Cena Política | Análise

Igor Maciel: Não terá "bom dia, presidente". Bolsonaro com o PL é diferente de Lula com o PT

É preciso um certo nível de tolice para uma instituição definhar em nome de um indivíduo. Isso só acontece, se um depender do outro pra sobreviver.

Por Igor Maciel Publicado em 27/02/2025 às 20:00 | Atualizado em 28/02/2025 às 6:37

A figura política de Lula (PT) sobreviveu aos quase 600 dias de prisão, para poder ser reabilitada no contexto eleitoral seguinte, por causa do PT. É possível culpar o Partido dos Trabalhadores pela carne e pelo osso da História nos últimos anos, mas é necessário reconhecer que a sigla se fundiu a Lula de uma forma que, mesmo encarcerado, o líder continuou livre na rua ao lado, acampado.

A confusão entre Lula e o próprio partido é tamanha que ao pensar nas pessoas que ficaram acampadas em Curitiba, ao lado da carceragem da Polícia Federal, é possível dizer que eram os lulas de fora que davam “bom dia, boa tarde e boa noite” ao Lula de dentro. Não existe outra relação simbiótica como essa na política brasileira.

Nem Bolsonaro consegue chegar perto com o PL.

Natureza

Com isso ninguém está aqui dizendo que a relação PT/Lula é algo positivo. Esse personalismo desesperado entre o ser e a coisa, entre homem e instituição, integra a base primitiva do patrimonialismo que promove corrupção.

Por pensar que se é a coisa, toma-se a coisa para ser. E isso se amplia para a gestão pública depois. É antirrepublicano. Mas isso é outro assunto.

Bom ou mau, o fato é que o PT serviu para manter Lula “livre” enquanto ele estava preso. Com Bolsonaro isso não vai acontecer. Não é por covardia nem maldade, é pelo curso da natureza do PL e do próprio ex-presidente.

Relação

Enquanto Lula passou a vida inteira no mesmo partido, cultivando uma relação orgânica rara para os padrões brasileiros, Bolsonaro está em sua décima legenda. Nunca criou grande vínculo com nenhuma sigla.

Enquanto o PT completou 45 anos recentemente, o PL está para chegar aos 20 anos ainda e nesse período já foi base de Lula, Dilma (PT) e Temer (MDB), antes de se tornar o décimo partido de Bolsonaro.

Solidez e organicidade é algo que Valdemar Costa Neto até tentou buscar nos últimos anos, mas os prejuízos tendem a ser maiores que os lucros daqui pra frente.

Boa noite

É preciso um certo nível de tolice para uma instituição definhar em nome de um indivíduo. Isso só acontece, e só faz sentido, se a própria sobrevivência da instituição estiver conectada à sobrevivência do sujeito. É o caso de Lula e do PT. Um sem o outro, é falência total.

Mas o PL não depende de Bolsonaro para sobreviver. Por isso, dificilmente haverá acampamento na parte externa do local em que Bolsonaro ficará preso, se vier a ser condenado. Não haverá, muito menos, “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite, presidente”.

Novos ares

Novas lideranças da direita estão surgindo e poderão ocupar o espaço eleitoral. Hoje, o bolsonarismo ainda consegue interditar o crescimento de novos nomes no cenário. Se o líder estiver preso, não haverá como segurar a ascensão de tarcísios ou nikolas.

Dos filhos, o único pragmático e que costuma agir com inteligência é Flávio Bolsonaro. Ele deve sobreviver politicamente. Os outros tendem a submergir no médio e no longo prazo, pela insistência cada vez mais solitária que irão exercer na ideia de manter a liderança do pai.

Voto

Tudo isso pode parecer apenas algo possível ou até um grande absurdo para alguns, vendo o cenário de hoje. Mas em Pernambuco um movimento interessante já ocorreu.

Trata-se de um vídeo gravado por Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, afirmando que a liderança do processo eleitoral de 2026 em Pernambuco será do atual presidente estadual da sigla, Anderson Ferreira (PL).

Em certo ponto ele anuncia que o critério para essa decisão é “quem tem voto e pode fazer o partido crescer”, a referência pode ser a um comentário que se faz nos bastidores, sobre Anderson ter os “votos” e Gilson Machado (PL) fazer “barulho”.

Mas é, principalmente, um apontamento de Valdemar na direção do pragmatismo e da política tradicional. Segue à direita, segue conservador, até segue apoiando Bolsonaro, mas tem que ser objetivo, com menos personalismo histriônico e mais resultados práticos.

Confira o podcast Cena Política

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