CICLOMOBILIDADE

Um ousado plano para a bicicleta no Recife

Ciclistas propõem a implantação de 87,2 km de estrutura cicloviária na cidade por R$ 4 milhões como opção de mobilidade para a população durante e no pós-pandemia

Publicado em 06/07/2020 às 8:34
Notícia
BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
A fuga para o transporte individual é certa no pós-pandemia. Por isso, o mundo tem o desafio de desestimular a volta em massa para o carro, sob pena de sufocar as cidades. - FOTO: BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
Leitura:

A experiência mundial já mostrou que o pós-pandemia será uma fase extremamente individualista para a mobilidade urbana. Ainda mais do que já o era, com a soberania do automóvel. A fuga para o transporte individual é certa. Por isso, o mundo tem o desafio de desestimular a volta em massa para o carro, sob pena de sufocar as cidades. Pensando assim, muitos países - especialmente na Europa, mas também os EUA - começaram a efetivar planos de valorização do transporte ativo - o pedalar e o caminhar. E o Recife poderia ser uma dessas cidades. Poderia, ao custo máximo de R$ 4 milhões, implantar rapidamente e sem muitas dificuldades quase 90 km de estrutura cicloviária na cidade, não só em vias calmas, mas nas grandes avenidas. E poderia, como consequência, beneficiar 600 mil pessoas diretamente - o equivalente a 39% da população recifense. Além de fortalecer a imagem de gestão sustentável tão importante no próximo “novo normal”.

Confira a série O FUTURO DO TRANSPORTE PÚBLICO NO PÓS-PANDEMIA

Essas metas fazem parte da plano emergencial para implantação de estrutura cicloviária no Recife, uma ousada proposta da Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) para que a prefeitura eleja, na prática e gastando pouco, a bicicleta na cidade. A proposta é dividida em quatro fases. A primeira e mais urgente é a consolidação das rotas móveis criadas aos domingos e feriados nacionais. Seria o start do processo e iria acostumando a cidade à presença da bicicleta além do lazer. Essa consolidação de duas das três rotas móveis totalizaria 14 km de estruturas.

“Isso seria para ontem. O mais urgente.E já teria um impacto muito positivo na população. Sem falar que é relativamente fácil porque a sinalização das rotas já existe nas vias. Muitos motoristas já as respeitam. Precisamos dar opção de deslocamento para a sociedade, que não quer utilizar o transporte público por medo de contaminação, mas também não quer depender do automóvel”, defende Vanessa Santana, da coordenação da Ameciclo. A consolidação dos eixos das Ciclofaixas de Turismo e Lazer exigiria apenas a conexão das rotas por algumas novas vias, regulamentação e de segregação mais acentuada para impedir a invasão por veículos motorizados. E representaria um investimento de, no máximo, R$ 686 mil.

KLEBER MELO/ARTES JC
Etapas da priorização da bicicleta - KLEBER MELO/ARTES JC


ESTRUTURA NOS CORREDORES

A proposta da Ameciclo vai mais além. Os ciclistas sugerem - no que definem de fase dois e três - a criação de infraestrutura em corredores estruturais do Recife, abrindo caminho, de vez, para a presença da bicicleta como veículo de transporte na capital. E, não mais, como uma opção para circular em vias onde o tráfego é relativamente calmo. Seriam quase 50 km implantados em dez importantes avenidas da cidade que concentram um alto índice de atropelamentos e colisões. É o caso da Avenida Agamenon Magalhães, Avenida Norte, Avenida Mascarenhas de Moraes e a Avenida Caxangá. Essas seriam os quatro primeiros corredores. Além delas, as Avenidas Recife, Beberibe, Abdias de Carvalho, Dois Rios, Visconde de Albuquerque e Estrada Velha de Água Fria. Essa etapa poderia ser implantada por menos de R$ 2,5 milhões. Isso seguindo os cálculos da Ameciclo e usando como parâmetro o valor de R$ 29 mil o quilômetro de ciclovia.

“A bicicleta é saudável, é rápida, é barata e, no pós-pandemia, é uma opção para a sociedade não voltar para o automóvel. As duas pesquisas O Perfil do Ciclista (2015 e 2018) apontaram que aproximadamente 50% das pessoas ouvidas pedalariam mais se houvesse infraestrutura que oferecesse segurança no trânsito. É isso que precisamos. Principalmente agora no pós-pandemia”, reforça Vanessa Santana.

A Ameciclo tem consciência de que a segunda etapa é a mais importante e também a mais difícil por exigir a intervenção da gestão municipal em corredores viários estruturadores da cidade. Concentra quatro das cinco vias mais violentas do trânsito recifense. “Juntas, as avenidas Agamenon Magalhães, Norte, Mascarenhas de Moraes e Caxangá somam 7.023 colisões e atropelamentos em cinco anos, ou seja, quase quatro por dia. Isso já justificaria a implantação de estruturas para garantir a segurança de toda a população. Além disso, são eixos principais da cidade, conectadas com grandes bolsões populacionais e grandes áreas de emprego e demanda de transporte público. São 30 faixas de rolamento, nenhuma ciclovia para proteger os ciclistas e somente seis faixas exclusivas para o transporte coletivo (contabilizando as duas faixas da Agamenon Magalhães)”, destaca Vanessa Santana.

A bicicleta é saudável, é rápida, é barata e, no pós-pandemia, é uma opção para a sociedade não voltar para o automóvel. As duas pesquisas O Perfil do Ciclista (2015 e 2018) apontaram que aproximadamente 50% das pessoas ouvidas pedalariam mais se houvesse infraestrutura que oferecesse segurança no trânsito. É isso que precisamos. Principalmente agora no pós-pandemia
Vanessa Santana, da Ameciclo

DIVULGAÇÃO
Vanessa Santana, da coordenação da Ameciclo - DIVULGAÇÃO

A quarta fase definida pela Ameciclo seria a etapa de consolidação da rede macro, que totalizaria 25 km e incluiria vias que sempre foram desafiadoras para quem pedala no Recife, como é o caso do Viaduto Capitão Temudo (Complexo Joana Bezerra), principal conexão da Zona Norte com a Zona Sul da capital e palco de mortes de ciclistas pela insegurança para pedalar. Essa etapa, na visão dos ciclistas, permitiria conectar as diversas zonas da cidade e permitir o acesso de áreas mais periféricas do Recife ao Centro, como é o caso das Avenidas Vinte e Um de Abril, José Rufino e São Miguel.

AS ETAPAS DA PROPOSTA

Fase 1 - Transformar em permanente as rotas da Ciclofaixa de Turismo e Lazer - 14,0 km
É uma malha cicloviária que já está sinalizada e já faz a conexão entre as ciclovias e ciclofaixas existentes através de eixos importantes da cidade. Também já é, dentro do que se pode esperar, largamente respeitada pelos carros. Basta fazer a segregação correta através do balizador adequado. Seria a forma mais rápida e eficiente de construir estrutura para conectar as zonas noroeste, sudoeste e sul ao centro da cidade. Dividimos a análise em três partes.

Ciclofaixa de Turismo e Lazer - Rota 1 - Zona Norte - 2,8 km
Conecta as estruturas de ciclofaixas existentes nas Estradas do Arraial e Encanamento à ciclofaixa da Rua Buenos Aires, que leva ao centro mediante a ciclovia da Mário Melo/Rua dos Palmares. Apesar de temporária, a demarcação no chão já existe e a estrutura é tão consolidada na cidade que é comum ver motoristas trafegando fora delas mesmo em dias de semana e sábados, bastando o fluxo de veículos motorizados estar abaixo do usual. Esse trecho foi o que mais recebeu estruturas permanentes ao longo dos anos. Aqui propomos que receba uma conexão pela Rua da Hora, ligando à estrutura já permanente. Alguns centros de saúde estão muito próximos da rota proposta, como os hospitais Maria Lucinda e dos Servidores do Estado.

Rota 1 - Zona Sul - 4,8 km
O trecho faz uma das conexões mais difíceis para o trânsito seguro de bicicletas na cidade. Por ligar a Zona Sul e o Bairro do Recife, registra um alto número de pontes e viadutos na região. Esse trecho conecta a ciclovia da Orla de Boa Viagem com a Zona 30 da cidade. Essas duas regiões concentram boa parte dos empregos da cidade, além da grande concentração populacional nos bairros de Boa Viagem, Pina, Brasília Teimosa e entorno.

Rota 2 - 6,4 km
Uma das últimas partes a serem inauguradas, a Rota 2 da Ciclofaixa de Turismo e Lazer faz a ligação do centro com a Zona Sudoeste da cidade, conectando com a ciclofaixa da Cosme Viana que leva até a Zona Sul pela Arquiteto Luiz Nunes. O trecho passa na proximidade de vários hospitais, além de contar com 9 estações de bicicletas compartilhadas no seu entorno.

FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
A proposta da Ameciclo vai além da ciclofaixa móvel. Os ciclistas sugerem - no que definem de fase dois e três - a criação de infraestrutura em corredores estruturais do Recife, abrindo caminho, de vez, para a presença da bicicleta como veículo de transporte na capital - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

Fase 2 - Vias mais violentas do Recife - 24,2 km
Embora não exista uma pintura realizada, a segunda fase é, no nosso entendimento, mais importante do a que primeira, já que concentra quatro das cinco vias mais violentas do trânsito recifense. Juntas, as avenidas Governador Agamenon Magalhães, Norte Miguel Arraes de Alencar, Marechal Mascarenhas de Moraes e Caxangá somam 7023 colisões e atropelamentos em 5 anos, ou seja, quase 4 por dia. Isso por si já justificaria a implantação de estruturas para garantir a segurança de toda a população. Além disso, são eixos principais da cidade, conectadas com grandes bolsões populacionais e grandes áreas de emprego e demanda de transporte público. São 30 faixas de rolamento, nenhuma ciclovia para proteger os ciclistas e somente 4 para o transporte coletivo.

Fase 3 - Vias violentas do Recife - 24,0 km
A fase 3 é das vias ainda bastante violentas, mas comporta o Eixo Norte-Sul da cidade e faz conexão com as vias que passam transversalmente, conectando estruturas existentes e também as novas estruturas propostas nas fases anteriores.

Fase 4 - Consolidação de rede macro - 25,0 km
Terminada as primeiras fases, devemos focar em conectar a rede completa e facilitar o transporte entre as diversas zonas da cidade. Além disso, trazer novos bolsões populacionais para o centro da cidade (como é o caso da São Miguel + José Rufino) e requalificar vias muito utilizadas para ter uma devida estrutura cicloviária (como é o caso da Vinte e Um de Abril).

O plano elaborado pela Ameciclo ainda será encaminhado à Prefeitura do Recife.

VEJA A PROPOSTA DA AMECICLO NA ÍNTEGRA
https://docs.google.com/document/d/1xmXpbLsOF2go20M1Jrzv22Vib_GMs6N5ycRr_9TYQ0Y/edit#heading=h.17xvr1gd4cz

CAMPANHA
A Ameciclo está com uma campanha virtual para pressionar a Prefeitura do Recife a implantar a proposta. O acesso é pressioneagora.ameciclo.org

PESQUISA PERFIL DO CICLISTA 2018
http://ta.org.br/perfil/ciclista18.pdf

O QUE DIZ A CTTU
A Prefeitura do Recife informa que essa gestão foi a que mais implantou estruturas cicloviárias na história da cidade, aumentando de 24 km de ciclovias em 2013 para 125 km até agora, um crescimento de 420%. Somente durante a pandemia já foram implantados 11 km de rotas cicláveis, contemplando bairros como Parnamirim, Casa Amarela, Água Fria, Apipucos, Barbalho e Burity. A Prefeitura destaca ainda que já transformou parte das ciclofaixas de turismo e lazer em rotas permanentes, como, por exemplo, trechos na Avenida Mário Melo, Rua da Aurora e Rua Leopoldo Lins. Nessa gestão também foi implantado o sistema de compartilhamento de bicicletas Bike PE em várias regiões da cidade, além de iniciativas como o Trânsito Calmo, construção de mais de 130 quilômetros de calçadas, Passeio Rio Branco, revitalização completa da Conde da Boa Vista, intervenções para pedestres na Agamenon Magalhães, mais travessias na Avenida Norte, iluminação de LED nas calçadas da cidade, entre outras.

Rotas cicláveis instaladas durante a pandemia (11 km):

- Ciclofaixa Historiador Jordão Emereciano
- Rota Parque da Macaxeira
- Rota Beberibe
- Rota Parque Caiara
- Ciclofaixa das ruas Ferreira Lopes e Paula Ferreira

O jornalismo profissional precisa do seu suporte.

Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Comentários

Últimas notícias