Cena Política | Análise

Igor Maciel: Ao fugir dos extremos Brasil precisa ir para o centro ou sofrerá com os loucos

Quando os ditos equilibrados não são opção, quando as paixões políticas de polo a polo também não instigam maioria, sobram os loucos. Aí é tragédia.

Por Igor Maciel Publicado em 19/03/2025 às 20:00 | Atualizado em 20/03/2025 às 7:00

O genial Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, dizia que “toda estatística, se for bem torturada, confessa qualquer coisa”.

Talvez seja por isso que os números do governo Lula (PT) são defendidos pelos petistas, combatidos pelos bolsonaristas e assustadores para os economistas.

Mas nem isso sensibilizou a gestão nos primeiros dois anos. O governo só começou a se preocupar de verdade com a economia quando os números, já fatigados das estripulias a que foram submetidos, começaram a tossir seu cansaço em cima de quem não é nem petista, nem bolsonarista e nem economista. Foi em seu José.

O problema

Foi quando seu José, dócil pagador dos impostos que sustentam os voluntariosos governos desse país, chegou para fazer a feira do mês e percebeu que o salário não estava dando pra fechar a conta no caixa. Foi aí que o centrão ganhou mais força.

É que o centrão não olha para os números como uma vítima ou como aliado, olha para eles como oportunidade, independente de sua condição física.

Tem outra frase famosa de Delfim que se encaixa com o momento de oportunidade política vivido pelo centrão. Dizia o mestre: “O problema do Brasil é que ainda não se descobriu qual é o problema do Brasil”.

Onda

É nesse vácuo que o centrão trabalha e o faz muito bem. Pior para quem fica discutindo “ideologices”, reclamando de “perseguição das instituições” ou de falta de boa vontade com o “bom trabalho do governo”.

O próximo presidente, por essas e outras, tende a vir mais do centro ou, o mais provável, teremos os extremos convergindo seu discurso, sincero ou não, para um “equilíbrio responsável e mais central”.

Se nada disso acontecer, aí sim teremos uma tragédia a caminho. Quando os ditos equilibrados não são opção, quando as paixões políticas de polo a polo também não são, sobram os loucos, outsiders, raivosos vingadores de suas insignificâncias para o Sistema tradicional, prometendo virar tudo de cabeça para baixo. Nas crises, eles crescem. E são um perigo.

Em 2026, é possível que a onda eleitoral passe por não ser de esquerda e nem de direita. A opção pode ser o centro equilibrado ou a maluquice.

Se um maluco surgir, com a insatisfação popular em alta, Deus nos ajude.

Sobre a Quaest

Essa migração do governo Lula, do “está tudo bem” para “o que faremos pela sobrevivência” foi um movimento injusto com uma figura chave da economia brasileira atualmente, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). Mas o próprio Haddad também é culpado de sua desgraça.

A última pesquisa Quaest, que entrevistou agentes do mercado financeiro, demonstrou essa situação. Não que a avaliação negativa dele seja irreal, mas a posição do governo, que o colocou nessa situação, é quase criminosa. A passividade do ministro, beira a covardia. Os dois lados são culpados, exatamente porque insistiram em ficar de um lado só.

Se Haddad tivesse pulso, pediria demissão. Mas, a verdade é que se ele tivesse pulso, não teríamos chegado a este ponto. E agora ficou tarde.

Pelo voto

O governo estava indo pelo caminho errado, da irresponsabilidade fiscal, do gasto excessivo sem qualquer tipo de visão futura para câmbio e inflação, na ânsia de crescer rápido, aquecer a economia e mostrar o quanto “Lula é diferente de Bolsonaro”.

Enquanto isso, uma das poucas vozes a pedir moderação e fazer as contas direito era Haddad. Mas Lula o ignorou e/ou permitiu que ele fosse defenestrado pelos petistas várias vezes, acreditando que dar voos de galinha era mais efetivo para suas ambições eleitorais do que agir com responsabilidade.

Haddad ficou calado, não reagiu.

Pela vida

Quando a realidade bateu à porta, com um mau resultado nas eleições e também na economia, com a popularidade do governo indo ao chão, Lula decidiu correr atrás do prejuízo.

Por mais que publicamente Lula e Gleisi fiquem se debatendo, não há como negar a necessidade de ser mais responsável com as contas. E aí, o PT fez o que faz de melhor quando o barco começa a afundar: finge que nunca esteve a bordo.

Poderiam ter simplesmente reconhecido os avisos de Haddad dando a ele, agora ao menos, o leme do barco para tentar salvá-lo. Ao contrário, fingem que ele nunca existiu e nunca falou nada.

Haddad poderia gritar, agora, um "eu avisei" gigante. Mas ficou calado.

Injusto, mas compreensível

Resultado é que os agentes financeiros que antes apoiavam o ministro pela tentativa tímida dele de defender o certo, percebem que o governo não mudou de opinião por causa de Haddad, e só está tomando alguma medida por absoluta necessidade de sobrevivência.

Percebeu-se, agora mais claramente, que Haddad é um sujeito cheio de boas intenções, mas amarrado demais às cordas manipuladoras de um partido e do próprio chefe, o presidente.

Haddad é o ministro, o ministro sempre quis resolver, mas se a chefia não leva ele a sério e ele não se rebela, por que alguém vai perder tempo com ele?

E assim, a desaprovação de Haddad no mercado financeiro, seu público prioritário, foi de 24% para 58% em dois meses. A culpa é de Lula, do PT, mas é do ministro também. Deus o ajude.

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