Memória

Carlos Pragana traz retrospectiva de sua obra e abertura de ateliê

O artista pernambucano Carlos Pragana inaugura a retrospectiva '1966', revisitando sua história artística, além de abrir portas de seu ateliê

Flávia de Gusmão
Flávia de Gusmão
Publicado em 23/05/2019 às 9:06
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Foto: Felipe Jordão/JC Imagem
O artista pernambucano Carlos Pragana inaugura a retrospectiva '1966', revisitando sua história artística, além de abrir portas de seu ateliê - FOTO: Foto: Felipe Jordão/JC Imagem
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Esta será a primeira vez em que poderemos ter uma visão panorâmica da obra do artista Carlos Pragana. Hoje, serão inaugurados, simultaneamente, sua primeira mostra retrospectiva, intitulada 1966, e o espaço expositivo anexo ao ateliê, local que Pragana vem aprontando há três anos.

O ano que dá nome à exposição marca o início de tudo, quando, aos 14 anos, ele foi convidado por Milton Persivo da Cunha para exibir seus desenhos na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB/Recife).

Não era um fato comum que garotos dessa idade, nascidos numa classe média que valorizava a supremacia de uma formação calcada na tríade direito, medicina e engenharia, pintassem, muito menos tivessem material que merecesse uma exposição. "Eram desenhos comuns, feitos em papel de caderno com tinta a óleo da marca Águia", testemunha Pragana.

Ainda que assim fosse, Persivo, um funcionário do Banco do Brasil que tinha bom trânsito com artistas da época, farejou qualquer coisa ali. Do total desses desenhos primários existem apenas quatro remanescentes, e eles serão o ponto de partida para a narrativa pictográfica e cronológica.

A abertura do ateliê para o público é outro ponto importante para entender quem é Pragana e como funciona seu processo construtivo. Erguido a partir da ossatura férrea de um galpão que foi permutado por um quadro, o local de criação do pintor é emendado à sua residência. De lá, Pragana praticamente não sai. Quando abre uma exceção é no período da manhã, reservado para "resolver as coisas do mundo exterior".

Depois daquele início premonitório em 1966, Pragana pintou ininterruptamente até os 21 anos, a maioridade. Foi quando o pai morreu, ele próprio constituiu família e se viu compulsoriamente ejetado para o cargo de provedor, agricultor e responsável pelo engenho herdado no Vale do São Francisco. Foram 20 anos sem pintar, até que, em 1999 surgiu o primeiro quadro após o hiato: sobre um fundo azul meia-noite paira uma figura que poderia ser um animal.

Embora ele considere que foi preponderantemente figurativo até 2002, depois passando a prevalecer o abstrato, as formas no trabalho de Pragana são sempre mais sugeridas que afirmadas. Não se pode dizê-lo um ou outro com absoluta precisão sem se correr o risco de errar em uma de muitas curvas de sua longa carreira.

O retorno à arte foi uma dessas encruzilhadas, quando, aos 46 anos, o agricultor declarou falência e o pintor ressurgiu com uma convicção: jamais voltar a fazer qualquer coisa que não lhe proporcionasse gratificação, mesmo que não o sustento. Hoje um dos mais bem-cotados (e adquiridos) artistas plásticos pernambucanos, Pragana tem razão quando diz: "A vida carrega você, mas você volta um dia" ou "A vida me tirou para poder me dar".

LINHA DO TEMPO

A cronologia da exibição, que tem curadoria do arquiteto Diogo Viana, se impõe a partir de uma parede azul que se estende do piso ao pé direito de três metros, para daí se espalhar por todo o recinto em aproximadamente 30 obras.

Além das pinturas, colagens e desenhos compõem o repertório. É interessante vê-lo em sua totalidade. Variações que, ao mesmo tempo em que confirmam sua assinatura, revelam as fases e circunstâncias diversas, próprias de quando foram jogadas no "mundo externo". O impulso criativo de Pragana é mais emocional que cerebral. Seus títulos – todos os trabalhos recebem um batismo – podem surgir antes ou depois do quadro: "Às vezes, uma palavra dispara a emoção, noutras, a emoção sugere as palavras", define.

As paisagens de Pragana são todas mentais, embora alguns gatilhos sejam disparados por influência externa. No entanto, é importante compreender que o seu "mundo externo” muitas vezes não vai além dos muros do casarão no Pina, seu microcosmo transformado em macro, de onde se desdobram camadas reflexivas. Pintar em grandes dimensões é sua grande paixão, mas não a única: os pequenos formatos dão seu recado quando é chegada a hora. O papel como suporte tem um nicho especial em seu bem-querer: “A tinta responde de um jeito diferente, que eu gosto muito”. A colagem lhe toma horas de preparo, uma atividade terapêutica que canaliza a energia mental para as mãos, que precisam estar com controle total. Seus quadros podem lhe tomar um dia, ou vários deles. Mas quem está contando? Começá-los é entrar num labirinto esperando eventualmente encontrar uma saída. “Eu sou só emoção”, confessa Pragana. Em 1966 vemos isso acontecer.

Serviço

Exposição 1966, de Carlos Pragana – Rua Gago Coutinho, 500, Pina. Coquetel de abertura para convidados, hoje, 18h. Visitação: 24/05 a 30/06, das 14h às 18h. Entrada gratuita

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