ENTREVISTA

Laurentino Gomes: 'Nosso país tem um DNA escravista'

O jornalista, autor dos best-sellers '1808', '1822' e '1889' vem ao Recife lançar o começo de uma nova trilogia sobre a história brasileira: 'Escravidão'

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 20/10/2019 às 8:50
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O jornalista, autor dos best-sellers '1808', '1822' e '1889' vem ao Recife lançar o começo de uma nova trilogia sobre a história brasileira: 'Escravidão' - Foto: Divulgação
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Autor dos livros 1808, 1822 e 1889, o jornalista Laurentino Gomes se dedicou a escrever sobre a história brasileira com outro viés: o da escravidão. Na próxima quarta (23), na Saraiva do Shopping Riomar, às 19h, ele vem lançar o livro Escravidão – Volume 1 (Globo Livros). Nesta entrevista, Laurentino comenta a pesquisa para a trilogia, a dimensão abismal da escravidão em terras brasileiras e o seu legado devastador, ainda hoje sentido.

ENTREVISTA

JORNAL DO COMMERCIO - Qual a diferença do Laurentino Gomes que teve a ideia desse projeto há seis anos e o de hoje, que concluiu o primeiro volume da trilogia? O que mudou na sua visão sobre a escravidão?
LAURENTINO GOMES - Acredito que houve um despertar de consciência em mim a respeito da escravidão desde que comecei a pesquisar e a escrever a trilogia anterior. A escolha desse tema foi uma decorrência natural da minha primeira da minha carreira literária. Estudar 1808, 1822 e 1889, ou seja, as três datas fundamentais para a construção do Brasil como nação independente no século 19, ajuda a explicar a maneira como nos constituímos do ponto de vista legal, institucional e burocrático. Mas não é o suficiente para entender os aspectos mais profundos da nossa identidade nacional. Para isso é preciso ir além da superfície, observar o que fizemos os nossos índios e negros, quem teve acesso às oportunidades e privilégios ao longo da nossa história e como a sociedade e a cultura brasileiras foram se moldando desde a chegada de Pedro Álvares Cabral na Bahia até os dias de hoje. Ao fazer isso, eu me dei conta de que o assunto mais importante da nossa história não são os ciclos econômicos, as revoluções, o império ou a monarquia. É a escravidão. O trabalho cativo deu o alicerce para a colonização portuguesa na América e a ocupação do imenso território. No final do século 17, o padre jesuíta Antônio Vieira cunhou uma frase famosa. “O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África”, afirmava ele. No meu entender, é uma frase profética, que se torna cada vez mais verdadeira com o passar do tempo. E continua atual ainda hoje. O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu quase cinco milhões de cativos africanos, cerca de 40% do total de doze milhões embarcados para as Américas. Como resultado, tem hoje a maior população negra do mundo, com exceção apenas da Nigéria. Foi também o país que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico negreiro e o último a abolir o cativeiro, pela Lei Áurea de 1888 - quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba. A escravidão foi a experiência mais determinante na história brasileira, com impacto profundo na cultura e no sistema político que deu origem ao país depois da independência. Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor para a construção da nossa identidade. É a conclusão a que cheguei ao final de seis anos de pesquisas, nos quais li quase duzentos livros sobre o tema e viajei por doze países em três continentes, incluindo oito africanos: Cabo Verde, Senegal, Marrocos, Angola, Gana, Benim, Moçambique e África do Sul. Em resumo, fiz uma gigantesca reportagem jornalística, que agora estou transformando em três livros a serem publicados a partir deste ano.

JC - O livro é também uma história do Brasil através da escravidão? Os dois temas se confundem?
LAURENTINO - Sim, acho até que a melhor definição para essa nova trilogia não seria uma história da escravidão no Brasil, mas, antes, uma história do Brasil vista pela ótica da escravidão. Nosso país tem um DNA, um código genético escravista, que define tudo o que já fomos no passado, o que somos hoje e também o que seremos no futuro. Essa é uma história trágica, de extermínio sem precedentes na história da humanidade. Antes de investir maciçamente no tráfico de cativos africanos, os portugueses tentaram de todas as maneiras suprir as necessidades de mão-de-obra da colônia com escravos indígenas. Estima-se que na época da chegada de Cabral haveriam entre três e quatro milhões de indígenas brasileiros, distribuídos em centenas de tribos. Falavam mais de mil línguas e representavam uma das maiores diversidades culturais e linguísticas do mundo. Três séculos depois, em 1808, ano da chegada da corte portuguesa de Dom João ao Rio de Janeiro, a população era ainda de cerca de três milhões de habitantes, número semelhante ao de 1500, mas os índios tinham sido vítimas de uma bomba demográfica. A esta altura, imensa maioria dos brasileiros – mais de três quartos do total – era constituída de brancos de ascendência europeia ou africanos e seus descendentes. O trabalho cativo deu o alicerce para a colonização portuguesa na América e a ocupação do imenso território brasileiro. Também moldou a maneira como nos relacionamos uns com os outros ainda hoje. Neste início de século 21, temos uma sociedade rica do ponto de vista cultural, diversificada e multifacetada, mas também marcada por grande desigualdade social e manifestação quase diárias de preconceito racial. Isso, no meu entender, é ainda herança da exploração desumana, cruel e indigna do trabalho de milhões de pessoas forçadas a cruzar o Oceano Atlântico a bordo dos navios negreiros para viver como cativas no Brasil colônia.

JC - Quais foram os pedaços mais envolventes e de maiores descobertas nesse primeiro livro?
LAURENTINO - Um detalhe que me chamou muito a atenção, e também me deixou assustado, diz respeito aos altos índices de mortalidade do tráfico de escravos e ao comportamento dos tubarões que seguiam as rotas dos navios negreiros. Durante mais de três séculos e meio, o Atlântico foi um grande cemitério líquído. Pelo menos 1,8 milhão de cativos morreram durante a travessia e foram sepultados no mar. Isso significa que, sistematicamente, ao longo de todo esse período, em média, quatorze escravos foram lançados da amurada de um navio todos os dias. Por essa razão, os navios que faziam a rota África-Brasil eram chamados de “tumbeiros”, ou seja, tumbas flutuantes. Os cadáveres eram então atirados por sobre as ondas, sem qualquer cerimônia, às vezes sem ao menos a proteção de um pano ou lençol, para serem imediatamente devorados pelos tubarões e outros predadores marinhos. Segundo inúmeras testemunhas da época, mortes tão frequentes e em cifras tão grandes fizeram com que esses grandes peixes mudassem suas rotas migratórias, passando a acompanhar os navios negreiros na travessia do oceano, à espera dos corpos que seriam lançados sobre as ondas. Esses rituais eram parte da rotina a bordo.

JC - Você fala no livro de outras escravidões na história e também ressalta que ela continua existindo, em condições análogas. Por que falar da escravidão dos países europeus em relação aos povos africanos é diferente?
LAURENTINO - A escravidão na América acabou, legalmente e formalmente, com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888. Mas, infelizmente, continua a existir, no Brasil e no mundo todo sob outras formas mais sutis e disfarçadas de exploração do trabalho, desumanas, indignas e inaceitáveis para os padrões éticos que julgávamos ter atingido neste início de século 21. Uma organização britânica, a Anti-Slavery International (mais antiga entidade de defesa dos direitos humanos, fundada em 1823 para combater o tráfico negreiro), afirma que existem hoje mais escravos no mundo do que em qualquer período nos 350 anos escravidão africana nas Américas. Seriam 40 milhões de pessoas vivendo hoje em condições de vida e trabalho análogas às da escravidão – ou seja, quase o dobro do total de cativos traficados no Atlântico até meados do século 19. Ainda segundo a Anti-Slavery Internacional, a cada ano cerca de 800.000 pessoas são traficadas internacionalmente ou mantidas sob alguma forma de cativeiro, impossibilitadas de retornar livremente e por seus próprios meios aos locais de origem. E lamentavelmente, o nosso Brasil aparece sempre com destaque nesta lista suja. Além disso, escravidão nem sempre foi sinônimo da cor da pele. Onde houve ser humana até hoje também houve escravidão. É uma característica comum a todas as sociedades ao longo da história, incluindo a própria África antes da chegada dos portugueses. Um detalhe curioso é que, até o final do século 17, a maioria dos escravos no mundo era constituída por pessoas brancas. A própria palavra “escravo” – “slavus’, em latim; “slave”, em inglês – deriva de “eslavo”, povo branco, de olhos azuis, que desde a antiguidade era escravizado no leste europeu e vendido na região do Mar Mediterrâneo. Essa noção de que escravo é sinônimo de negro, ou de que negro é igual a escravo, foi construída pelos brancos europeus, colonizadores e escravocratas durante o período colonial.

JC - Queria falar um pouco sobre a escravidão em Pernambuco, ainda mais no período do açúcar. Você fala que o “açúcar era sinônimo de escravidão” em terras brasileiras. Em que medida se dava essa onipresença do trabalho escravo por aqui?
LAURENTINO - A antiga capitania de Pernambuco foi o berço da escravidão indígena e africana no Brasil. O uso da mão-de-obra cativa chegou junto com a cultura da cana de açúcar nos ricos e férteis solos de terra escura, repleta de sedimento orgânico, o chamado massapê, tão abundante na zona da mata pernambucana. Portanto, para estudar a escravidão no Brasil é preciso começar primeiro pela África. Depois, por Pernambuco. Em terras pernambucanas (e hoje parte também de Alagoas) se desdobrou a história de Palmares, o maior e o mais duradouro refúgio de escravos de toda a história do Brasil. Resistiu durante cem anos aos ataques das autoridades coloniais. Nesse período, houve ao todo dezessete diferentes investidas contra o quilombo, sendo quinze portuguesas e duas holandesas. Na fase final da guerra, a partir de 1768, houve, em média, uma expedição militar a cada quinze meses. Uma campanha tão obstinada só se explica pelo caráter simbólico de Palmares. Do ponto de vista militar, o quilombo nunca chegou a ser uma ameaça real contra a colônia portuguesa (ou holandesa durante a breve ocupação de Pernambuco). Mas admitir sua existência era aceitar também um desafio à ordem escravagista vigente. Caso vitorioso, Palmares poderia ser tornar um exemplo para os demais escravos negros e africanos, que no final do século 17 já eram a maioria da população brasileira. Por isso, destruir Palmares se tornou uma questão de honra para as autoridades coloniais.

JC - E Zumbi? O que é mito, o que é realidade em relação ao grande símbolo da luta contra a escravidão?
LAURENTINO - Personagens, datas e acontecimentos históricos são ferramentas de construção de identidade. Funcionam como âncoras lançadas no passado nas quais procuramos alicerçar valores, convicções, sonhos e aspirações do presente, enquanto preparamos a jornada rumo ao futuro. E, como todos os símbolos, geralmente são produtos mais de edificações imaginárias do que de fatos objetivos e comprovados – o que também os torna alvos de infindáveis investigações e discussões entre os pesquisadores. Palmares e o seu mártir Zumbi são bons exemplos disso. Quem teria sido Zumbi? Por mais óbvia que pareça, a pergunta carece de respostas consistentes. Existem poucas informações concretas e objetivas sobre o suposto homem que liderou bravamente o maior e o mais famoso quilombo das Américas. Sua história permanece repleta de sombras, o que impediria que se tivesse uma visão mais nítida sobre ele. Na ausência de depoimentos pessoais ou documentos escritos por ele ou seus comandados, sobraria apenas o mito, lenta e laboriosamente construído ao longo dos séculos por historiadores, religiosos, militares, naturalistas, pedagogos, antropólogos, cineastas, arqueólogos, romancistas e, mais recentemente, militantes políticos. O resultado é a edificação de um Zumbi que, na verdade, nunca existiu. Está nos sonhos, na imaginação e nas convicções de cada pessoa e cada geração de brasileiros que sobre ele se debruçaram, na vã tentativa de desvendar-lhe o mistério. Estudar Zumbi, dessa forma, permitiria conhecer mais o Brasil e sua complicada relação com o passado escravagista do que o próprio personagem.

JC - Acredita que o tema da escravidão pode ser tão popular quantos os seus livros anteriores sobre a história brasileira?
LAURENTINO - Entendo que a escravidão seja o assunto mais importante de toda a história brasileira. Por isso, é, ou deveria ser, assunto com o qual todos nós, brasileiros, deveríamos nos preocupar. Por dois motivos principais. O primeiro é que o Brasil foi construído com trabalho cativo, primeiro indígena depois africano. O segundo é que o legado da escravidão persiste entre nós ainda hoje, na forma de preconceito, exclusão social, ou, pior, de autonegação, que se o tema não existisse ou não merecesse ser estudado. Todos nós que estamos vivos hoje somos descendentes de escravos ou senhores de escravos. Infelizmente, o tema costuma ser muito popular no carnaval e outras manifestações populares, como se vê nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Apesar disso, são poucas as obras no mercado editorial que expliquem o assunto em detalhes e linguagem acessível ao leitor comum. O objetivo desse projeto é preencher essa lacuna. Minha trilogia segue a fórmula dos meus livros anteriores, pelo uso de uma linguagem simples, fácil de entender, capaz de atrair a atenção mesmo de leitores mais jovens e não habituados a estudar o tema. Mas espero dar uma contribuição pessoal para o desafio brasileiro de encarar a sua própria história escravagista e dela tirar lições que nos ajudem a construir o futuro.

JC - Muitos já ousaram afirmar que o Brasil era uma democracia racial ou que não existia racismo por aqui. Em que medida essa negação torna mais difícil lidar com as heranças do nosso passado? Que outros mitos sobre a escravidão ainda encontram ecos hoje?
LAURENTINO - O racismo é uma consequência histórica, resultado da escravização de milhões de africanos de pele negra, mas também uma forma de hierarquização de poder. Esta é uma das consequências mais profundas e duradouras da escravidão africana nas Américas: o nascimento de uma ideologia racista, que passou a associar a cor da pele à condição de escravo. Por essa ideologia, usada como justificativa para o comércio e a exploração do trabalho cativo, o negro seria naturalmente selvagem, bárbaro, preguiçoso, idólatra, de inteligência curta, canibal, promíscuo, “só podendo ascender à plena humanidade pelo aprendizado na servidão”, na definição do africanista brasileira Alberto da Costa e Silva. Sua vocação natural seria, portanto, o cativeiro, onde viveria sob a tutela dos brancos, podendo, dessa forma, alçar eventualmente um novo e mais avançado estágio civilizatório. Essa ideologia, no meu entender, permanece ainda hoje oculta nas formas preconceituosas de relacionamentos entre brancos e negros no Brasil. Isso faz com que, por exemplo, nas 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência sejam ocupados por negros. Os brancos são também a esmagadora maioria em profissões qualificadas, como engenheiros (90%), pilotos de aeronaves (88%), professor de medicina (89%), veterinários (83%) e advogados (79%). No meu entender, só a persistência de uma ideologia racista, que recusa oportunidades aos negros, explica essas diferenças.

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