Entrevista

Carmelo Maia herdou a obra e os processos do pai

Ele liberou a trilogia Racional nas plataformas digitais

José Teles
José Teles
Publicado em 07/04/2019 às 12:26
Foto: acervo da família
Ele liberou a trilogia Racional nas plataformas digitais - FOTO: Foto: acervo da família
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Um certo dia de 1976, Tim Maia chegou em casa, despiu-se das roupas brancas, cor que adotara desde 1974, ficou nu, acendeu um baseado e gritou, a todo pulmão, a fim de que todos escutassem: “Estou voltando pro mundo”. O cantor cortava assim, radicalmente, bem a seu modo, os laços com a Cultura Racional, a qual se dedicara em tempo integral, a ponto de parar com as drogas, lícitas e ilícitas, deixar de fazer sexo, e tornar-se um dos maiores divulgadores do pensamento do carioca Manoel Jacintho Coelho (1903/1991), exposto no livro Universo em Desencanto, que se desdobra em 1.006 volumes. Tim Maia procurou simplificá-los em três discos. O terceiro ele abandonou no estúdio, depois de gravado.

 Ao voltar para o mundo real, Tim Maia renegou a Cultura Racional e tudo que tinha a ver com ela, incluindo os discos Racional (1975) e Racional Vol.2 (1976). Ambos, e o terceiro volume, que permaneceu inéditos vários anos, foram relançados, no formato digital, no dia 22 de março. O responsável pelo relançamento é Carmelo Maia, filho de Tim Maia com Geisa, e curador da obra do pai.

Ele nasceu em 1975, quando o “Síndico” encontrava-se-se imerso nos ensinamentos do mestre varonil Manoel Jacintho, do Racional Superior: “O guru Jacintho sugeriu a meu pai três nomes para me batizar: Carmelo, Telmo e Robinson. “Robinson tem o Rob de Robert, e Son que é filho. Como ele tinha aquele conflito com Roberto Carlos, na hora quase manda Jacintho tomar naquele canto. Quando meu pai voltou dos Estados Unidos procurou Roberto, que fingiu que não o conhecia, não lhe deu atenção. E aí ele tomou um certo repúdio, um certo sentimento, contra Roberto Carlos. Ele gostou do Telmo, mas na hora de registrar botou Carmelo. Chega na casa da minha avó comigo e diz: Olhai o Telmo. Pra minha família sou Telmo até hoje. Sofri vários problemas por causa do nome. Na escola, professores, coordenadores, achavam que eu sofria de audição, chamavam Carmelo Maia e eu não respondia. Não sabia que me chamava Carmelo. Só vim saber na escola”.

A demora para os discos de Tim Maia subirem para as plataformas digitais, esclarece Carmelo, foi burocrática. Ele se debruçou sobre os contratos que Tim Maia firmou com as diversas gravadoras pelas quais fez disco: “Na época dos contratos não existia internet, então tivemos que ver isso com as gravadoras, um trabalho de organização contratual. O objetivo era subirmos em conjunto uma ação só de Tim Maia. Não consegui porque precisava de autorização dos parceiros das músicas com meu pai na Vitória Régia, a gravadora dele. Acabei pedindo que a Universal, Sony, Warner Music lançassem os discos em outubro. Ficaram faltando os da Vitória Régia”.

 RACIONAL

Tim Maia foi levado para conhecer o guru do Racional Superior pelo músico e compositor Tibério Gaspar. Outros músicos também tornaram-se seguidores dos conhecimentos de Manoel Jacintho, a exemplo de Jackson do Pandeiro, mas nenhum foi tão entusiasta quanto Tim Maia. Ele arriscou a carreira para ter o direito de ir para outro planeta numa nave que, o guru prometia, viria à Terra levar as pessoas puras, sem vícios. Os dois LPs inspirados pelo livro Universo em Desencanto venderam pouco, não agradaram à crítica. Na segunda metade dos anos 90 foram redescobertos. Cópias dos LPs passaram a valer uma fortuna. Continuam valendo.

Carmelo Maia conta a passagem do pai pelo Racional Superior. “Tem aquela fase mística a que todo ser humano chega numa certa idade, em busca de perguntas e respostas. De onde a gente veio, pra onde a gente vai, com meu pai não seria diferente. Como toda seita, tinha sua lavagem cerebral. Pregavam que não se podia comer carne vermelha, sexo só pra fins de procriação. As mulheres não podiam pintar as unhas de vermelho. A cor vermelha indicava que você estava magnetizado, com o demônio. Então Tim Maia vestiu o uniforme branco do racional, que também usei e tenho até hoje. Cumpriu as regras da religião. Não fazia sexo, não usava drogas, pintou todos os instrumentos de branco. casa a geladeira, o fogão, acho que eram marrom, ele comprou tinta e mandou pintar tudo de branco.

 Seguia fielmente os mandamentos do grã mestre varonil Manoel Jacintho. Um belo dia, descobriu que Jacintho estava construindo, atrás do templo, um motel para extra-terrestres. Acreditavam que o deus da Racional Superior um dia desceria com a nave e resgataria os puros, limpos e perfeitos. Tim queria ir na nave, se possível do lado da janela”.

 O envolvimento com o Racional comprometeu a carreira comercial do cantor. Na época o colorido da TV brasileira passava por aperfeiçoamentos. O branco das roupas de Tim Maia e sua banda estourava na telinha, reclamava os produtores. Ele se recusava a vestir outra cor. Tentava converter os amigos mais à seita (na verdade mais uma filosofia): “Ele tentou levar Raul Seixas para a Cultura Racional. Raul não quis. Ele alertou a Raul que aquele negócio de cheirar cocaína fazia o que cara virar bicha. Então ele pegou o Manoel Jacintho em atos libidinosos com uma fiel, e pensou: estou a dois anos sem fazer sexo, e vejo a pessoa a quem mais eu tenho respeito, que mais eu sigo, descumprir uma das regras, um dos mandamentos. Foi quando resolveu voltar ao mundo”.

 O terceiro volume da série Racional ficou esquecido durante 35 anos num estúdio no Centro do Rio: “Um dia a galera do estúdio começou a se desfazer de fitas masters. As gravadoras não vinham buscar, nenhum artista se interessava. Botavam pra tocar, se não soubessem quem era jogavam fora. Numa dessas masters estava O Racional, eles me procuraram. Levei pra Sony e lançamos em CD, edição limitada, jamais foi lançado em vinil, nem em plataforma digital”. Carmelo rebate as críticas dos que acreditam que Tim Maia não relançaria estes discos: “Ele se decepcionou com a religião, de Manoel Jacintho, mas não da obra.

Nos anos 90, em shows antológicos, no Canecão, no Circo Voador, ele passou a cantar Racional. Não vou garantir que colocaria de volta os discos pra explorar comercialmente. O que sei é que tenho vídeos com ele cantando música destes discos”. OUTROS Carmelo Maia foi emancipado aos 16 anos e passou a fazer parte dos sócios da Vitória Régia e da Seroma, gravadora e editora de Tim Maia, pai ainda de João Carlos e Márcio Leonardo, o Leo (ambos adotivos).

A Seroma vem das duas primeiras letras de Sebastião Rodrigues Maia (ao contrário lê “amores”). Diz-se um rottweiler enfurecido quando se trata do nome e da obra do pai, de quem herdou não apenas o ativo, mas um extenso passivo de 413 processos. Hoje são 578. Boa parte contra quem usa a obra de Tim Maia sem a devida autorização, aqui ou no exterior. O selo americano Luaka Bop, de David Byrne, lançou uma elogiada compilação, Nobody Can Live Forever: The Existential Soul of Tim Maia: “Todo mundo que comprar Ferrari pagando preço de Fusca. Aí não me interessa. David Byrne na verdade não queria nem pagar nada. Gratuito não, não tô fazendo caridade. Não autorizei. Dois anos depois lançaram no mercado europeu e americano. Comprei os CDs pra configurar a violação, e mandei uma notificação dizendo que iríamos pra corte americana. Foi aí que resolveram legalizar, pagaram, e ficamos em paz”. Carmelo pretende lançar a trilogia Racional em uma caixa, em vinil, mas não sabe quando o projeto será viabilizado. Por enquanto ele procura dois discos do pai. Um deles é um compacto gravado nos EUA, nos anos 60, com um grupo chamado The Ideals. O segundo nem sabe se realmente existe. Tim Maia com o grupo que acompanhava James Brown, início dos anos 70.

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