SEGURANÇA VIÁRIA

Duplicação da Ponte do Janga, no Grande Recife, expõe pedestres, ciclistas e o descontrole da velocidade

Quase um ano depois de ser concluída, o entorno da obra acumula problemas e queixas da população, que reclama da ausência de estrutura para bicicletas, de travessias seguras para pedestres e de controle de velocidade para os carros

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 04/11/2020 às 18:39
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BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
Uma obra demorada, cara e que já nasceu velha por não atender às regras mínimas de segurança viária não só para veículos, mas principalmente para pedestres e ciclistas - FOTO: BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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Uma obra demorada, cara e que já nasceu velha por não atender às regras mínimas de segurança viária não só para veículos, mas principalmente para pedestres e ciclistas. Essa é a melhor definição da duplicação da Ponte do Janga, uma espécie de porta de entrada litorânea do município de Paulista, na Região Metropolitana do Recife. Quase um ano depois de ser concluída - e após quatro anos de diversas paralisações e três anos de atraso na entrega -, o entorno da obra acumula problemas e queixas da população, que reclama da ausência de estrutura para bicicletas, de travessias seguras para pedestres e de controle de velocidade para os carros.

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Na avaliação de quem mora na área ou se desloca a pé e de bicicleta, foi uma obra que beneficiou apenas os veículos motorizados - BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM

Os problemas, inclusive, vão além da Ponte do Janga. Estendem-se pela Avenida Cláudio Gueiros Leite (a denominação municipal para a rodovia PE-01), onde falta até mesmo sinalização vertical (placas). Para quem não lembra, o alargamento da ponte fez parte de uma intervenção maior, que previu a requalificação de quatro quilômetros da Avenida Cláudio Gueiros Leite, a partir do limite com Olinda e seguindo até a entrada do Conjunto Beira-Mar, na altura da Estrada de Manepá. A obra custou R$ 17 milhões e foi financiada com recursos do governo do Estado, sendo executada pela Prefeitura de Paulista via convênio firmado em setembro de 2015. Deveria ter sido entregue em 2017, mas devido aos atrasos e paralisações por problemas no repasse de dinheiro, só foi concluída em 2020.

“Podemos dizer que ficou mais perigoso do que era. Principalmente para quem passa de bicicleta ou a pé. Antes, havia o transtorno dos congestionamentos, mas era mais seguro porque os veículos não conseguiam desenvolver tanta velocidade. Depois da duplicação e pela forma como o projeto foi concebido, não há qualquer controle da velocidade e o perigo é grande”, alerta o ciclista e integrante da ONG Mobilidade Ativa em Paulista, Paulo Pontes.

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Paulo Pontes, da ONG Mobilidade Ativa em Paulista - BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM

Ele lembra que ainda na época em que o projeto estava em execução, o poder público foi alertado para que estreitasse a largura das faixas de rolamento dos veículos para que as calçadas pudessem ser alargadas e, assim, permitisse, ao menos, a implantação de uma estrutura ciclável compartilhada entre pedestres e ciclistas. Mas não foi possível.

Atualmente, o que se vê são quatro faixas de rolamento com 3,5 metros cada (o Código de Trânsito Brasileiro - CTB prevê de 3 metros a 3,5 metros, mas especialistas recomendam que, para reduzir a velocidade em áreas urbanas, essa largura possa ser reduzida para até 2,60 metros), e calçadas com 2 metros do lado leste e menos de 1 metro do lado oeste . Não há nenhum tipo de travessia segura e o primeiro semáforo de pedestres está instalado quase dois quilômetros depois da ponte.

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Atualmente, o que se vê são quatro faixas de rolamento com 3,5 metros cada e calçadas com 2 metros do lado leste e menos de 1 metro do lado oeste - BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM

Ou seja, na avaliação de quem mora na área ou se desloca a pé e de bicicleta, foi uma obra que beneficiou apenas os veículos motorizados. “E, mesmo assim, ficou ruim para os automóveis também porque não há controle de velocidade. Os motoristas de carro e ônibus passam que nem loucos por aqui. Temos visto colisões e atropelamentos com frequência nessa região e ao longo da avenida”, reclama Edmar Nascimento, que trabalha próximo à ponte e usa bicicleta para se deslocar.

Apesar da requalificação da Avenida Cláudio Gueiros Leite ao longo de quatro quilômetros, o perigo é permanente na via, uma rodovia de sentido duplo que virou via urbana no Janga. A aposentada Lúcia Lopes Siqueira, 81 anos, por exemplo, foi uma das vítimas da velocidade dos carros e da ausência de controle do poder público na área. No dia 22 de setembro, conhecido como o Dia Mundial Sem Carro, ela atravessava a avenida num trecho semaforizado e, mesmo estando sobre a faixa de pedestre, foi atropelada e lançada por aproximadamente dez metros, morrendo na hora. “Não há respeito. Os motoristas sabem que não há fiscalização e, por isso, furam até mesmo o sinal vermelho. Minha tia foi vítima dessa imprudência. O motorista que a matou estava em alta velocidade”, criticou o sobrinho da aposentada José Humberto Ximba.

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José Humberto Ximba, que teve a tia de 81 anos atropelada no Janga - BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM

O secretário interino de mobilidade de Paulista, Ronaldo dos Santos, afirmou que a prefeitura reconhece as dificuldades no entorno da Ponte do Janga e a ausência de sinalização ao longo da Avenida Cláudio Gueiros Leite. Mas que não há perspectiva, por enquanto, para mudanças no projeto. O que deverá ser feito em breve é a instalação de placas de sinalização na via. “Também estamos reorganizando o corpo de agentes de trânsito para atuar na área”, prometeu.

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A obra custou R$ 17 milhões e foi financiada com recursos do governo do Estado, sendo executada pela Prefeitura de Paulista via convênio firmado em setembro de 2015. Deveria ter sido entregue em 2017, mas devido aos atrasos e paralisações por problemas no repasse de dinheiro, só foi concluída em 2020 - FOTO:BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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José Humberto Ximba, que teve a tia de 81 anos atropelada no Janga - FOTO:BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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Atualmente, o que se vê são quatro faixas de rolamento com 3,5 metros cada e calçadas com 2 metros do lado leste e menos de 1 metro do lado oeste - FOTO:BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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Paulo Pontes, da ONG Mobilidade Ativa em Paulista - FOTO:BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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