Forró

Jorge de Altinho retoma raízes do forró como forma de protesto

Cantor aponta para concorrência desleal nos festejos juninos

JOSÉ TELES
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Publicado em 21/06/2016 às 8:38
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Cantor aponta para concorrência desleal nos festejos juninos - FOTO: foto: divulgação
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"Santos Dumont inventou o avião pra transportar passageiros e encurtar as distâncias, quando ele viu que estavam usando pra guerra, suicidou-­se. Eu não vou me suicidar, mas fiz os metais de qualidade, com arranjos do maestro Duda, então, quando vejo umas drogas dessas hoje, sem qualidade, sem arranjos, de certa forma me arrependo de ter botado os metais no meu forró". O desabafo é de Jorge Assis de Assunção, o cantor de forró Jorge de Altinho, responsável por uma renovação no gênero no início dos anos 1980, quando trouxe para o forró uma azeitada metaleira, com arranjos de nomes como o maestro Duda ou Sivuca.

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Por "drogas" entenda­-se bandas de fuleiragem, às quais não se esquiva de criticar, mesmo estando com uma fornida agenda junina: "Este ano tem um pouco menos de show, há uma invasão danada desses grupos, dos sertanejos do Sul, o que me deixa triste porque a gente espera onze meses para fazer o São João. Então os caras do Sul vêm, os prefeitos não têm dinheiro, os produtores bancam pra depois receber. Um artista que tem 36 anos de carreira como eu, quando era contemplado pelo governo do Estado, me davam três shows. Desses três a gente paga o transporte, a banda paga os dois mil pra luz de palco, refeição do pessoal, para receber oito meses depois. Este ano eu não quis. É melhor estar com um pouco do meu dinheiro guardado",

Jorge de Altinho ainda tem munição para encarar as multidões de fãs de sertanejos porque pegou as gravadoras no auge e as rádios com uma programação eclética. Ele tem pelo menos duas dezenas sucessos, que continuam bem ­tocados. São clássicos como Sigilo, Correnteza, Petrolina Juazeiro, Sou Feliz, Tamanho de Paixão, Nem Ligue, Devagar, Confidências, compostas sozinho, ou com parceiros como Petrúcio Amorim: "Conheci Petrúcio em Caruaru, fui dar uma entrevista na Rádio Liberdade e aquele rapaz magrinho falou comigo, dizendo que tinha umas músicas. Fomos na casa da irmã dele, Elba, e ele mostrou umas já prontas outras para dar umas mexidas. Foi um casamento feliz", elogia. O compositor Jorge de Altinho surgiu de maneira inusitada ­ primeiro do que o intérprete ­ e gravado por dois monumentos da música nordestina e brasileira: o Trio Nordestino e Luiz Gonzaga.

 HISTÓRIA

 No final dos anos 50, seu Anízio Brazilino Assunção, pai de Jorge, decidiu vender o posto de gasolina que possuía no bairro da Encruzilhada, zona norte do Recife, e a casa em Salgadinho, Olinda (o cantor é olindense). A ideia era levar a família para Altinho, terra da esposa, dona Maria de Assis Assunção. O município fica muito perto de Caruaru, onde ele ia constantemente e diz ter se impregnado de cultura nordestina: "A feira se espalhava pelo Centro, então, em cada esquina tinha uma manifestação cultural, o coquista, dois violeiros, um sanfoneiro, aboiadores, lembro muito bem de senhores lendo folhetos, com aquela roda de gente".

Na adolescência Jorge se passou para as hostes do iê iê iê como vocalista dos Big Boys, conjunto formado com amigos de Altinho, com instrumentos doados por um político. No entanto, quando aflorou o veio musical, passou a compor valendo­-se dos diversos ritmos embutidos no coletivo forró. Em 1975, passou num concurso público e assumiu o cargo no Sertão do Araripe, onde conheceu o Trio Nordestino: "Por coincidência foi num posto de gasolina que encontrei o trio. Reconheci pelas capas dos discos. Conversei com eles e disse que era compositor. Emplaquei logo duas músicas no LP Forró Pesado (1975), depois mais uma no Alegríssimo Trio Nordestino (1976)".

Gravado pelo Trio Nordestino, foi mais fácil chegar ao Rei do Baião: "Um dia fui na casa de Luiz Gonzaga, que já sabia que eu tinha umas coisinhas gravadas com o Trio Nordestino. Ele me recebeu bem, me convidou pra passar um final se semana com ele. Fomos para uma inauguração numa cidadezinha lá perto e, na volta, lembrei de um sujeito de lá que fedia muito. Sentei com Gonzaga, liguei o gravador, ele pegou a sanfona, e foi assim que saiu Mané Gambá, que ele gravou no LP Capim Novo", conta Jorge de Altinho.

De volta ao Recife, começou a a carreira de cantor lançando o primeiro disco pela Odeon, que não aconteceu. A RCA, gravadora na qual teria sua fase maior sucesso comercial, o descobriu por tabela. Um disco que iria lançar pela Polydisc foi prensado na fábrica da gravadora no Rio, onde o pessoal ficou querendo saber quem era o artista de que estavam prensando tantos discos: "Curioso é que o vinil foi da RCA e a capa da Continental. O disco chegou primeiro, então as pessoas compravam o LP para depois vir buscar a capa".

Compravam porque o disco estourou quase todas as faixas, o que tirou o forró do ingrato horário das quatro às seis da manhã para o horário nobre, tanto nas AMs quanto nas elitistas FMs de então: "Em FM só tocava Chico Buarque, Milton Nascimento, então pensei em fazer um forró com letras mais urbanas, continuar com as características básicas, zabumba, triângulo, sanfona, mas acrescentar metais. Quando falei para Luiz Gonzaga ele ficou meio assim, mas depois fez participações em discos meus, ele e Dominguinhos.

O novo disco de Jorge de Altinho não tem metais. É um mergulho no forró mais tradicional, na contramão do que se toca nos grandes arraiais do Nordeste neste época: "Este ano, ouvindo e vendo na TV essas músicas que degradam a mulher, tirei os metais. Fiz um trabalho de resgate da nossa cultura. Neste disco tem o xote, tem o baião, samba de latada, o forró pé de serra instrumental. Fizemos uma capa xilografada, em cima dos folhetos de feira. Também não usei fotografia minha, usei xilogravura, tem versos de Braulio Bessa, um cearense amigo nosso. É um disco que tem cara de resgate cultural", explica.

Nativo, o novo disco de Jorge de Altinho, foi produzido por pelo tecladista Tovinho, com uma banda que tem nomes como Bozó 7 Cordas, Kiko Farias (guitarra), Quartinha (zabumba triângulo), Luizinho de Serra (sanfoneiro, e que assina os arranjos), e Edno Silva (bateria). Com projeto gráfico de Juliana Souza e Perron Ramos, está disponível para download no site do cantor: www.jorgedealtinho.com.br

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