Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

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Por Fernando Castilho
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Veto à Sputnik V pela Anvisa trava negócio de R$ 4 bilhões com vacinas da Rússia por farmacêutica brasileira

A União Química afirma que Fundo Russo teria realizado a transferência de tecnologia antes do Butantan e da Fiocruz, que hoje envasam as vacinas da Sinovac e AstraZeneca

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 28/04/2021 às 6:00
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SAID KHATIB / AFP
IMUNIZANTE De acordo com a Anvisa, lotes testados carregavam um versão ativa do vírus causador de resfriados - FOTO: SAID KHATIB / AFP
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No último dia 19 de fevereiro, uma edição extra do Diário Oficial da União publicou a dispensa de licitação para a compra de um lote de 10 milhões de vacinas Sputnik, ao custo de R$ 696,3 milhões. Isso quer dizer que a União está disposta a pagar R$ 69,63 por cada uma das vacinas vendidas no Brasil pela farmacêutica União Química.

Não é uma vacina barata. Mas ainda assim menor que os R$ 80,70 pagos por cada uma das 20 milhões de doses da Covaxin, da Índia, que, devido às dificuldades atuais, dificilmente chegarão ao Brasil. Apesar disto, existe reservado R$ 1,614 bilhão pelo governo.

O embate, portanto, se refere a um meganegócio estimado em, ao menos, R$ 4,16 bilhões que a decisão da Anvisa travou, apenas do pacote de 60 milhões de doses que União e Estados estão dispostos a pagar. Ainda não se sabe como os estados vão arranjar tanto dinheiro (R$ 2,53 bilhões), mas a tentativa de politizar a questão - como fizeram os governadores - só faz desgastar suas imagens.

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O que os governadores não perceberam é que o resultado da Anvisa foi tomado a partir de informações fornecidas pelo desenvolvedor da Sputnik V, o Instituo Gamaleya, de Moscou. Portanto, a Anvisa trabalhou com os dados fornecidos pelos próprios russos.

Os governadores também precisam ter cuidado com os 62 clientes que até agora compraram a vacina russa. A lista fora da Argentina e México inclui Venezuela, Quênia, Quirguistão, San Marino, Honduras, Gabão, Síria e Sri Lanka, que não são boas referências de controle de qualidade nas suas agências de controle. E não inclui nenhum país que tem agência referenciada, como a FDA americana, ou do Reino Unido ou União Europeia.

Isso quer dizer que quando os governadores, por questões políticas, estão questionando a Anvisa, estão indo contra as melhores práticas de fiscalização e segurança.

Mas analisando-se apenas pelo aspecto econômico do negócio, a decisão da Anvisa pode desmontar todo um projeto tanto da União Química como do Fundo Russo de Investimentos Diretos (FRID), que é o dono dos direitos da vacina Sputnik V.

A farmacêutica brasileira apostou alto nessa venda. Ela informa que o Gamaleya já repassou para ela a tecnologia não apenas da vacina, mas do próprio IFA.

A empresa apresentou aos governadores, quando da venda dos lotes de 37 milhões de unidades, o primeiro lote de IFA que teria produzido em sua unidade em Brasília, que estava enviando à Rússia para validação.

Se isso for verdade, a União Química já estaria dominando uma técnica de produção de IFA que nem mesmo o Butantan e nem a Fiocruz dominam com as vacinas chinesas Sinovac e AstraZeneca.

O Fundo Russo teria então já realizado a transferência de tecnologia para a União Química em menos de seis meses após ter concluído suas pesquisas em Moscou.

Curiosamente, o mesmo instituto que já teria transferido a tecnologia ao Brasil não forneceu os documentos básicos à agência brasileira de regulação.

É uma situação que deixa fragilizado o argumento dos governadores que fizeram a forçar a sua aprovação, mesmo sem as informações básicas.

A importância do Brasil para a estratégia da Rússia para ter a Sputnik V na América do Sul pode ser avaliada pelo destaque que o CEO do Fundo Russo de Investimentos Diretos (FRID), Kirill Dmitriev, conferiu ao anunciar, em Moscou, parceria com a brasileira União Química para fornecer 150 milhões de doses de sua vacina ao Brasil neste ano.

Dmitriev acertou com o presidente da empresa, Fernando de Castro Marques, o envio de 10 milhões da vacina antes que o princípio ativo da vacina comece a ser produzido na unidade da União Química, em Brasília, e o fracionamento da vacina será feito numa unidade de Guarulhos, graças à transferência tecnológica, garantida pelo FRID e o Instituto Gamaleya.

Na semana passada, os russos direcionaram a visita de inspeção dos três funcionários da área de segurança médica da instituição brasileira para a cidade de Ufa, onde está a mais sofisticada planta da gigante russa farmacêutica Generium.

Estranhamente, o governo russo não enviou a equipe da Anvisa para as plantas do grupo Alium Sistema, que é dono da Binnopham, outra companhia do Fundo de Investimento Direto Russo e que fabrica a Sputnik V em Zilenograd, vizinha a Moscou.

Essa companhia é dona de um complexo de produção que produz medicamentos para a maioria das multinacionais do setor, e que também passou a produzir a principal vacina russa.

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