Política

Coronavírus: as divergências entre o discurso de Bolsonaro e as recomendações da OMS

Muitas informações contidas no discurso do presidente não se alinham com as recomendações dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo próprio Ministério da Saúde

Mayra Cavalcanti
Mayra Cavalcanti
Publicado em 25/03/2020 às 9:47
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SERGIO LIMA/AFP
O presidente da República vem negando que foi infectado pelo vírus, mas não apresentou os exames - FOTO: SERGIO LIMA/AFP
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O discurso em cadeia nacional feito pelo presidente Jair Bolsonaro, na noite dessa terça-feira (24), causou reação de diversos políticos e entidades, inclusive do governador de Pernambuco, Paulo Câmara e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), que emitiu uma nota sobre o caso na manhã desta quarta-feira (25). Após o pronunciamento, que abordou as medidas tomadas Brasil afora para combater o novo coronavírus, as hashtags #ForaBolsonaro e #BrasilNãoPodeParar ficaram entre os assuntos mais comentados do Twitter.

No entanto, para além das repercussões sobre o pronunciamento, muitas informações contidas no discurso do presidente não se alinham com as recomendações dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo próprio Ministério da Saúde para o enfrentamento dos casos do novo coronavírus no Brasil e no mundo.

Confira os pontos em que o discurso de Bolsonaro e as recomendações das autoridades de saúde não se alinham:

Jair Bolsonaro: "Nossa vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos, o sustento das famílias deve ser preservado. Devemos sim voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de "Terra arrasada": A proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa."

O isolamento social e a quarentena para evitar a propagação são recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). O órgão recomenda que seja evitado o contato físico com pessoas que tenham sintomas gripe e, caso seja confirmado o novo coronavírus, o doente e as pessoas que residem no domicílio devem ficar em isolamento por 14 dias. O órgão, inclusive, afirmou, desde o dia 30 de janeiro, que a doença causada pelo novo coronavírus é uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, sendo este o mais alto nível de alerta da organização. Em 11 de março, a covid-19 foi classificada como pandemia.

Sobre o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) divulgou uma nota. "Do ponto de vista científico e epidemiológico, o distanciamento social é fundamental para conter a disseminação do novo coronavírus, quando ele atinge a fase de transmissão comunitária. Essa medida deve ser associada ao isolamento respiratório de pacientes que apresentam a doença, ao uso de equipamentos de proteção individual (EPI) pelos profissionais de saúde e à higienização frequente das mãos por toda a população", diz um trecho da nota.

Jair Bolsonaro: "O que se passa no nundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos, então por que fechar escolas?"

A recomendação para a antecipação de férias e a utilização de ensino à distância foi feita pelo próprio Ministério da Saúde, no dia 13 de março. "Não deixe crianças e adolescentes com pessoas de idade", afirmou o ministro durante coletiva de imprensa. Além disso, não são apenas pessoas acima de 60 anos que têm maior risco. "Pessoas idosas e com condições de saúde pré-existentes (como pressão alta, doenças cardíacas, doenças pulmonares, câncer ou diabetes) parecem desenvolver doenças graves com mais frequência do que outros", segundo a OPAS.

Em entrevista ao JC, o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, conselheiro do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Crempe) e vice-presidente da Sociedade de Pediatria de Pernambuco concordou com a suspensão das aulas para crianças. "Tenho convicção de que a retirada das crianças da escola foi uma medida muito acertada. Pessoalmente me incomodavam, no início da epidemia, algumas questões: as pessoas achavam que deveríamos ficar tranquilos, que se morria mais por dengue e que o vírus não resistiria ao nosso calor, entre outras colocações. Sempre me preocupei, pois estamos diante de um vírus respiratório novo, sem nenhuma imunidade de rebanho prévia e de alta transmissibilidade. Embora a maioria dos casos seja leve, o percentual de infectados é muito grande e, para tentar reduzir isso, são importantes duas coisas: reduzir convívio social e ter diagnóstico precoce".

Jair Bolsonaro: "Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação, caso se contamine."

Na verdade, de acordo com a OPAS, 81% dos casos parecem ter doença leve, enquanto 14% dos casos parecem progredir para doença grave e 5% são críticos. Além disso, as pessoas podem apresentar uma variedade de sintomas, não precisando, necessariamente, apresentar todos. Ainda segundo a OPAS, 83 a 98% das pessoas apresentaram febre, enquanto 68% tiveram tosse e de 19% a 35% ficaram com falta de ar. A OMS ainda afirma que uma em cada seis pessoas com covid-19 fica gravemente doente e desenvolve dificuldade de respirar.

Jair Bolsonaro: "No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria se preocupar. Nada sentiria ou seria quando muito acometido de uma 'gripezinha' ou 'resfriadinho', como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão."

A SBI também falou sobre este trecho em nota. "Neste difícil momento da pandemia de COVID-19 em todo o mundo e no Brasil, trouxe-nos preocupação o pronunciamento oficial do Presidente da República Jair Bolsonaro, ao ser contra o fechamento de escolas e ao se referir a essa nova doença infecciosa como 'um resfriadinho'. Tais mensagens podem dar a falsa impressão à população que as medidas de contenção social são inadequadas e que a COVID-19 é semelhante ao resfriado comum, esta sim uma doença com baixa letalidade. É também temerário dizer que as cerca de 800 mortes diárias que estão ocorrendo na Itália, realmente a maioria entre idosos, seja relacionada apenas ao clima frio do inverno europeu. A pandemia é grave, pois até hoje já foram registrados mais de 420 mil casos confirmados no mundo e quase 19 mil óbitos, sendo 46 no Brasil", afirma.

Nota SBI sobre pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro de Jornal do Commercio

Veja a íntegra do discurso do presidente Jair Bolsonaro na noite dessa terça-feira (24):

"Desde quando resgatamos nossos irmãos, em Wuhan, na China, numa operação coordenada pelos Ministérios da Defesa e Relações Exteriores, surgiu para nós o sinal amarelo. Começamos a nos preparar para enfrentar o coronavírus, pois sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, ele chegaria ao Brasil.

Nosso ministro da Saúde reuniu-se com quase todos os secretários de Saúde dos Estados para que o planejamento estratégico de enfrentamento ao vírus fosse construído e, desde então, o doutor Henrique Mandetta vem desempenhando um excelente trabalho de esclarecimento e preparação do SUS para atendimento de possíveis vítimas. Mas o que tínhamos que conter, naquele momento, era o pânico, a histeria e, ao mesmo tempo, traçar a estratégia para salvar vidas e evitar o desemprego em massa. Assim fizemos, quase contra tudo e contra todos.

Grande parte dos meios de comunicação foram na contramão. Espalharam, exatamente, a sensação de pavor, tendo, como carro-chefe, o anúncio do grande número de vítimas da Itália, um país com grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso, um cenário perfeito, potencializado pela mídia, para que uma verdadeira histeria se espalhasse pelo nosso país.

Contudo, percebe-se que, de ontem para hoje, parte da imprensa mudou o seu editorial. Pedem calma e tranquilidade. Isso é muito bom. Parabéns, imprensa brasileira! É essencial que a verdade e o equilíbrio prevaleçam entre nós. O vírus chegou. Está sendo enfrentado por nós e, brevemente passará.

Nossa vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos, o sustento das famílias deve ser preservado. Devemos sim voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de "Terra arrasada": A proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa.

O que se passa no nundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos, então por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação, caso se contamine. Devemos sim é ter extrema preocupação em não transmitir o vírus para os outros, em especial aos nossos queridos pais e avós, respeitando as orientações do Ministério da Saúde.

No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria se preocupar. Nada sentiria ou seria quando muito acometido de uma 'gripezinha' ou 'resfriadinho', como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.

Enquanto estou falando, o mundo busca tratamento para a doença. O DFA americano e o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, buscam a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento do covid-19.

Nosso governo tem recebido notícias positivas sobre esse remédio fabricado no Brasil, largamente utilizado no combate à malária, ao lúpus e à artrite.

Acredito em Deus, que capacitará cientistas e pesquisadores do Brasil e do mundo na cura dessa doença. Aproveito para render minha homenagem a todos os profissionais da saúde, médicos, enfermeiros, técnicos e colaboradores que, na linha de frente, nos recebem nos hospitais, nos tratam e nos confortam sem pânico ou histeria, como venho falando desde o princípio.

Venceremos o vírus e nos orgulharemos de estar vivendo neste novo Brasil que tem tudo, sim, tudo para ser uma grande nação. Estamos juntos, cada vez mais unidos. Deus abençoe nossa pátria querida."

Confira o mapa de casos

 

Linha do tempo do coronavírus em Pernambuco

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