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Entrevista

Everton Felipe sem filtro: na volta ao Sport, 'juvenil' fala do passado, presente e futuro

Everton Felipe concedeu entrevista exclusiva à Rádio Jornal; confira

Antonio Gabriel
Antonio Gabriel
Publicado em 15/08/2021 às 10:32
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ANDERSON STEVENS/SPORT CLUB DO RECIFE
No Sport, Everton Felipe quer voltar a ter sequência na carreira - FOTO: ANDERSON STEVENS/SPORT CLUB DO RECIFE
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"O bom juvenil à casa torna". Permita-me parafrasear o ditado popular, nesse caso é até necessário. Depois de três anos, Everton Felipe voltou ao Sport, ou, pelo que ele mesmo faz questão de ressaltar, voltou para "casa". Oriundo das categorias de base do Leão, o atacante deixou a Ilha do Retiro em 2018 numa transação milionária para o São Paulo com a esperança de dar um passo a frente na carreira. No entanto, usando outro ditado popular, 'o tiro saiu pela culatra' e Everton acabou acumulando temporadas de poucos jogos, poucas sequência, algumas polêmicas e nenhum gol marcado.

A volta ao Recife é uma espécie de redenção para um atleta que, aos 24 anos, já viveu os altos e baixos do futebol. Everton Felipe concedeu entrevista exclusiva à Rádio Jornal e foi até o começo de toda história, relembrando a saída do Sport.

Confira a entrevista:

"Naquele momento que sai do Sport foi uma de oportunidade. Um clube do tamanho do São Paulo fazendo uma proposta muito boa por mim. Foi um valor também de R$ 6 milhões por 40% do Sport, foi um valor que ajudou o clube. Eu tinha na minha cabeça que só sairia do Sport para fora, mas nem tudo acontece do que a gente quer. Escolhi o São Paulo dentro de mais duas propostas que tinha na época. Mas o que me levou a sair foi mais o ambiente do clube. Eles queriam me vender naquele momento para ter dinheiro e eu também tive uns problemas com Guilherme Beltrão (então diretor de futebol). Ele deu uma entrevista na época dizendo que eu precisava respirar novos ares e para bom entendedor meia palavra basta. Procurei meu rumo. Tive a oportunidade de jogar no São Paulo e não rendi o rendi no Sport. Faz parte", disse Everton Felipe.

E de fato a passagem pelo tricolor do Morumbi foi longe daquela tão sonhada. Ao todo foram 20 jogos e nenhum gol marcado, acumulando também três empréstimos para outros clubes: Cruzeiro, Athletico e Atlético-GO. De maneira geral, nas últimas três temporadas, foram 48 jogos sem balançar as redes nenhuma vez. Por mais que Everton não tenha tido sequência em nenhum desses clubes, ele só consegue enxergar um culpado para esses números ruins. "Não gosto de transferir culpa de nada para ninguém. Eu tenho que assumir a responsabilidade de não ter rendido o que as pessoas esperavam e por isso não recebi a sequência que queria. Desde que subi para o profissional aqui no Sport eu sempre assumi a responsabilidade. Eu não gosto de tá falando isso, parece que estou dando desculpa".

"Não gosto de vir dar entrevista pensando no que vou falar. Falo o que penso e o que sinto, sou 100% sincero, independente se vou agradar um ou outro. Não consegui render no São Paulo. A sequência que tive lá foi no Paulistão de 2019, onde chegamos na final e perdemos para o Corinthians. A única sequência que tive lá, foram oito ou nove jogos que tive por lá. Acabei não rendendo o que todos esperavam. Foi com Vágner Mancini. Ele até me levou para o Atlético-GO depois e se você lembra eu fiz jogos bons lá, só não tive sequências grandes. Fui bem contra o Flamengo e até mesmo contra o próprio Sport. Tive momentos bons, mas é muito pouco para um jogador de futebol. Tem que manter uma regularidade se você quer buscar algo maior na sua vida", afirmou Everton.

Na passagem pelo Atlético-GO houve até um episódio de grande repercussão. O presidente do Dragão, Adson Batista, após uma derrota para o Atlético-MG na Série A, chegou a colocar que estavam "sem paciência" com o atacante, mesmo reconhecendo o potencial dele. Everton deixou o caso para trás, mesmo lembrando que tinha topado a proposta do time goiano para receber um salário menor e com vontade de jogar. "Eu admiro muito o Adson lá no Atlético-GO, o Adson administrador. O que ele faz naquele clube ali, ele administra o clube muito bem. Ele mudou o Atlético-GO. É um clube que paga muito em dia e tem tudo certinho, no seu devido lugar. Como pessoa ele peca um pouco, mas essa é a minha opinião. Falar uma besteira dessa na entrevista eu não acho legal. Cheguei lá ganhando menos que ganhava no São Paulo e eu queria jogar".

Psicológico abalado

Os três anos de baixa utilização e muita rodagem pelo futebol brasileiro deixaram o psicológico de Everton Felipe abalado. Antes de ser vendido para o São Paulo, o plano inicial era jogar no exterior, algo que quase aconteceu em 2017. Um clube russo procurou o Sport para comprar o atacante e tudo já estava bem encaminhado, até que num jogo contra o Avaí na Ilha do Retiro, já na reta final da primeira etapa, o jogador rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. "Eu peguei um momento difícil que foi minha lesão no Sport. Eu estava quase vendido. A gente faz planos na vida e quando não cumprimos ficamos frustrados e automaticamente fazemos o mal para nós mesmos. A cabeça é um mundo a parte. Eu disse para amigos e familiares que machuquei o joelho, mas machuquei mais ainda a cabeça".

A venda para o São Paulo, já no ano seguinte, o remotivou, afinal de contas era um novo capítulo na carreira, mas toda a expectativa, até mesmo no campo financeiro, acabou não sendo cumprida. "Quando voltei fui para o São Paulo e isso foi uma ajuda muito grande, me ajudou muito psicologicamente ter uma oportunidade como aquela. Mas passei por momentos difíceis sim, por não estar rendendo e não estar feliz. Uma coisa que aprendi foi que se você não tá jogando e não tá rendendo, o dinheiro não vale de nada. Por isso que aceitei voltar para o Sport ganhando 25% do que ganhava no São Paulo. Nesse momento o que mais tá importando para mim é encontrar minha felicidade, voltar a jogar futebol".

Essa felicidade, para Everton, estava diretamente ligada a volta ao Sport. Tanto que ele mesmo buscou uma volta à Ilha do Retiro antes do acerto para essa temporada. "Eu já tinha o pensamento de voltar para o Sport há algum tempo. Eu estava vendo que não estava sendo feliz e ganhar um bom salário não era o mais importante para mim, estava ficando com a cabeça ruim. Aqui eu estou em casa. Eu já queria voltar, mas as pessoas que estavam aqui não demonstravam um interesse muito grande e não se davam o direito de conversar".

A espera foi tamanha que acabou sendo recompensada com uma chegada digna de uma estrela. Everton Felipe não se considera um ídolo, longe disso até, mas considera que a recepção da torcida do Sport no aeroporto internacional do Recife foi para um outro torcedor, que estava de volta depois de um bom tempo.

"Eu recebi algumas mensagens de como seria, mas não esperava que fosse daquele tamanho. Eu não acreditava. Não sou ídolo do Sport, não me considero. Ídolo é Magrão, Leonardo, Diego Souza e Durval, eu não estou na altura desses caras. Eu não conquistei o suficiente para estar no patamar desses caras. Mesmo não sendo, ser recebido daquela maneira me deixou muito feliz e emocionado. Quando eu vi aquilo eu tive mais certeza. Saí daqui com o Sport me devendo, fizemos um acordo que não foi cumprido, mas mesmo assim eu sinto um amor pelo clube. Foi surreal a recepção. Sei que estamos num período de pandemia, mas eu não posso controlar todo mundo. Eu fui recebido pela torcida do clube que eu amo daquela maneira e isso pra sempre vai estar na minha memória", comentou Everton.

O atacante de fato sempre foi ativo entre a torcida leonina. Tanto que no momento de crise vivido pelo clube após a renúncia de Milton Bivar, período de incerteza a respeito das eleições, ele fez questão de se posicionar em várias fanpages do Sport nas redes sociais, engrossando o coro por um pleito direto para a escolha de um novo presidente. "Eu comecei a ficar ativo nas redes sociais pois, na minha opinião, o que estava acontecendo era inadmissível. Vi uma reportagem que um grupo de cinco pessoas lá do Conselho iria decidir se teria eleição direta ou indireta e eu fiquei puto. Isso não existe. Um clube de milhões de torcedores não pode ter o futuro decidido por um grupo de cinco pessoas. Eu não sei como funciona para ser conselheiro do Sport, mas deveria ter votação para saber quem vai ser conselheiro. O torcedor precisa ter o direito de escolher quem terá voz ativa dentro do clube. Eu fiquei muito indignado".

O protesto foi acompanhado por um apoio a então candidatura de Nelo Campos, que acabou sendo impugnada e sendo substituída pela de Leonardo Lopes, dois nomes já conhecidos por Everton Felipe. Nelo principalmente. O atacante revelou já ter um contato próximo com o atual vice-presidente do futebol rubro-negro e o apontou como principal razão da mudança do clima nos vestiários. "Eu sou suspeito para falar de Nelo. Tenho uma amizade com ele desde antes dele estar no comando de futebol. Ele sempre me deu muito conselho e tentou me ajudar. Eu sou muito suspeito para falar dele. Ele tem o meu carinho, muito respeito. Pelo que conheço dele e por tudo que ele já mostrou, é um cara muito verdadeiro. Ele não iria entrar no clube para ficar contando história. Se não tiver dinheiro, ele diz que não tem. Se puder pagar, ele diz que vai pagar. Foi por essas coisas que o vestiário melhorou e os que conheço lá do grupo me disseram isso".

Diego Souza de volta?

Impossível falar do juvenil e não falar de Diego Souza. Os dois desenvolveram uma relação muito próxima enquanto dividiram os vestiários da Ilha do Retiro. O próprio Diego, aliás, que colocou no atacante o apelido que viralizou pela torcida. Hoje no Grêmio, DS87 revelou mais de uma vez que dividia o quarto da concentração das viagens com Everton Felipe, dava conselhos e o tratava como um 'irmão mais novo'.

Ao voltar para o Sport, o juvenil brincou com o seu 'irmão mais velho' por mensagem e disse acreditar numa volta dele a Ilha do Retiro. "A gente sempre manda para ver se amolece o coração. Foram momentos bons que a gente viveu aqui, junto com ele e com o André. Fica sempre aquela saudade. O cara foi artilheiro do Brasileirão e foi pra seleção. Ele conseguiu coisas aqui no clube que 95% dos jogadores não conseguiram, por isso é ídolo. Esse ano eu acho muito difícil, até por ele já ter feito sete jogos no Brasileirão. Acho que vem [no fim do ano]. Ele ama o Sport, ama Recife, se sente bem aqui. Se a torcida me recebeu daquela maneira, imagina ele. Você ser recebido daquela maneira, ter o amor, é algo que dinheiro nenhum não paga. O principal é que todo mundo se acerte, ele não é nada difícil. Ele ama isso aqui”.

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