CONSCIÊNCIA NEGRA

Consciência Negra: Preconceito aumenta nos campos e joga contra o futebol

Desde 2014, Observatório da Discriminação Racial no Futebol faz um levantamento de casos ocorridos no futebol e desde então os índices mais que dobraram

Marcos Leandro
Marcos Leandro
Publicado em 20/11/2019 às 7:05
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Divulgação Santa Cruz
Desde 2014, Observatório da Discriminação Racial no Futebol faz um levantamento de casos ocorridos no futebol e desde então os índices mais que dobraram - FOTO: Divulgação Santa Cruz
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Preto no branco. Hoje (20/11) é dia de deixar as coisas assim. No mesmo tom desta página. A expressão é antiga e tem muitas explicações para a sua origem, mas é usada no sentido de deixar algo registrado e... claro. Claro que o termo já remete à preconceito, infelizmente registrado em toda a história do Brasil. Mas entre o preto da tinta e o branco do papel, evocado pela expressão, há muito nas entrelinhas, inclusive entre as quatro linhas dos gramados de futebol. Por isso que hoje, no Dia Nacional da Consciência Negra, o Jornal do Commercio resolveu colocar a discriminação racial no esporte “branco no preto”. Não só deixar “às claras” o problema, mas também evidenciar o “escuro” dele que, tanto calça chuteiras e entra em campo, como também senta nas arquibancadas e profere xingamentos preconceituosos.

A data, instituída em 2003 em referência ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, é um convite à reflexão – e combate - a uma chaga que infelizmente se faz presente durante todos os dias do ano em todos os campos da nossa sociedade. O do futebol é só um deles. Mas pelo seu imenso poder e influência deveria servir de exemplo. Não de vergonha. Desde 2014, O Observatório da Discriminação Racial no Futebol faz um levantamento, a partir de dados coletados na mídia nacional e internacional, dos casos ocorridos no futebol e desde então os índices mais que dobraram (este ano já atingiu novo recorde ainda com os campeonatos em andamento), enquanto os números de punições ainda permanece muito pequeno.

“Nosso objetivo com esse levantamento é identificar e informar à sociedade brasileira sobre os casos de discriminação que ocorrem no esporte nacional e, asseverar que os mesmos não acontecem de forma esporádica, que são comuns, que em sua maioria falta punição aos envolvidos, um maior comprometimento das vítimas na cobrança das punições e comprometimento dos clubes, entidades, federações e da sociedade como um todo no combate ao racismo”, alerta o último levantamento do Observatório.

Quando a análise começou a ser feita (veja quadro ao lado), em 2014, foram registrados apenas 20 casos. Desde então, excetuando o ano de 2016, só foi registrado aumento neste número que chegou em 44 no ano passado. Todavia, este ano, antes do último fim de semana, já haviam sido registrados 47 casos. Um triste e lamentável recorde. Que ainda pode ser ampliado. Tomando como base o relatório de 2014 a 2018, seis Estados concentram 72% das ocorrências: Rio Grande do Sul (27), São Paulo (17), Minas Gerais (9), Paraná (8), Santa Catarina (6) e Rio de Janeiro (6). Neste ranking, Pernambuco aparece na 12º colocação com dois casos registrados neste período. Um em 2015, no jogo entre Náutico e Vitória, pela Série B, em que o jogador Rhayner, da equipe baiana, fez gestos obscenos para a torcida alegando ter sido alvo de gestos racistas. Outro no ano seguinte, na partida entre Sport e Náutico, pelo Pernambucano, em que um torcedor alvirrubro foi flagrado fazendo gestos racistas à torcida rubro-negra.

PUNIÇÃO

Um dos grandes obstáculos para se mudar este quadro inegavelmente é a falta de punição. De 2014 a 2018, de acordo com a entidade, foram julgados pela Justiça Desportiva apenas 32 casos. Destes em somente 17 houve punições. No restante houve absolvições. O ambiente de impunidade gerou mais uma vez na última semana novos casos. Os brasileiros Taison e Dentinho, do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, saíram de campo chorando após serem chamados de “macacos” em jogo contra o Dínamo de Kiev. No clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro, dois homens foram flagrados gritando insultos racistas a um segurança do estádio. Um jogador da base do Sport foi xingado numa partida do Sub-20 contra o Barreiros.

“Há um longo caminho a trilhar para que os casos de preconceito e discriminação deixem de existir, afinal eles são reflexos de uma sociedade preconceituosa e racista, sendo os estádios de futebol e a internet apenas mais um palco. No entanto, é importante salientar que os constantes casos de racismo derrubam o antigo mito da democracia racial que durante muitos anos existiu no Brasil e que teve no futebol um falso exemplo de como as diversas raças viviam em harmonia no nosso país. Os inúmeros casos já denunciados nos anos anteriores em nossos relatórios comprovam que essa harmonia não é plena e que no momento de derrota o culpado tem uma cor, seja na seleção, seja nos clubes”, cravou o documento do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, de forma dura e contundente, preto no branco.

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