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Conheça Simony, empreendedora da periferia do Recife reconhecida pela Forbes

Com a tecnologia Nina, ela foi escolhida entre 90 jovens com menos de 30 anos para integrar a lista Under 30 da revista

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 12/01/2020 às 6:00
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Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
Com a tecnologia Nina, ela foi escolhida entre 90 jovens com menos de 30 anos para integrar a lista Under 30 da revista - FOTO: Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
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É a própria Simony quem vem abrir a porta azul, com luzes neon, no 21ª andar do RioMar Trade Center, no bairro recifense do Pina. Ali, no número 2103 funciona o escritório da Red Bull no Recife, uma das empresas com quem mantém parceria. Bem ao estilo dos empreendedores de startups, ela recebe a equipe do JC descalça, jeans rasgado e camiseta preta - com a inscrição (d)resista - para conceder entrevista para este perfil. Na semana passada, um post de Simony César, 27 anos, viralizou nas redes sociais. Filha de uma ex-cobradora de ônibus e criada em Dois Unidos, ela anunciava que dividia a cobiçada lista Under 30 da Forbes 2019, com outros 89 empreendedores de menos de 30 anos. O reconhecimento na categoria de tecnologia e inovação foi pelo desenvolvimento da Nina, uma tecnologia integrada a aplicativos que mapeia e rastreia casos de assédio a mulheres no transporte coletivo.

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possível improvável ~ eu nasci e me criei em um dos bairros com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Recife, o bairro de Dois Unidos. sou filha de uma ex-cobradora de ônibus que engravidou aos 18 anos e só não segurou a onda sozinha, porque minha avó, mãe já de 4 filhos, decidiu me criar. sem estudo e emprego, quando eu tinha 02 anos, minha mãe foi tentar a vida em São Paulo e me deixou sob cuidados de vovó Alda que me educou, cuidou de mim e me ensinou a ler e escrever em casa. meu privilégio: educação. sempre tive quem que com quase nada me ensinou muito. e eu tive que entender desde muito cedo que mobilidade social, melhoria de vida, ou furar a bolha só seria possível se eu estudasse. sabe todos esses programas sociais que vocês, classe média, já xingaram? eu sobrevivi por conta deles. trabalho desde os 12 anos e não acho isso louvável, mas também não sinto que minha infância foi roubada, criança se ilude fácil. mas parece que iniciar trabalho aos 12 será regra pra quem quiser se aposentar integralmente. meu pai, só se tornou meu "pai", juridicamente falando ao ocupar o espaço por toda vida em branco no registro e fisicamente, quando eu tinha 11 anos. 7 anos mais tarde, eu passei a ser a primeira pessoa da família dele a entrar numa universidade pública. a 1a a ter publicação científica, a 1a a empreender sem 1 real no bolso, a 1a a viajar por todo o brasil e pra fora do país por ter trabalho reconhecido. a primeira de gerações, percebem o quanto isso é injusto?! vocês querem falar sobre meritocracia? se mudem para uma comunidade, numa família com três filhos e aprendam a viver com 1 salário mínimo, quem fizer o primeiro milhão, eu cedo meu espaço na Forbes. #ForbesUnder30

Uma publicação compartilhada por Simony César (@simonycesar) em

O “textão” publicado nas redes sociais alcançou repercussão estrondosa e reações extremas. Só no Linkedin foram mais de 26 mil curtidas e 1,6 mil comentários. Nas interações, a grande maioria se identifica com o post, demonstrando sentimentos de pertencimento, representatividade, identidade e inspiração. Mas não ficou só nisso. O depoimento também trouxe recordações amargas, mexeu com velhos fantasmas familiares e atiçou posicionamentos políticos contra o “grito de gênero e classes” de Simony. Foi como se quisessem abafar uma caixa de silêncios particulares aberta por ela e compartilhada por uma comunidade inteira.

- Meu pai se sentiu exposto e até brigou comigo porque escrevi sobre a ausência dele durante minha infância. Reclamou que depois do meu post está sendo cobrado por isso. Mas minha mãe engravidou aos 18 anos e ele negou que o filho fosse dele e só me registrou quando eu tinha 11 anos. Só me dei conta que não era (oficialmente) reconhecida quando percebi que minha carteira de estudante vinha com um vazio.

A criadora da Nina soube que estava na lista Under 30 da Forbes antes da festa de Natal. Fazia uma reunião de planejamento e encerramento de ano com a equipe da empresa, em uma livraria no Recife, quando o celular tocou. Era uma jornalista da área de tecnologia e inovação da revista. Dois dias antes ela tinha acessado Simony pelo Linkedin pedindo um contato de urgência. Do outro lado da linha, a interlocutora fez algumas perguntas sobre a Nina e disse que precisava ter "120%" de certeza de que a empreendedora tinha menos de 30 anos. Perguntou sua data de nascimento e terminou a conversa com um “parabéns, você está na lista Under 30 da Forbes” e pediu para manter sigilo, porque a revista só seria publicada em janeiro.

- Naquele momento fiquei sem reação, em choque. Mas ainda perguntei como chegaram a meu nome. A jornalista respondeu que a revista faz uma curadoria para selecionar as pessoas

A revista impressa deverá chegar às bancas no próximo dia 15, mas a edição digital foi disponibilizada no apagar das luzes de 2019. Na tarde do dia 31 de dezembro uma amiga ligou para Simony avisando que a lista da Forbes estava na internet. Depois de confirmar, ela escreveu um pequeno post de oito linhas nas redes sociais que começava com a frase “teime, é só teimar”.

- A frase era dita por Dona Lindu, mãe do ex-presidente Lula, e que Glória Pires repetia no filme (Lula, o filho do Brasil - de Fábio Barreto). Estava muito feliz, mas sem processar nada daquilo direito. As pessoas me desejavam ano novo e falavam da conquista da Forbes. Foram muitos comentários e posts de parabéns e de esperança de pessoas dizendo que, se eu consegui, outras pessoas poderiam conseguir. Apesar de estar feliz, tudo aquilo me incomodou porque na véspera do Natal também recebi ligação de uma amiga perguntando se estava tudo bem comigo, porque uma barreira tinha deslizado em Dois Unidos e matado várias pessoas.
Quando ligou a TV, Simony se deparou com o nome de vizinhos conhecidos na lista dos mortos. A tragédia na Zona Norte do Recife tinha deixado sete mortos: cinco adultos, uma criança e um bebê.

Foto: JC Imagem

- A lista tinha o nome de Lucimar, que a gente conhecia por Cimar. Ela tinha perdido um filho no ano passado, morto com diabetes. E a neta dela (Daffyne), que ia sempre lá em casa deixar pão pra minha avó, porque ela tem problema de mobilidade. Aquilo me doeu e passei a virada de ano pensando como é improvável pessoas de uma comunidade, como eu, chegar à Forbes. Olhei pra minha história, minha família e meus vizinhos e lembrei de todas as possibilidades negadas para quem nasce suburbano, nordestino, negro, mulher. É tudo muito injusto. Eu poderia estar na lista dos mortos ou porque outras pessoas não poderiam estar comigo na Forbes? Senti vontade de escrever e publiquei o post.

Se a maioria das pessoas se identificou e comemorou a conquista, houve quem tratasse o relato como um “repertório horroroso de rancores”. De alguém se utilizando de um “tipo de coitadismo ou história tristérrima de vida para justifica alguma coisa”. Simony ainda tentou responder alguns posts e teve apoio em defesa das suas posições, mas relaxou. Convicta de suas geografias, do que é viver em um bairro do subúrbio recifense, Simony entende que o preconceito não é algo ingênuo, inadvertido. É sinal de atraso, de incômodo de quem quer manter as coisas como estão (sem mobilidade social).

INFÂNCIA

A futura empreendedora foi a primeira neta da família de Dona Alda César Ramos. Quando sua filha Silvana engravidou e depois quis ir para São Paulo, ela pediu para criar a menina. Professora, a avó percebeu logo cedo a inteligência arguta da criança. Ensinou a neta a ler e escrever em casa e quando a menina começou a vida escolar já foi pulando de série.
- Simony nunca levava desaforo pra casa. Sempre foi muito braba e eu tinha que ficar muito de olho nela. Uma vez ela estava no terraço de casa e uns amiguinhos do bairro ficaram mexendo com ela de fora do portão. Fiquei escondida observando porque já sabia o que ia acontecer. Ela saiu correndo pra enfrentar os meninos e eu correndo atrás dela.

Além da avó professora, a idealizadora da Nina também contou com a influência de tios maternos (com formação superior), que incentivaram o gosto pela leitura e destacaram a importância da educação. A participação da família paterna também foi muito ativa, mesmo com o distanciamento do pai num primeiro momento. Avós e tios sempre estiveram próximos, participando do crescimento de Simony.

O tempo para os estudos foi dividido com pequenos trabalhos, iniciados aos 12 anos. Naquela época, Simony vendia na feira de Nova Descoberta os doces que sua tia fazia. Hoje com 77 anos, quatro filhos e quatro netos, Dona Alda diz que fica feliz com as conquistas da neta, mas agora reclama que ela anda trabalhando demais, que precisa respirar, diminuir o ritmo. Para Simony, Dona Alda significa amor, porto seguro e limite. Durante a entrevista ela chora tentando explicar o que a avó significa na vida dela.

- Eu não imagino como teria sido se não fosse a minha avó. Mas ela também sempre me botou muito limite. Reclamava que eu era teimosa, mal ouvida, que queria estar sempre certa. Quando eu fui selecionada para a lista Under 30, ela me deu os parabéns e me deu um abraço, mas ainda disse que só falta eu ser menos braba (sorri). Mas não teria chegado aqui se não fosse o cuidado dela por toda a minha vida.

- Ficava andando pela feira com um isopor e vendia muito no salão de Pink, que estava famosa na época porque tinha passado pelo BBB. Depois fui entregar panfletos de uma construtora. Ganhava R$ 25 por quatro horas e geralmente trabalhava duas vezes por semana. Usava o dinheiro para ir ao cinema e comprar pequenas coisas, como bijuterias na feira de Caixa D’Água.

“Ficava preocupada com sua formação, porque ela mudava muito de ideia. Terminamos aconselhando a fazer um curso técnico e ela optou por edificações no Senai”, conta a avó. Depois disso se encontrou na construção civil e passou três anos na área. Como gostava de escrever pensou em estudar jornalismo e ainda cursou um período de rádio e TV antes de migrar para design. Não gostou do curso em Pernambuco e foi estudar na Paraíba. Desembarcou no Estado vizinho com R$ 700 no bolso, dos quais R$ 400 seriam usados para pagar o aluguel e ficaria apenas com o restante até encontrar trabalho. Depois teve que largar o curso por conta da dificuldade de conciliar com a agenda de demandas da Nina. Voltou a fazer Enem e entrou no curso de Publicidade e Propaganda da UFPE, da qual é aluna. 

De personalidade forte e contestadora, Simony se identificou cedo com o feminismo. A ausência do pai, o trabalho da mãe como cobradora, a experiência como funcionária na administração de uma empresa de ônibus e a própria vivência como usuária de transporte público fez com que ela se defrontasse com o machismo. A Nina começou em 2016 como uma pesquisa para entender como o assédio na mobilidade urbana afetava a vida da mulher. Em que medida impede de trabalhar, de acessar a universidade, de sair da pobreza. O nome foi escolhido por conta da admiração que tem pela cantora Nina Simone, que também sentiu na pele a violência contra a mulher, apesar do sucesso e da fama.

- Tive uma experiência bem diferente da minha mãe em São Paulo. Enquanto ela foi como uma mulher nordestina e sofreu muito, eu fui apresentar um artigo sobre a Nina no Congresso Brasileiro de Cibercultura (ABCiber), na PUC.

NINA

Depois de validar o trabalho academicamente foi o momento de criar a tecnologia, durante uma maratona de programação. Daí surgiu a tecnologia que permite denunciar casos de assédio na mobilidade urbana. Hoje a Nina integra o aplicativo de transporte público Meu Ônibus Fortaleza e está em negociação com mais cinco cidades. Basta apertar um botão para que vítima ou testemunha denunciem o ato de violência: as imagens captadas pelas câmeras dos veículos são gravadas e enviadas à Polícia Civil para viabilizar a identificação do agressor.

A Nina foi reconhecida não só pela Forbes, mas também pelo MAN Impact Accelerator (programa de aceleração da MAN Truck & Bus, braço de veículos pesados da Volkswagen) entre oito startups escolhidas no mundo todo. A pernambucana saída da periferia também coleciona destaques nacionais e internacionais no mundo científico.

- Recife não ter adotado a tecnologia é uma das minhas maiores amarguras. Já bati na porta do Consórcio Grande Recife, da Prefeitura do Recife e de secretarias estaduais, mas até agora não tinha andado. 

Na sexta-feira (10), Simony participou de reunião com o Secretário de Desenvolvimento Urbano, Marcelo Brutus, e ficou de reenviar uma nova proposta para implantação da Nina. 

Quando comenta sobre o futuro, Simony diz que seu desejo é de que a Nina não precisasse existir.

- Num mundo ideal a Nina poderia sumir, porque ela só existe por conta da violência. Quero sim que a tecnologia se expanda e cumpra seu papel social, que possa promover através da inteligência de dados uma cidade mais segura para as mulheres. Sabemos que as mulheres periféricas das classes CDE são ainda mais vulneráveis na mobilidade urbana. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada quatro segundos acontece um assédio contra a mulher no transporte público.

Depois do reconhecimento da Forbes choveram convites para Simony César ministrar palestras Brasil afora. A visibilidade ampliada também fez com que ela entendesse como o seu “feito” pode inspirar e incentivar as pessoas.

- Os comentários do post me fizeram ter crises de choro. Não àqueles que tentaram me desmerecer. Fiquei tocada como o reconhecimento de um jovem empreendedor em uma revista pode trazer uma ponta de esperança pra tanta gente.

 

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