ESCALONAMENTO EM DISCUSSÃO

A saúde na defesa do escalonamento para o transporte público

Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, referência nacional e mundial em doenças infecciosas pela OPAS/OMS, defende que a sociedade precisa ser convencida da importância da mudança

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 14/10/2020 às 8:00
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Depois de parcerias com aplicativos de transporte privado e bicicletas públicas compartilhadas, gestores começaram a oferecer passagem de ônibus gratuita para quem for se imunizar - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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A série Escalonamento em discussão, publicada pela Coluna Mobilidade para discutir o impacto que a mudança traria para o transporte público, chega ao fim com o alerta da saúde: é preciso combater a concentração de passageiros nos horários de pico dos ônibus, metrôs e trens no Brasil. É urgente. E o escalonamento dos horários das atividades econômicas ajudaria muito. A sociedade precisa ser convencida disso. Quem faz a defesa é o médico infectologista Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, referência em infectologia pela OPAS/OMS. “O uso de máscaras é fundamental e a higienização dos veículos deve se tornar permanente. Mas só com o escalonamento de horários conseguiremos reduzir a lotação. É pelo bem de todos”, defende o infectologista, que também é passageiro dos ônibus e metrô de São Paulo.

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JC - O transporte público urbano do Brasil, do jeito que está, com superlotação nos horários de pico em praticamente todas as cidades, é um ambiente perigoso, de risco para a contaminação pelo coronavírus?

JAMAL SULEIMAN - Sim, o transporte público é um ambiente insalubre para doenças de transmissão respiratória. É para o coronavírus agora, mas sempre foi para outros vírus. E será sempre. O sarampo, por exemplo, pode vir a ser um problema. A medida que cai a taxa de imunização da população, surgem mais. O vírus não acaba, ele está aí. Hoje, o problema é o coronavírus porque não há tratamento, não há vacina. Por isso, todo mundo fica apreensivo. Mas esse não é um problema novo. O que essa pandemia faz é desnudar o problema. Apenas. Para as doenças de transmissão respiratória qualquer situação que não tenha método de barreira (uso de máscaras) ou distanciamento social é perigoso, é risco. Ainda que você use o método de barreira, consegue diminuir o risco de transmissão. Mas se não consegue impor uma distância de 1,5 metro do outro, o risco está posto.

O uso de máscaras é fundamental e a higienização dos veículos deve se tornar permanente. Mas só com o escalonamento de horários conseguiremos reduzir a lotação. É pelo bem de todos",
Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas

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Médico infectologista Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo - DIVULGAÇÃO

JC - Então, o escalonamento das atividades econômicas da sociedade seria uma solução para ajudar o transporte público a diminuir essa proximidade entre as pessoas?

JAMAL SULEIMAN - Sim, o escalonamento é uma estratégia sim. Como a gente não vive na Suíça, porque lá é mais fácil, o transporte público é tranquilo, pontual, não é cheio, é uma alternativa sim. O ideal era mudar o serviço, transformá-lo em algo mais decente. Eu não vejo outra estratégia para diminuir o pico nos ônibus e metrôs a não ser segmentar a entrada do trabalhador. Porque não há muito o que fazer. São poucas horas de concentração. O escalonamento seria o mais efetivo neste momento sim.


JC - O escalonamento das atividades seria uma medida para ser adotada, então, em primeiro lugar?

JAMAL SULEIMAN - Sim, porque você consegue fazer rapidamente, com a participação social. Expandir a oferta de transporte é uma situação difícil, não se consegue fazer imediatamente. Tem um custo operacional alto. A própria população paga. Já com o escalonamento é diferente. Você tem várias opções para adotá-lo. Pode fazer por zonas, por atividades. Há várias estratégias. Cidades que têm a oferta de trabalho mais próximas das moradias permitem esse modelo por zona. Já as outras precisam adotar o modelo de atividades. No Brasil, acredito que só poderíamos usar o escalonamento por atividades mesmo porque a gente tem o modelo de subúrbios americanos que não deram certo. Por isso os longos deslocamentos pela população e, consequentemente, os grandes picos no transporte.


JC - O que dizer à sociedade para reduzir a rejeição à proposta de escalonamento? Muitos setores econômicos já deixaram claro que são contra a mudança e que é preciso encontrar outras soluções para reduzir a concentração do pico no transporte público?

JAMAL SULEIMAN - É preciso convencer a sociedade de que, quando o poder público pensa nesse tipo de estratégia, não está pensando no político, no prefeito. Está pensando no cidadão, na proteção dele. Porque, se aquele cidadão não adoecer é melhor para todo mundo. Inclusive para ele. É preciso lembrar que não é uma estratégia que vai durar a vida toda. Imaginamos que vamos conseguir sair dessa situação de uma forma rápida. Aliás, para a ciência, até que muito rápido. Mas nessa fase de transitoriedade, sem a cooperação da sociedade, será em vão.

JC - O senhor não está sendo muito otimista nessa capacidade de convencimento da sociedade, que em sua maioria pensa individualmente e, não, no coletivo, aqui representado pelo transporte público?

JAMAL SULEIMAN - No primeiro momento, por exemplo, eu fui contra o uso de máscaras porque, históricamente, a máscara aumenta o risco de contaminação para pessoas despreparadas para manuseá-las. Mas a variável imprensa não estava no meu pacote. E a imprensa teve um papel fundamental em educar o manuseio. Jamais podia imaginar que as pessoas fossem ouvir e entender como usá-las da forma correta. Ou seja, eu acho que a gente pode mudar a sociedade, ensinar. É possível. Ainda que tenha uma resistência, como havia com a máscara, a gente deve insistir para mudar essa resistência. Mostrar que é importante o escalonamento.

JC - Não é utopia achar que vamos conseguir colocar um passageiro a 1,5 metro do outro?
O senhor anda de ônibus, de metrô? Faz ideia de que como funcionam esses sistemas no pico?

JAMAL SULEIMAN - Acho que é uma utopia, mas é uma utopia possível. Não é impossível. Acredito que é uma questão de exercício. O processo com as máscaras me fez ver muito claramente que dá para mudar. Que é possível educar, conscientizar. Veja, eu sou usuário do transporte público em São Paulo. Mas não entro num ônibus ou metrô se ele estiver muito cheio. Posso me dar o luxo de aguardar o próximo ônibus, o próximo metrô. A lotação do transporte não é um processo que a gente não consiga vencer. É possível. Se eu amplio o horário de pico em duas horas, por exemplo, consigo minimizar o impacto da concentração. Por isso não vejo como uma utopia inalcançável.

JC - O Plano de Mobilidade Urbana do Recife, que vem sendo elaborado por gestões municipais há dez anos e não é finalizado, recomenda o escalonamento de horários. Mas o tema é sempre polêmico para os gestores públicos. Falta coragem para criar o decreto e fazer ele ser cumprido. Ainda mais agora, que o setor de transporte tem defendido um modelo permanente. O senhor defende que isso precisa ser vencido?

JAMAL SULEIMAN - Sim, mas é uma negociação. Isso precisa ser pactuado com a sociedade. A construção civil reclamou, outros setores vão reclamar porque vai apertar para cada um de nós. Porque estamos acostumados com um certo desenho. Mas aí é que entra o papel do município. Sabemos das dificuldades, ainda mais em ano de eleição. Por isso, é preciso negociar. O problema, aliás, não está em negociar. Agora, existem decisões de saúde pública que não se pautam pela questão política. Os órgãos técnicos federais, estaduais e municipais, por exemplo, têm estratégias e tomam decisões técnicas, não políticas. É o caso de uma agência de vigilância sanitária ou de transporte. Essas instituições têm órgãos colegiados que podem, dentro de uma estratégia, levantar esse tipo de discussão. Mas é algo que precisa ser discutido, negociado, não imposto de cima para baixo. Tem que conversar e convencer. Por isso, digo que é uma utopia realizável.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
O escalonamento dos horários das atividades econômicas ajudaria muito a reduzir a concentração do pico do transporte - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM


JC - E a higienização dos ônibus, metrôs e trens? O uso de equipamentos de biossegurança? Ajudam a evitar a contágio por superfície contaminada, por exemplo?

JAMAL SULEIMAN - Olha, todas essas ações de higienização são fundamentais e devem ser padrão permanente. Aliás, é uma pena que elas só tenham sido descobertas agora pelo setor de transporte. É fundamental que continuem. Agora, há muitas discussões sobre o contágio do vírus através de superfícies contaminadas. As análises sempre apontam como grande risco a contaminação respiratória e por isso evidenciam a proteção de barreira como a mais importante para o coronavírus. Mas no cenário do transporte público a desinfecção é sempre importante, até porque evita a contaminação por parasitas. A infecção a partir do contato da mão com superfícies contaminadas é tecnicamente possível, mas a análise dos casos aponta que a transmissão tem sido fundamentalmente respiratória. O que é melhor para os ônibus e metrôs, por exemplo.

É preciso convencer a sociedade de que, quando o poder público pensa nesse tipo de estratégia, não está pensando no político, no prefeito. Está pensando no cidadão, na proteção dele. Porque, se aquele cidadão não adoecer é melhor para todo mundo. Inclusive para ele",
Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas

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Jamal Suleiman, médico infectologista do Hospital Emílio Ribas (SP) - DIVULGAÇÃO

JC - E a questão da ventilação nos ônibus? É importante?

JAMAL SULEIMAN - Sim, sim. A ventilação também é importante. No caso dos ônibus, tentar circular com a janela aberta. O ideal era que os metrôs e ônibus refrigerados utilizassem o mesmo método de filtragem do ar dos aviões. É a substituição de filtros, trocando o ar a cada três minutos, o que reduz as chances de alguém se contaminar. Ajudaria muito. Mas é caro. Se bem que eu vi umas fotos de voos nacionais que são de tirar o sono, um verdadeiro pesadelo. Muita exposição ao risco, mesmo com o sistema mais eficiente. As pessoas falam muito do perigo no transporte público e esquecem do transporte aéreo.

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