexo biológico, a partir da sua experiência enquanto mulher.

No Twitter, ela escreveu: "Se sexo não é real, não existe atração entre pessoas do mesmo sexo. Se sexo não é real, a realidade vivida por mulheres ao redor do mundo é apagada. Conheço e amo pessoas trans, mas apagar o conceito de sexo remove a habilidade de muitos discutirem suas vidas de forma significativa. Não é ódio dizer a verdade".

Em um segundo tweet, Rowling continuou: "A ideia de que mulheres como eu, que têm empatia por pessoas trans há décadas e sentem afinidade por elas, porque são vulneráveis do mesmo modo como as mulheres - isto é, à violência masculina - 'odeiam' pessoas trans porque pensam que sexo é real e vivem as consequências disso é um absurdo".

"Respeito o direito de todas as pessoas trans de viverem da maneira que lhes pareça autêntica e mais confortável. Protestaria com vocês se vocês fossem discriminados por serem trans. Ao mesmo tempo, minha vida foi moldada pelo fato de eu ser mulher. Não acredito que seja odioso dizer isso", concluiu a autora.

Alguns dias depois, a autora publicou um artigo em seu site onde discorre sobre suas razões para falar sobre sexualidade e questões de gênero. No texto, J.K. Rowling explica que seu interesse em questões trans derivou de ser uma sobrevivente de abuso e ter preocupações em torno de espaços entre pessoas do mesmo sexo. Além disso, o interesse em falar sobre esse assunto inclui seu próprio interesse em educação, proteção e liberdade de expressão.

“Estou sob os olhos do público há mais de 20 anos e nunca falei publicamente sobre ser uma sobrevivente de violência doméstica e sexual. Não é porque eu tenho vergonha que essas coisas aconteceram comigo, mas porque elas são traumáticas para revisitar e relembrar. Também me sinto protetora com minha filha do meu primeiro casamento. Eu não queria reivindicar a propriedade exclusiva de uma história que pertence a ela também. Entretanto, um tempo atrás eu perguntei a ela como ela se sentiria se eu fosse publicamente honesta sobre essa parte da minha vida e ela me encorajou a ir em frente. Eu estou mencionando essas coisas agora não em uma tentativa de atrair simpatia, mas em solidariedade com o grande número de mulheres que têm histórias como a minha, que têm sido acusadas de fanáticas por se preocuparem com espaços entre pessoas do mesmo sexo”, explicou.

E continuou: “Eu quero que mulheres trans fiquem seguras. Ao mesmo tempo, eu não quero fazer com que meninas e mulheres “de nascença” se sintam menos seguras. Quando você abre as portas dos banheiros e provadores para qualquer homem que acredita ou sente que ele é uma mulher - e, como eu disse, certificados de confirmação de gênero podem ser expedidos sem nenhuma necessidade de cirurgia ou hormônios - então você abre a porta para qualquer e todos os homens que queiram entrar. Essa é a simples verdade”, argumentou.

Os argumentos usados por J.K. Rowling nos tweets e no texto que publicou em seu site foram considerados transfóbicos porque ignoram a diferença entre gênero e sexo, uma diferença que tem o respaldo da ciência e da existência de indivíduos intersexo, que nascem com anatomia reprodutiva ou sexual que não se enquadra nas definições típicas do sexo feminino e masculino.

A autora trata os sujeitos transgêneros como uma “ameaça” às mulheres “de nascença”, para usar suas palavras. De acordo com essa perspectiva, ela não enxerga uma real diferença entre mulheres transgêneros e homens, sendo os dois potenciais abusadores de mulheres, de forma que seria imprudente colocá-los em um mesmo ambiente, como banheiros ou provadores de roupas.

Apesar de não haver dados suficientes que corroborem com as insinuações que Rowling faz em seu texto, de que mulheres transgêneros também abusam de outras mulhere, a autora insiste no argumento ignorando que, na verdade, está ameaçando a segurança de pessoas trans e alimentando um sentimento transfóbico.

Ao longo das semanas após as declarações dadas por J.K. Rowling, fãs e seguidores repercutiram um suposto “cancelamento” da autora. Muitos fãs se declararam decepcionados, especialmente aqueles que tinham encontrado conforto na história do jovem bruxo que, depois de anos sendo um estranho no ambiente familiar, encontra um lugar ao qual pertence.

A resposta dos atores dos filmes Harry Potter e outras celebridades

Daniel Radcliffe, ator que viveu o personagem principal da saga escrita por Rowling, saiu em defesa da população trans após os comentários da autora. Em um texto publicado no site do Trevor Project, uma organização sem fins lucrativos que trabalha na prevenção do suicídio de jovens LGBTQIA+, Radcliffe reconheceu a importância de Rowling em sua vida, porém afirmou que “mulheres trans são mulheres”.

"Mulheres trans são mulheres. Qualquer afirmação que diga o contrário apaga a identidade e a dignidade da população trans e vai contra todos os conselhos dados por associações de profissionais de saúde, que sabem muito mais sobre o assunto do que eu ou a Jo. De acordo com o Trevor Project, 78% da juventude trans e não-binária é vítima de discriminação por sua identidade de gênero. É evidente que precisamos fazer mais para apoiar as pessoas trans e não-binárias, não invalidar suas identidades e causar mais dano", escreveu o ator.

Daniel ainda pediu desculpa aos fãs que se sentiram atacados pelos comentários da autora de Harry Potter e disse que esperava que os acontecimentos não comprometessem o envolvimento deles com a saga. “Se você encontrou algo nessas histórias que ressoou em você e o ajudou em algum momento da sua vida, isso é entre você e o livro. Isso é sagrado. Na minha opinião, ninguém pode interferir nisso", explicou.

A atriz Emma Watson, que interpretou Hermione Granger na saga, também se manifestou em defesa dos sujeitos transgêneros. “Pessoas trans são quem eles dizem que são e merecem viver suas vidas sem serem constantemente questionadas ou ditas que não são quem são. Eu quero que os meus seguidores trans saibam que eu e muitas outras pessoas ao redor do mundo estamos vendo vocês, respeitamos vocês e amamos vocês por quem vocês são”, escreveu a atriz em uma série de tweets.

Rupert Grint, ator que viveu o papel do melhor amigo de Harry, Rony Weasley, divulgou uma nota através da sua assessoria, também em defesa da população transgênero. “Eu firmemente estou ao lado da comunidade trans e ecôo o sentimento expresso por muitos dos meus colegas. Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens”, disse Grint. “Todos nós devemos ter o direito de viver com amor e sem julgamento”, concluiu.

Além dos atores dos filmes Harry Potter, outras celebridades também se pronunciaram sobre o caso, em especial atrizes trans. Nicole Maines, a primeira atriz trans a fazer uma super-heroína na TV na série “Supergirl”, publicou um texto na revista Variety intitulado “Por que ainda sou fã de Harry Potter apesar da visão antitrans de J.K. Rowling”. Maines compartilha, no texto, sua experiência pessoal em relação aos argumentos de Rowling e explica como é uma visão simplista, além de desmentir algumas informações dadas pela autora.

"Não, eu não apenas 'decidi': tive que me provar e reforçar minha identidade para estranhos, pessoas da minha família, psiquiatras, amigos, pares, colegas e para minha comunidade de novo e de novo", escreveu Maines. Para a atriz, os comentários de Rowling não condizem com a própria ideia que as histórias escritas por ela passam. "[Os livros são] sobre sermos mais fortes juntos, inclusão, autodescoberta, coragem e triunfo diante das adversidades. É contraditório com o mundo que ela criou".

Por fim, Maines, declara ainda ser fã da franquia: "Esses livros e sua mensagem ainda existem, e qualquer opinião pessoal de Rowling não tirará isso de nós. Ninguém pode tirar isso de nós, esse mundo realmente pertence aos fãs. Ninguém pode mudar se eles nos ajudaram a nos assumir. Isso pertence a vocês".

Por que J.K. Rowling foi excluída do especial de 20 anos de Harry Potter?

Ainda não se sabe oficialmente o que está por trás da decisão de manter J.K. Rowling de fora do especial “Return to Hogwarts”, que vai ao ar em 1º de janeiro de 2022 na HBO Max, mas é sabido que as polêmicas envolvendo o nome da autora pesou na decisão. De acordo com o The Holywood Reporter, fontes próximas do projeto falaram que a retrospectiva vai focar na criação e bastidores dos filmes, com a participação do elenco central e da equipe. A autora irá, de alguma forma, participar do especial, mas em filmagens de arquivo e não em uma nova aparição.

A Warner Bros., estúdio que detém os direitos autorais da saga junto com J.K. Rowling, não se pronunciou sobre a ausência da autora no especial, mas na época das acusações à autora enviou uma declaração oficial à revista Variety. No comunicado, o estúdio ratifica o compromisso em promover a inclusão, mas não menciona os comentários transfóbicos de J.K. Rowling ou se compromete com os direitos de sujeitos trans. De maneira genérica, a Warner Bros. apenas declarou que estão comprometidos em "promover uma cultura diversificada e inclusiva".

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