SAÚDE

Diante da crise, 160 mil pessoas já abriram mão do plano de saúde em Pernambuco

No Brasil, esse número já chega a 3 milhões de desistentes

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 09/12/2019 às 7:10
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Foto: Arquivo/Agência Brasil
No Brasil, esse número já chega a 3 milhões de desistentes - FOTO: Foto: Arquivo/Agência Brasil
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A queda no número de empregos formais tem atingido diretamente as operadoras de planos de saúde. Nos últimos cinco anos, só em Pernambuco, 160 mil pessoas deixaram de ter a cobertura dos planos de saúde, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No Brasil, esse número já chega a 3 milhões de desistentes. Cerca de 60% dos contratos de planos de saúde hoje são empresariais, um tipo de benefício oferecido pela empresa ao seu empregado. O dado é da Fenasaúde, entidade que reúne 15 operadoras de planos privados. Juntas, atendem 26 milhões de pessoas.

Atualmente desempregada, Rafaela Teixeira, 36 anos, tinha um plano empresarial até o ano passado, mas foi demitida e passou a usar o SUS para tratar a fibromialgia e a artrose. Ela diz que a dificuldade maior é com os exames, que demoram muito para serem marcados na rede pública. “Geralmente me consulto com o médico do SUS e faço os exames na rede particular, em clínicas populares”, diz Rafaela. A dificuldade para voltar a ter plano de saúde, diz ela, ainda é o preço. “É muito caro. Fora de um plano empresarial não tem como.”

Enquanto a economia do País ainda não gira o suficiente para que se recuperem as perdas do setor, as operadoras estão buscando novos formatos de produtos mais acessíveis para os usuários e sustentáveis para as empresas. O principal deles seria a volta dos planos individuais, que hoje respondem por apenas 20% dos contratos ativos. Praticamente não há mais operadoras que ofereçam esse tipo de plano. “Hoje os planos individuais não são mais ofertados porque os reajustes autorizados pela ANS não cobrem o aumento dos custos. Produto que não se paga com o preço pelo qual pode ser cobrado não se sustenta”, afirmou, em nota, a Fenasaúde.

A Unimed Recife foi uma das últimas operadoras a oferecer planos individuais. Mas para Gustavo Araújo, superintendente da empresa, o modelo, da forma como está, não se sustenta. “Oferecemos planos individuais por quase 10 anos depois que o mercado começou a parar de oferecer esse tipo de produto. Mas não há mais sustentabilidade nesse tipo de plano porque a forma de controle dos reajustes por parte da ANS não cobre os custos com a inflação médica (em torno de 20% ao ano) mais o custo das novas tecnologias e os custos com a frequência do uso por parte do usuário”, disse Araújo.

Planos individuais segmentados

A proposta defendida pelo setor são planos individuais segmentados, com cobertura limitada há alguns procedimentos. O usuário escolheria as coberturas de seu interesse e pagaria um valor ajustado por isso. Os reajustes também seriam analisados por operadora, levando em conta a realidade e os custos de cada empresa. 

Para o advogado Elano Figueiredo, especialista em planos de saúde e ex-diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a volta dos planos individuais, por si só, não significará a redenção das operadoras. Para ele, é necessário que haja a segmentação, além de outras ações. “Sempre acreditei que a segmentação favorece o acesso. Hoje, o rol de cobertura dos planos de saúde é bem extenso e ainda tem a obrigatoriedade de um atendimento muito completo. E isso deixa o plano de saúde muito caro. A segmentação vai deixá-lo mais acessível, porque os custos para operadora irão baixar e, por consequência, o preço ao consumidor, ao mesmo tempo que vai fomentar a sustentabilidade para a operadora”, afirmou. Elano defende ainda a adoção da franquia, em que o usuário pagaria uma mensalidade reduzida, mas, para usar a cobertura completa do plano, teria que pagar um valor extra, como acontece com os seguros, por exemplo. “A franquia era uma medida mais branda que a segmentação, mas foi revogada pela ANS no ano passado”, explicou o advogado. 

Enquanto as propostas para uma nova regulação do setor não se concretizam, o comerciante Laelson Ribeiro, 50, se diz que não acredita no setor. Ele conta que já teve vários planos de saúde, mas há cinco anos está sem nenhuma cobertura do tipo. “O último plano de saúde que tive aumentou o preço depois de três meses que eu entrei. Desisti na hora”, admite, com firmeza. Laelson trata de uma diabetes no Hospital das Clínicas e diz que já conseguiu controlar a doença. “Plano de saúde é muito caro e o reajuste sempre é pesado demais.”

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