ANIMAIS

A polêmica por trás da raça pitbull: mocinhos ou vilões?

Casos de violência de cachorros da raça em Petrolina ganharam a mídia em um intervalo de duas semanas. O que levanta a dúvida; eles são, ou se tornam agressivos?

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 28/07/2021 às 17:01
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Especialistas defendem que agressividade pode acometer pitbulls a depender da criação que lhes for dada - FOTO: PIXABAY
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Atualizada no dia 30 de julho

Diariamente, são veiculadas notícias em que pitbulls protagonizam atos de violência contra outros animais ou até mesmo pessoas. Ao mesmo tempo, a internet também é repleta de vídeos em que cachorros da raça são, por exemplo, extremamente carinhosos e criados junto a crianças, o que levanta as dúvidas: afinal, pitbulls são ‘mocinhos’ ou ‘vilões’?

Em um intervalo de duas semanas, dois casos ficaram conhecidos em Petrolina, no Sertão de Pernambuco - em um, uma mulher teve o couro cabeludo arrancado por um pit enquanto defendia a cadela de um ataque; e, no segundo, que aconteceu na tarde dessa terça-feira (27), dois cães foram mortos protegendo a casa invadida por um cachorro do vizinho. No Recife, a TV Jornal também noticiou que um pit machucou outro cachorro na UR-07 Várzea nessa quinta (29).

Abalado, o pai da família, o empresário Reginaldo Cariri Lopes, já via que o pitbull tinha um comportamento agressivo, e que era criado dentro de uma casa com um muro baixo. “Temos que sensibilizar o pessoal que esses cachorros são perigosos e matam. Gosto de animais, mas alguns não dá para ter convívio com o ser humano”, defendeu ele.

À coluna Meu Pet, diversos veterinários e especialistas ouvidos pela reportagem afirmaram que a raça não é naturalmente agressiva em relação a outras, mas que, na verdade, é carinhosa, leal e inteligente; e que, por gostar de crianças, torna-se até um “cachorro-babá” em muitos países. Entretanto, o processo de criação é o grande culpado por tornar a violência um traço na personalidade de qualquer cão - só que, uma vez que a agressividade é desenvolvida em um pit, ele é capaz de provocar ataques com vítimas fatais, por serem extremamente fortes.

“Ele é um animal forte, mas não é agressivo, é manso; tanto que não é um cachorro de guarda. Quando ataca, é porque existiu algum gatilho ou porque desenvolveu transtornos que não são inerentes à raça e que qualquer animal teria, dependendo da criação”, disse a médica veterinária Cristiane Aguiar. “Os pitbulls têm uma mordida muito forte, [com impacto] que pode chegar até uma tonelada, por isso os ataques são noticiados, e as pessoas entram em pânico e passam a ter horror da raça”, completou.

“Esses ataques poderiam ter vindo de um vira-lata, de um golden, de um labrador ou de um shih-tzu, o que muda é o estrago que é feito, porque a mordida de um cão de raça pequena seria imperceptível. O tutor tem que saber o potencial e o temperamento do cachorro e os ambientes em que ele vai”, defende a adestradora Crislane Santos.

A opinião é compartilhada pela também veterinária e criadora de quatro pitbulls há oito anos, Manuela Marques. “Quem vai decidir como o cachorro vai ser é o dono. Pitbulls são extremamente fortes, ágeis e, quando criados da maneira errada, vão dar problema”, afirmou. Os pits de Manuela convivem junto aos seus filhos, duas crianças, e nunca demonstraram um comportamento agressivo, segundo ela. Como veterinária, já atendeu a diversos tipos de raça, e a que a atacou de forma mais séria foi uma pinscher. “Ela estraçalhou minha mão e quase perdi o movimento dela, mas isso nunca vai ser noticiado, por ser um cachorro pequeno”, disse.

A veterinária comportamental Aina Bosch explicou que, culturalmente, é comum que as pessoas criem pitbulls justamente para se tornarem cachorros de briga, ou cão de guarda, sem ter cuidado em sua socialização, mas que não são identificados problemas congênitos na raça. “Fica o estigma na raça porque as pessoas pegaram essa raça com a intenção de torná-los ‘mini-monstros’, colocando-os para brigar, sem um manejo seguro."

Tutora da pitbull Brisa, a croupier de poker Thais da Fonte, de 28 anos, sente o preconceito contra a cadela durante os passeios nas ruas. “Costumo sair com ela à noite por ter menos movimento, e vejo que as pessoas atravessam com medo dela. Já fui criticada, inclusive, por ela não estar de focinheira". No entanto, ela revelou que a pet é tão dócil que até mesmo ajudou no desenvolvimento do filho mais velho, de 6 anos, que é diagnosticado com autismo. “Ele começou a construir frases baseadas em coisas que ela fazia, o que ele não fazia antes. Por causa dela, agora ele tem uma interação muito boa com pessoas e animais, sabe brincar, tem paciência e aprendeu a como respeitar o espaço dela”, narrou.

CORTESIA/FAMÍLIA
Brisa, de 2 anos, com os irmãos, de 6 e um ano - CORTESIA/FAMÍLIA

A psicóloga Bruna Santos, de 24 anos, explicou ter medo de pitbulls, mas que não queria ter, porque "é um cachorro como qualquer outro, mas com um pouco mais de agressividade no comportamento. Acabou que, atualmente, virou uma mistificação de que todos são extremamente agressivos e de que podem até matar um."

Ainda que o pit tenha crescido em um ambiente ou sob estímulos que o tornaram mais violento, ainda é possível mudar o quadro, segundo a veterinária Cristiane. “O comportamento pode ser revertido, não é necessário eutanasiar o animal por isso. Ele deve passar alguns dias em observação, deve ser levado para um adestramento e fazer avaliações com uma veterinária que trabalhe com comportamento animal para entender por que ele está agredindo.”

A veterinária Aina defende que filhotes de cachorros de quaisquer raças devem passar por um "adestramento positivo e de qualidade". "A agressividade é um comportamento natural, presente em todas as espécies, assim como o medo. A gente pode estimulá-la, ou não. Se ele for bem orientado no processo de educação, essa possibilidade é bem pequena. Aqui no Brasil temos muito amor, mas pouco investimento em educação. As pessoas não têm a cultura de investir em um processo de educação em um filhote", concluiu.

O que diz a legislação

Segundo a advogada e professora de direito civil Andrea Borba, o dono do animal pode responder na esfera civil caso um pitbull machuque outro animal, e criminalmente caso atinja uma pessoa. Já o crime de maus tratos não cabe caso o cão atinja outro cachorro, porque ele só é admitido se for doloso - quando há intenção de comete-lo.

"A ideia da reparação civil diz respeito aos danos que a vítima sofreu, não só pelo ponto de vista material - porque legalmente o animal é tratado como objeto - mas também por danos morais, porque também temos ligação afetiva com ele. Do ponto de vista criminal, se os animais atacarem a dona, ou alguma pessoa, o dono pode responder pela lesão corporal até mesmo de maneira dolosa, se ele deixou um animal que tem histórico de agressividade solto, por exemplo.”

A Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) promulgou, em 2003, uma lei que estabelece os critérios para a criação, venda ou qualquer outra transação que envolva cachorros das raças Pitbull e Rottweiler. O decreto prevê que os cães dessas raças precisam ser alojados em canil com grade de ferro, item de segurança que auxilia na prevenção de acidentes. Os animais também precisam estar sempre com coleira de identificação, onde deve constar o nome e número de registro do cachorro.

A psicóloga Jullia Caldas, de 24 anos, que admite ter medo dos animais da raça, concorda com a medida. "Obviamente tenho pelo por conta das histórias de ataques. Acho que, na rua, eles deveriam estar pelo menos de fucinheira, assim como qualquer cachorro de grande porte ou que apresente comportamento agressivo", disse.

Assim, ambas as raças só podem circular em locais públicos acompanhados de pessoas com mais de 18 anos. Durante o passeio, os cachorros precisam utilizar equipamentos de contenção, como guias curtas, coleiras com enforcadores e focinheiras. Se o tutor não seguir as regras, o animal pode ser apreendido e encaminhado aos canis municipais.

Se em até 45 dias o motivo que causou a apreensão do animal não for solucionado, o cachorro é encaminhado ao canil da Polícia Militar do Estado de Pernambuco ou local similar. O tutor também poderá responder civil e criminalmente pelo descumprimento da lei.

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Brisa, de 2 anos, com os irmãos, de 6 e um ano - FOTO:CORTESIA/FAMÍLIA

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