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Festival de Curitiba discute problemas da contemporaneidade

Em seu primeiro fim de semana, evento reuniu montagens questionadoras

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 01/04/2019 às 9:00
João Pedro Januário/Divulgação
Em seu primeiro fim de semana, evento reuniu montagens questionadoras - FOTO: João Pedro Januário/Divulgação
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O 28º Festival de Teatro de Curitiba fechou seu primeiro fim de semana com trabalhos questionadores, que articulam questões necessárias e interseccionais ­– raça, gênero, sexualidade, disparidades econômicas, entre outras - para o Brasil contemporâneo. A maratona cênica tem como tema este ano “A Insurreição Que Vem” e segue até o dia 7 deste mês.

Referência nacional por sua longevidade e dimensão, o Festival de Curitiba é um evento que mexe com a cidade, ocupando diferentes espaços e, também, promovendo encontros entre diferentes plateias, seja nas apresentações ou em ações paralelas, que visam formar público e desenvolver o pensamento crítico. Neste sentido, o festival monta uma grade em sua Mostra, com curadoria de Guilherme Weber e Márcio Abreu, que equilibra trabalhos mais ousados com outros de caráter mais comercial.

Entre as estreias nacionais promovidas pelo evento esteve Recital da Onça, peça que marca o retorno de Regina Casé aos palcos após mais de duas décadas. Como o título sugere, o trabalho é marcado pela simplicidade e tem a proposta de exaltar textos de alguns dos principais autores nacionais, como Clarice Lispector, João Guimarães Rosa e, especialmente para as apresentações em Curitiba, os paranaenses Dalton Trevisan e Paulo Leminski.

Uma criação da atriz com Hermano Vianna, com quem já trabalhou muito na televisão, a peça nasceu de forma despretensiosa. Estevão Ciavatta, marido de Regina, nunca tinha visto-a nos palcos e durante umas férias do casal na Bahia propôs que ela montasse, com direção dele, uma peça. No processo, Hamilton Vaz, com quem também foi casada e trabalhou no icônico grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, nos anos 1970, entrou na codireção.

Tudo é conduzido pelo magnetismo da atriz, dando uma impressão quase de que não tem roteiro, o que funciona em alguns momentos, mas às vezes torna o processo cansativo. Mas, principalmente nas partes finais do espetáculo, fica clara a estratégia dela de prender o público pelo humor para, assim, passar seu recado. Quando chega aos textos de Clarice Lispector e, principalmente, Guimarães Rosa, o tom é de sutilezas. A onça, enquanto figura e metáfora, funciona como uma representação de um Brasil em extinção. E, o que Regina parece pedir é que nos unamos para preservar o que, de bom, ainda nos resta como sociedade.

A peça é centrada em torno da figura de Regina Casé, uma das personalidades mais carismáticas do País. Ela explica que foi convidada para ir a Harvard, onde precisará apresentar uma conferência sobre literatura brasileira. De maneira descontraída, ela convida o público a ajudá-la na missão: pede sugestões, interage, brinca.

“Nos interessa levar ao palco os textos literários tratados de forma mais descontraída, acabar com essa divisão de alta e baixa cultura. A maneira de ler os textos ajuda a destruir essa coisa maléfica do Brasil de isolar essas culturas. Em alguns momentos, as pessoas me perguntam se sou eu mesmo falando ou se estou recitando e adoro isso porque é como tem que ser, aquelas palavras podem ser de todos. A literatura dever ser ‘literatura popular brasileira’”, explicou a atriz.

CAOS

PI – Panorâmica Insana, com direção de Bia Lessa, foi outro destaque do festival. Vencedor do prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor espetáculo de 2018, o trabalho reúne Cláudia Abreu, Leandra Leal, Rodrigo Pandolfo e Luiz Henrique Nogueira para tratar do caos no qual estamos inseridos.

“Trabalhamos juntos na novela Cheias de Charme (2012) e desde lá tínhamos o desejo de montarmos uma peça. Quando Bia Lessa entrou na direção, começávamos a trabalhar a dramaturgia em processo, com base nos textos de Júlia Spadaccini, Jô Bilac, André Sant’Anna e citações de autores como Kafka”, contou Cláudia Abreu.

Em cena, eles interpretam mais de cem personagens em um cenário com mais de mil peças de roupas espalhadas pelo palco. Essa bagunça reflete a proposta do trabalho de investigar as incompletudes e angústias que afligem a humanidade no contemporâneo.

Também na discussão do lugar do indivíduo em uma sociedade fragmentada se insere “Outros”, espetáculo mais recente do Grupo Galpão (MG). A montagem se lança em caminhos mais radicais de quebra das barreiras de linguagens artísticas que o grupo já vinha desenvolvendo em “Nós”, peça que também teve direção de Márcio Abreu.

O grupo descreve o trabalho como sendo “sobre a necessidade de ruptura com pensamentos e estruturas arraigadas que já não devem nos representar, mas sim abrir caminho para a possibilidade de novos horizontes, paisagens, reflexões”.

ISTO É UM NEGRO?

Um dos espetáculos mais elogiados do ano passado, Isto É Um Negro?, dirigido por Tarina Quelho, busca, como já enfatiza seu título, entender  como as ideias sobre a negritude foram construídas e como o racismo continua a se atualizar para, assim, manter-se em operação. O processo de pesquisa se desenvolveu a partir de pensadores negros contemporâneos como Bel Hooks, Achille Mbembe, Djamila Ribeiro.

Em cena, os atores Ivy Souza, Lucas Wickhus, Raoni Garcia e Mirella Façanha (que assina a dramaturgia ao lado de Quelho), desnudam seus corpos para colocar a plateia em confronto com essas questões. Para Mirella, o trabalho parte  ainda da possibilidade de imaginar futuros, do que pode ser levado para a cena, quebrando uma lógica colonizadora de “ensinar”. Preferem, antes de tudo, inquirir, sem fazer concessões.

“Convidamos o público a se responsabilizar porque o racismo destrói os negros, mas também os racistas, porque é estrutural e estruturante”, pontua Lucas.

 ·  O jornalista viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba

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