Investigação

Curto em ar-condicionado causou fogo que destruiu Museu Nacional, diz perícia

A investigação, até o momento, descarta incêndio criminoso

Maria Eduarda Bravo
Maria Eduarda Bravo
Publicado em 23/03/2019 às 8:55
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Laudo pericial produzido pela Polícia Federal aponta que um curto-circuito causado pelo superaquecimento em um aparelho de ar-condicionado foi a causa do incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro. O fogo destruiu a maior parte do acervo de 12 mil itens, incluindo o crânio de Luzia. O fóssil, de 12 mil anos, é um dos mais antigos das Américas e mudou as teorias sobre o povoamento do continente. A investigação, até o momento, descarta incêndio criminoso.

O jornal Estado de S. Paulo teve acesso a trechos do laudo que será um dos elementos que a PF vai levar em consideração para concluir o inquérito aberto sobre o caso. A expectativa é de que o relatório final seja entregue em até duas semanas. Além do laudo, o delegado responsável pela apuração levará em consideração outros tipos de provas colhidas, como depoimentos.

Para investigar os motivos do incêndio, a PF designou peritos de diferentes especialidades, entre eles um especialista em incêndios originários de instalações elétricas, três especialistas em incêndios de grandes proporções, dois peritos treinados para reconstituição em 3D e outros dois profissionais especializados em perícia em "local de crime", treinados para encontrar vestígios.

Os investigadores reconstruíram o local do incêndio em laboratório para interpretar todos os acontecimentos anteriores ao início do fogo e, também, a dinâmica que levou as chamas a destruir todo o prédio.

No caso do museu, ao reconstruir a cena, segundo uma fonte relatou à reportagem, peritos perceberam que um primeiro sinal de fumaça foi visto em uma sala no segundo andar do prédio onde ficava a reprodução do esqueleto do dinossauro Maxakalisaurus topai. A sala onde o esqueleto do réptil era exposto ficava no segundo andar do prédio. Exatamente abaixo dela ficava o auditório onde estava o ar-condicionado apontado pelo laudo como foco do incêndio.

Conclusão

A atuação dos peritos em casos de incêndio em que é aberta uma investigação criminal se baseia no que é estipulado pelo Código de Processo Penal (CPP). De acordo com a legislação, "os peritos verificarão a causa e o lugar em que houver começado, o perigo que dele tiver resultado para a vida ou para o patrimônio alheio, a extensão do dano e o seu valor e as demais circunstâncias que interessarem à elucidação do fato".

Com base nas informações da perícia e nos outros dados coletados ao longo da investigação, o delegado do caso vai decidir se o incêndio poderia ter sido evitado e se há algum responsável pela condições que resultaram no incêndio. Um dos fatos que serão analisados pelo delegado é se houve negligência por parte da administração.

Embora o incêndio não tenha resultado em mortes, os investigadores apuram se o local tinha condições mínimas de segurança, sinalização de rotas de fuga e extintores de incêndio Fontes informaram ao Estado que até o momento os investigadores não encontraram nenhum indício de que o fogo possa ter origem em um ato criminoso.

De acordo com um envolvido no caso, não foram encontrados no local qualquer produto químico que pudesse ter sido utilizado para dar início as chamas que destruíram o prédio.

Relíquias recuperadas

Quando haviam as condições mínimas de segurança para entrar naqueles escombros, os pesquisadores foram direto à sala onde estava a joia do museu: Luzia, um fóssil humano de 12.000 anos, o mais antigo do Brasil, descoberto em 1970 no estado de Minas Gerais por uma missão dirigida pela antropóloga francesa Anette Laming-Emperaire.

Em outubro anunciaram a descoberta de quase todos os fragmentos do crânio e de uma parte do fêmur. Entre as relíquias recuperadas nos últimos meses se encontram também alguns fragmentos do Maxakalisaurus topai, um dinossauro herbívoro de 13 metros de comprimento cujos restos foram descobertos em Minas Gerais.

Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Por sua estrutura física, os meteoritos também sobreviveram, incluindo o Bendegó, um maciço de ferro e níquel de cinco toneladas encontrado no estado da Bahia em 1784. "Os meteoritos são estruturas que vêm do espaço enfrentando temperaturas muito mais altas do que qualquer incêndio aqui pode atingir", explica o paleontologista Sérgio Azevedo. 

Situado no hall principal, o meteorito Bendegó era a primeira peça que os visitantes encontravam, e foi colocado no mesmo lugar, imponente, rodeado de andaimes. 

"Se tornou uma espécie de símbolo da resistência porque está nessa posição, testemunha todo o trabalho que está sendo feito para que a gente possa trazer de volta o museu", explica Azevedo, que também mudou sua rotina e hoje se dedica quase exclusivamente à reconstrução do Museu. 

"Todos desenvolvemos múltiplas funções, como a retirada de escombros, de materiais, tratamento desse material, para que no futuro nós e outros pesquisadores possamos retomar as pesquisas" interrompidas pela tragédia, explica. 

Kellner se alegra ao anunciar que o local poderá organizar "em breve" uma mostra com os principais objetos recuperados, graças ao trabalho destes "verdadeiros heróis que estão resgatando a memória de nosso país". "O Museu Nacional vive", indica um broche em sua camisa, parte de uma campanha para anunciar a reconstrução do Museu e arrecadar fundos. Mas Azevedo tem consciência de que o incêndio, cujas causas ainda estão sendo investigadas, deixou "perdas incalculáveis". 

"A maior perda foi o Museu Nacional, o acervo disponível para a população brasileira e para pesquisadores do mundo inteiro", lamenta. "Quando se perde uma parte ou se alteram as condições de uma coleção desta importância, se produz uma perda incalculável. O que estamos fazendo é tentar transformar essa perda em um novo objeto de estudo", aponta. 

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