MORADIA

Ocupação Marielle Franco: outro prédio do Recife que sofre com problemas estruturais

Completado um ano de ocupação, projetos não avançaram e precariedade da estrutura se agravou

Ana Tereza Moraes
Ana Tereza Moraes
Publicado em 20/03/2019 às 11:14
Foto: Leo Motta/JC Imagem
Completado um ano de ocupação, projetos não avançaram e precariedade da estrutura se agravou - FOTO: Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O que era para ser um modelo de habitação no Centro do Recife virou um acumulado de problemas. A precariedade estrutural do prédio – que antes se chamava Edifício Sulamerica – na Praça da Independência nº 91, bairro de Santo Antônio, se agravou desde a Ocupação Marielle Franco, há exatamente um ano. Infiltrações, fiações expostas, falta d’água, inatividade da cozinha comunitária e ausência de assistência pública se acentuaram.

O nome da ocupação é uma homenagem à vereadora Marielle Franco, executada no Rio de Janeiro, no dia 14 de março do ano passado. A estrutura habitada era para ser sinônimo de participação popular e apontar o potencial que espaços esquecidos pelo poder público podem ter para a população sem teto. Porém, os problemas estruturais acumulados por décadas se tornaram um fardo para os novos habitantes. Com auxílio do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), sem renda fixa e contando com doações, os ocupantes resistem na luta por moradia digna.

Entre as ações previstas pelo MTST estava a instalação de uma creche no 1º andar. Livros, bancos, tapumes e brinquedos foram doados, mas o local nunca funcionou. Uma infiltração assolou o pavimento e as doações estão guardadas até que o problema seja solucionado. Para o 2º andar, a ideia era montar uma cozinha e produzir marmitas. O grupo ganhou um fogão de escala industrial, mas a precariedade da estrutura estancou o projeto. Desde que as doações pararam, há seis meses, a cozinha coletiva se tornou apenas um espaço de convivência. O local está sem água encanada há pelo menos dez dias.

O dia a dia dos moradores

A vendedora Ivandir Ferreira, 53 anos, está na ocupação desde o início. “No começo, tinha doação de roupa e comida, mas faz meses que não chega nada. Tá muito difícil”, contou. “Sobrevivo do Bolsa Família e com parte desse dinheiro compro água para vender. Tem dia que eu como, tem dia que não.”

A dona de casa Maria do Carmo Nascimento, 42, enfrenta dificuldade semelhante. Chegou no primeiro dia de ocupação e vive no 2º andar com sete filhos e dois netos. Nos últimos dias, relata, policiais têm abordado os ocupantes e feito revistas. “Não tenho medo. Aqui ainda é muito melhor que na rua.” 

Um dos coordenadores estaduais do MTST, Rud Rafael Souza explicou que um projeto hidráulico e elétrico para o edifício está sendo elaborado pela ONG Habitat Para Humanidade Brasil em parceria com a Cooperativa Arquitetura Urbanismo e Sociedade. As últimas doações em dinheiro serviram para comprar uma bomba-d’água e colocar um portão na entrada. E reclamou que a Prefeitura do Recife não presta qualquer assistência às famílias.

O outro lado

Em nota, a PCR destacou que o edifício é propriedade particular. Informou que o prédio tem cerca de 50 ações judiciais de execução de débito de IPTU. Também em nota, a Polícia Militar disse que o 16º BPM, responsável pela área, realiza abordagens na Praça da Independência e em outros pontos.

Dados

1,6 milhão de reais é o IPTU devido pela Empresa Nacional de Hotéis Ltda., dona do imóvel.

6 é o número de andares do edifício onde funcionou um hotel, abandonado há mais de 10 anos.

35 famílias ocuparam o espaço há exatamente um ano, na tentativa de dar vida nova ao local.

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