Nova temporada

Paixão de Cristo de Nova Jerusalém: uma tradição que se renova

Com Renato Góes como Jesus, espetáculo pernambucano realiza sua 51ª edição trazendo uma montagem cada vez mais envolvente

Robson Gomes
Robson Gomes
Publicado em 24/03/2018 às 15:40
Foto: Dayvison Nunes/JC Imagem
Com Renato Góes como Jesus, espetáculo pernambucano realiza sua 51ª edição trazendo uma montagem cada vez mais envolvente - FOTO: Foto: Dayvison Nunes/JC Imagem
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A 51ª temporada da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém realizou sua pré-estreia nesta sexta-feira (23), em uma sessão fechada para convidados. Pela primeira vez em 20 anos, a apresentação começou com uma hora de atraso, devido ao congestionamento na saída de Recife para a BR-232, que retardou a chegada da comitiva que trazia o vice-governador Raul Henry, autoridades, convidados e jornalistas.

Mas a noite estrelada de Fazenda Nova iluminou com perfeição o espetáculo do maior teatro ao ar livre do mundo, que iniciou às 19h. A organização do evento chamava a atenção, principalmente em relação à acessibilidade, com várias cadeiras de rodas disponíveis e interpretação de libras durante as cenas, além de avisos em inglês e espanhol.

Na abertura da peça, surge Renato Góes como Jesus para fazer o sermão da montanha. O jovem ator recifense de 31 anos mostrou-se disciplinado na atuação e dublagem das cenas. Embora algumas vezes, a voz pré-gravada do próprio artista tenha mais intensidade do que a performance ao vivo.

A prova disso foi que a primeira cena aplaudida pelo público de quase 1.500 pessoas foi a de um coadjuvante. A interpretação visceral do pernambuco José Barbosa como Judas (que já interpretou Jesus por três anos) arrebatou os espectadores, tanto na entrega de Jesus aos sacerdotes por 30 moedas, quanto na sua cena de suicídio, onde ele impostava sua voz acima do áudio do espetáculo, dando mais força à atuação e tirando o folêgo do público, que apenas fazia um silêncio mortal até o fim daquele ato.

O primeiro aplauso para Renato Góes veio na sequência da Santa Ceia, onde o ator parecia já mais confortável com o personagem. A beleza da sequência com a homenagem final ao quadro de Leonardo Da Vinci abrilhantava a cena. Entre os apóstolos, inclusive, estava o ator e cantor Silvério Pessoa. Outro nome conhecido do grande público entre os coadjuvantes era o do ator e repórter Tiago Gondim, fazendo vários papeis pequenos, mas pontuais no espetáculo.

Também é necessário fazer menção à beleza dos figurinos, principalmente dos personagens demoníacos, que se camuflavam com perfeição nos cenários. Outra grata surpresa é o carro alegórico que traz o casal Herodes e Herodíades em uma das cenas mais bonitas esteticamente de todo o espetáculo.

Na sequência do Bacanal, vemos a performance de Victor Fasano e Nicole Bahls. Enquanto o intérprete de Herodes se mostrava seguro no palco, dublando e atuando com perfeição, a modelo, que faz sua estreia no teatro como a rainha Herodíades tentava esconder o nervosismo, que foi se esmaecendo ao longo da cena. Também começava a ficar em evidência a atuação tragicômica de Tonico Pereira, que mostrou ter mais dificuldades com a dublagem, destacando suas expressões apenas nas frases mais pontuais.

Mesmo num papel de poucas falas, Nicole Bahls foi a mais assediada pelo público na pré-estreia. Ao final de sua cena, com bastante simpatia, tentou atender todo mundo que pedia um beijo, uma foto, fazendo corações com a mão e se sentido acolhida. "Obrigada pelo carinho", disse ela várias vezes, que precisou ser recolhida pela equipe do espetáculo para apagar as luzes do cenário. "Nunca vi uma atriz fazer isso, viu?", disse um dos bailarinos da cena.

Kadu Moliterno também exerceu seu Pôncio Pilatos com maestria. Junto a Fasano, foi um dos mais sincronizados com as vozes pré-gravadas, dando uma atuação coerente ao que o público ouvia e asssistia. A partir do momento que Jesus começa a ser chicoteado, Renato Góes arrepia o público ao gritar de verdade em cena. Quem está mais próximo do palco consegue ouvi-lo e sentir mais a dor do intérprete de Jesus.

No cortejo da cruz, as figurantes que dão vida às "filhas de Jerusalém" também chamam a atenção pela entrega em cena. Muitas aparentavam chorar de verdade com a sequência, onde surgiam Fabiana Pirro (Maria) e Rita Guedes (Madalena). A "Maria mais humana" de Pirro convence e emociona, ao passo que Madalena fica mais interessante da Crucificação em diante.

Renato Góes volta a ganhar atenção na sequência de sua morte, onde o público se emociona com os gritos do ator e a dramaticidade intensa. Na ressurreição, o efeito especial da subida de Jesus aos céus junto ao show pirotécnico fecham o espetáculo de maneira encantadora, fazendo o público se esquecer das mais de duas horas em que percorreram a imensidão da cidade-teatro de Nova Jerusalém acompanhando uma história (bem contada) que todos já conhecem, mas que sempre mexe com o imaginário de todos que tenham, ao menos, um pouco de fé e religiosidade em suas vidas.

SERVIÇO

A 51ª Paixão de Cristo de Nova Jerusalém começa neste sábado (24) e vai até o dia 31 de março (sábado), sempre às 18h. Ingressos: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia) aos sábados e sexta; R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia) no domingo; de segunda à quinta, R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia). Informações: 3732-1129.

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