COLUNA ENEM E EDUCAÇÃO

Famílias preocupadas com aulas remotas para turmas de alfabetização

Pais de crianças que estão sendo alfabetizadas temem que processo de aquisição da leitura e da escrita seja prejudicado durante o período de aulas virtuais. Em Pernambuco, aulas presenciais estão suspensas até 31 de maio

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 01/05/2020 às 14:16
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YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
Crislane acredita que aulas em formato digital não vão atrair a atenção da filha Maria Helena - FOTO: YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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Em meio às dúvidas sobre a possibilidade de aprender com atividades remotas – durante a suspensão das aulas presenciais por causa da pandemia do novo coronavírus – pais de crianças que estão em processo de alfabetização integram um dos grupos mais preocupados. As famílias temem que leitura e escrita sejam prejudicadas com o distanciamento físico dos alunos. Na rede privada de ensino de Pernambuco, as aulas a distância começam segunda-feira (01). A Associação Brasileira de Alfabetização (Abalf), entidade formada por professores de universidades públicas, é contrária ao ensino remoto para essa etapa da educação básica.

“Acho esse formato para as crianças do 1º ano ruim. Será difícil um aluno nessa faixa etária assistir às aulas concentrado na frente de um computador. Além disso, os pais terão que supervisionar. Muitos, como eu, estão trabalhando em casa. Sei que é a única opção no momento, mas receio que não tenham maturidade”, diz a servidora pública Luciana Machado, 43 anos, mãe de Cecília, 6, aluna do 1º ano do Colégio Damas, no bairro das Graças, Zona Norte do Recife.

Professor do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da Abalf, Artur Morais é contra o ensino exclusivamente remoto em todos os níveis, da pré-escola à universidade. “Porque ele tende a ser bem transmissivo, um ensino em que todos os alunos são tratados de forma padronizada. O estudante tende a assumir a posição passiva de receptor de informações e de repetidor de respostas cobradas por exercícios pouco criativos”, destaca Artur Morais.

“No caso da alfabetização, a questão se agrava, porque muitos aprendizes, a esta altura do ano letivo, não têm ainda autonomia para ler e escrever e a heterogeneidade das turmas exige um ensino minimamente ajustado às necessidades de cada aluno, algo que os materiais de ensino remoto disponíveis e os professores e suas condições de trabalho não permitem realizar”, observa Artur Morais.

Em nota pública a Abalf destaca que “Alfabetizar exige afetividade, interação entre pares, jogos, brincadeiras, leituras, conversas, dramatizações, registros diversos, livros e outros materiais, portanto, como garantir que essas atividades ocorram de modo à distância?", afirma a entidade.

E continua: "Muitas dessas atividades, associadas às interações entre as crianças e entre as crianças e os professores, requerem a observação, participação comple-mentação e intervenção dos professores, para se garantir e ampliar o processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, a aula remota é um padrão que não permite este gerenciamento pedagógico e essa observação fundamental para se avançar no processo de alfabetização”.

ETAPA

Também preocupado com a filha caçula, o professor universitário Antonio Nunes resolveu estudar para ajudar a pequena Maria Antonia, 6, nessa etapa vivenciada na quarentena. À noite, depois do home office e quando a menina e a irmã dormem, ele faz um curso online oferecido pelo Ministério da Educação para alfabetizadores.

“Estou buscando entender como se dá o processo de alfabetização para ter a mínima competência e ajudar Maria, pois a alfabetização é uma época extremamente importante para a criança”, comenta. A filha é aluna do 1º ano do Colégio Fazer Crescer, no bairro do Rosarinho, Zona Norte do Recife.

Em Pernambuco, as aulas presenciais em escolas, faculdades e universidades estão suspensas por decreto estadual até 31 de maio. As atividades foram suspensas desde 18 de março por causa do novo coronavírus. Entre 1º e 30 de abril alunos e docentes de colégios da rede privada estavam de férias. O período de descanso de julho foi antecipado para abril.

EDUCAÇÃO INFANTIL

A apreensão sobre a funcionalidade das atividades virtuais ocorre também com pais de alunos da educação infantil. A autônoma Crislane Santos, 26, acredita que a filha Maria Helena, 4, não vai aproveitar essa época. “Ela não para na frente de um computador. Pelo celular só quer assistir desenho. Outro agravante é que não temos impressora e algumas atividades são para pintar”, afirma.

Com dificuldade para pagar a mensalidade, ela cogita tirar a menina do colégio. “Só deram 10% de desconto. Estou pensando em matriculá-la só depois da pandemia”, diz. Helena estuda na Escola Silva Oliveira, no Morro da Conceição, Zona Norte do Recife.

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