LAVA JATO

Deltan usou Vem pra Rua e Mude para pressionar STF, mostram mensagens

Diálogos atribuídos a Dallagnol sugerem que ele influenciou a escolha do novo relator da Lava Jato após a morte de Teori Zavascki

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 12/08/2019 às 8:11
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Foto: Arquivo/José Cruz/Agência Brasil
Diálogos atribuídos a Dallagnol sugerem que ele influenciou a escolha do novo relator da Lava Jato após a morte de Teori Zavascki - Foto: Arquivo/José Cruz/Agência Brasil
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Novos diálogos foram divulgados na madrugada desta segunda-feira (12) pelo site The Intercept Brasil e sugerem que Deltan Dallagnol, procurador e coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, buscou incentivar manifestações populares favoráveis às causas defendidas por ele e pela Operação com o intuito de influenciar a escolha do novo relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) após a morte de Teori Zavascki, em 2017.

No dia seguinte ao falecimento de Teori diálogos entre Dallagnol e lideranças dos grupos Vem pra Rua e do Instituto Mude - Chega de Corrupção, foram revelados pelo site. Apesar das negociações, Dallagnol sempre tomou cuidado para não ser vinculado aos movimentos.

O que é o Vem pra Rua?

Movimento fundado em 2014, o Vem pra Rua é um grupo ligado aos movimentos de direita que possui uma página com mais de dois milhões de seguidores no Facebook. Foi um dos principais propulsores de organizações populares pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff. O líder do grupo é Rogerio Chequer, candidato a governador em 2018 pelo partido Novo.

O que é o Instituto Mude?

O Instituto Mude foi criado por Fabio Alex Oliveira com o intuito de coletar assinaturas a favor das dez medidas contra a corrupção, alterações legislativas que era um desejo de Dallagnol. De acordo com o Intercept, ele atuou como diretor informal do movimento.

Como os grupos atuaram juntos a Deltan?

Mensagens atribuídas a Deltan mostram que, após a derrota na votação das dez medidas na Câmara, ele atuou orientando os grupos a rejeitarem os nomes de Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e do atual presidente da Corte, Dias Toffoli, para a relatoria das ações da operação. Além disso, o procurador teria articulado ações com o intuito de constranger ou pressionar os ministros nos julgamentos que discutiriam a prisão em segunda instância.

“De início, agradeci o apio [apoio] do movimento etc. Falei que não posso posicionar a FT [força-tarefa] publicamente, mesmo em off, quanto a Ministros que seriam bons, pq podemos queimar em vez de ajudar”, contou Dallagnol. 

“Falei os 4 que seriam ruins, “que Toff [Dias Toffoli], Lewa [Ricardo Lewandowski], Gilm [Gilmar Mendes] e Marco Aur [Marco Aurélio Mello]”, escreveu para Oliveira, lider do Mude, no dia seguinte à morte de Zavascki.

Prisão em segunda instância

Dallagnol falou para a procuradora Thaméa Danelon, integrante da Lava Jato em São Paulo, sobre a necessidade em pressionar o ministro Alexandre de Moares, recém escolhido para o STF, para que ele mudasse de opinião com relação à prisão em segunda instância.

“Temos que reunir infos de que no passado apoiava a execução após julgamento de SEGUNDO grau e passar pros movimentos baterem nisso muito", diz Deltan.

“Ok. Eu posso passar para os movimento. Para o Vem pra Rua e Nas Ruas", respondeu Danelon.

Em outro diálogo, o procurador pediu para a Thaméa estimular que os grupos divulgassem em suas redes o apoio ao pacote de alterações legislativas 10 medidas contra a corrupção: 

“Se Vc topar, vou te pedir pra ser laranja em outra coisa que estou articulando kkkk. Um abaixo assinado da população, mas isso tb nao pode sair de nós… o Observatório vai fazer. Mas não comenta com ng, mesmo depois. Tenho que ficar na sombra e aderir lá pelo segundo dia. No primeiro, ia pedir pra Vc divulgar nos grupos. Daí o pessoal automaticamente vai postar etc" 

O pacote de medidas foi posteriormente aprovado pelo Congresso com alterações em pontos que foram considerados autoritários.

Resposta

A assessoria de imprensa do Ministério Público Federal do Paraná informou, em resposta ao Intercept, que "é lícito aos procuradores da República interagir com entidades e movimentos da sociedade civil e estimular a causa de combate à corrupção". Apesar da resposta, o órgão voltou a dizer que "não reconhece as mensagens que têm sido atribuídas a seus integrantes nas últimas semanas".

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