Festa de Louro

São José do Egito: a poesia como presente na família

Na família de Louro do Pajeú, até hoje se presenteia com versos

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 15/01/2018 às 17:05
Mariana Pinheiro / Especial para o JC
Na família de Louro do Pajeú, até hoje se presenteia com versos - FOTO: Mariana Pinheiro / Especial para o JC
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Quando completou sete anos de idade, Maria Helena Marinho, a Marilena, manifestou o desejo de possuir um dos brinquedos clássicos de uma infância feminina inspirada no futuro de mulher adulta que seria. Queria uma das baterias de cozinha em miniaturas comuns nas lojas ou feiras populares de São José do Egito. Com o orçamento aperto diante de tantos filhos, seu pai não pôde presenteá-la. Em vez do conjunto de fogão e panelinhas, Louro do Pajeú lhe presenteou uns versos, confirmando o gênio métrico trocadilhesco:

“Pediste uma bateria / Por enquanto não te mando / Mandar-te-ei, não sei quando / Deus é que sabe do dia / Se eu pudesse estaria / Com tua mãe, tu e teus manos / Que prazeres soberanos / Junto a vocês, sentiria / Com ou sem bateria / Palmas para os teus sete anos”.

Noutra ocasião, o caçula, Raimundo Patriota, pediu um velocípede. Louro o atendeu com versos. “(..)Que o velocípede da dor corre na pista da alma”, sintetizava a poesia. Se não o primeiro, o poema de Louro do Pajeú para a filha é possivelmente o mais icônico deste hábito cultivado com a espontaneidade de uma flor pelos membros da família Marinho Patriota. “A cada aniversário, data importante, comemoração, formatura, seja o que for, acabamos por nos presentear com versos. Tudo que acontece é inspiração”, diz Marilena Marinho, professora de português e ex-bancária. “Papai sempre foi o homem que José Luis Borges quis ser. Era mamãe quem nos repreendia, ela era a razão; papai era a poesia.

A primogênita dos filhos de Louro acabou por receber, finalmente. Sessenta anos depois, finalmente. Três meses antes de seu aniversário, o irmão mais novo, Hilário Marinho, comprou-lhe um conjunto de panelas e caçarolas de brinquedo. Presente devidamente entregue como o salvo-conduto de novos versos. “Pediste uma bateria / Por enquanto não te mando / Mandar-te-ei, não sei quando / Deus é que sabe do dia / Se eu pudesse estaria / Com tua mãe, tu e teus manos / Que prazeres soberanos / Junto a vocês, sentiria / Com ou sem bateria / Palmas para os teus sete anos”.

Filha mais nova de Louro, a cantora Bia Marinho também celebra os filhos com versos. “Muitas vezes, depois, eles acabam musicados”, diz ela cuja letra, Ponta de Rama, nasceu de um poema-presente para o caçula, o músico Miguel Marinho. “Ponta de rama da minha bagagem / Minha viagem está completa com você/ Tem uma fruta madura outra de vez / Agora completa três / enfeitando o meu pomar”, diz um trecho.

PUNGENTE

A poesia como crônica de família perde-se nas memórias da família. Tia de Marilena e Bia, Beatriz Marinho, filha de Antônio Marinho do Nascimento, o pai de Helena com quem Louro se casou, foi uma das maiores sonetistas de sua geração. Nos anos 1950, prevendo a morte por uma tuberculose, escreveu o próprio réquiem: “Para que? / Para que se viver, se a própria vida / Nos conduz ao final de tudo enfim? / Se a cada passo por fim adormecida/ A própria glória vai buscando um fim? / Para quê se sonhar se mesmo o sonho / Não compensa a tristeza de morrer? / Do pesar mais amargo e mais medonho / Que nos traz a certeza de morrer? /Para quê se sorrir, se este sorriso / Que aflora nossos lábios muitas vezes / É fugaz, fingido ou indeciso? /Quero apenas chorar, chorar somente / Pois se o pranto não apaga meus revezes /Porém torna está dor menos pungente.

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