COLUNA MOBILIDADE

O trânsito piorou, e não tem mais hora nem lugar. Entenda os motivos

Esqueça aquele discurso sustentável e esperançoso de que as cidades iam tornar-se mais ativas e menos motorizadas. Que o transporte público ia conseguir atrair as pessoas, assustadas com o estrago provocado ao planeta. Nada disso aconteceu

Roberta Soares
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Roberta Soares
Publicado em 23/05/2022 às 9:00 | Atualizado em 23/05/2022 às 12:11
Guga Matos/JC Imagem
A frota do Estado, com destaque para o Recife, já saiu da estagnação de 2020, quando o registro foi de 0,0% em relação a 2019. Pulou para 0,7% em 2021 e em 2022 já dá claros sinais de que seguirá crescendo - FOTO: Guga Matos/JC Imagem
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Se você está com a sensação de que para onde vai, não importa o bairro, a região ou a hora, enfrenta trânsito em qualquer horário e na maioria do percurso, respire fundo… e exerça a resiliência. Isso porque essa sensação é real e os números do próprio trânsito comprovam.

Esqueça aquele discurso sustentável e esperançoso - que esta coluna, inclusive, por várias vezes estimulou com reportagens - de que as cidades iam tornar-se mais ativas e menos motorizadas. Que o transporte público ia conseguir atrair as pessoas, assustadas com o estrago que temos provocado ao planeta. Nada disso aconteceu.

Ao contrário, todo mundo correu para a rua e muitos para os carros. E muitos outros para as motocicletas. Poucos ficaram no transporte público por opção. Infelizmente. Enquanto a demanda do transporte público coletivo - ônibus e também metrô, trens e VLTs -, estabilizou uma queda entre 20% e 30%, a frota de automóveis voltou a patamares de antes da pandemia de covid-19. E só não está maior - acreditam especialistas - porque a economia brasileira não permite.

A frota do Estado, com destaque para o Recife, já saiu da estagnação de 2020, quando o registro foi de 0,0% em relação a 2019. Pulou para 0,7% em 2021 e em 2022 já dá claros sinais de que seguirá crescendo: nos quatro primeiros meses do ano o índice de crescimento está em 0,3%.

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Trânsito em Recife - Avenida Ayrton Senna em Piedade - Mobilidade - Trânsito - Carros - Moto - Trânsito Noturno - Volta do Trabalho - Guga Matos/JC Imagem

A capital, que recebe em seu sistema viário boa parte da frota de toda a Região Metropolitana (1,4 milhão de veículos) e ainda um pouco da frota do Estado, foi a que registrou o maior crescimento este ano. A frota veicular do Recife voltou a subir entre os meses de março para abril, após queda de janeiro para fevereiro. Enquanto a da RMR seguiu em queda, assim como a do Estado. Os dados são do Detran-PE.

Confira a série Trânsito Travado

Os bairros do Recife onde o trânsito é mais perigoso

Recife, mesmo com a pandemia, é a capital mais congestionada do Brasil. De novo

Aplicativos como aliados na gestão do trânsito nas cidades

 

 

CRESCIMENTO DA FROTA

PERNAMBUCO (Em 2022: 3.328.283 veículos)
2019 - 3,5%
2020 - 2,6%
2021 - 3,2%
2022 - 0,7%

REGIÃO METROPOLITANA DO RECIFE (Em 2022: 1.439.709 veículos)
2019 - 4,8%
2020 - 1,2%
2021 - (-) 0,5% (Redução)
2022 - 0,4%

RECIFE (Em 2022: 719.539 veículos)
2019 - 1,9%
2020 - 0,0%
2021 - 0,7%
2022 - 0,3%

* Fonte: Detran-PE

GUGA MATOS/JC IMAGEM
PIOR DO PAÍS Recifense perdeu 92 horas no trânsito no ano passado, de acordo com pesquisa sobre os congestionamentos nas capitais - GUGA MATOS/JC IMAGEM

FALTA PLANEJAMENTO E INVESTIMENTO EM TRANSPORTE COLETIVO

Para quem estuda, ensina e vivencia o trânsito, falta planejamento para tentar solucionar parte dos problemas. E, principalmente, investimento no transporte público coletivo para tirar as pessoas dos automóveis.

“Faz muitos anos que não há um planejamento da circulação de forma integrada, sustentável e com equidade entre os modos de transporte, ou seja, as ações quase sempre são pontuais, não priorizando um conjunto de deslocamentos, mas apenas a resolução de problemas pontuais”, avalia o educador de trânsito Carlos Elias, mais conhecido como Carlão.

“Isso é refletido quando observamos que ações para o transporte de massas quase sempre são feitas por quem anda de carro, salvo raras exceções. Dessa forma, assim como as pessoas buscam um plano de saúde porque não são bem atendidas no serviço público de saúde, elas também procuram o transporte individual motorizado para fugir do transporte público. E a conta não fecha”, reforça.

ARTES: THIAGO LUCAS/ ARTES JC  - FOTOS: GUGA MATOS/ JC IMAGEM
Trânsito travado - ARTES: THIAGO LUCAS/ ARTES JC - FOTOS: GUGA MATOS/ JC IMAGEM

“O sistema de transporte público da RMR precisa ser repensado e a pandemia poderia ter trazido grandes lições, ainda que seja difícil mudar esse tipo de realidade em tão pouco tempo. Mas a pergunta que devemos fazer é: o que o governo (Estado) e as operadoras (de ônibus) aprenderam com a pandemia e como esse aprendizado será aplicado no curto e médio prazos?”, indaga o educador.

MOTOCICLETAS PREOCUPAM

Por outro lado, quem não pode comprar um carro, está comprando uma motocicleta. Os reajustes dos combustíveis - que já ultrapassaram os 50% somente este ano - estão empurrando as pessoas para as motos. Quase metade da frota veicular do Estado é de motos e o crescimento se manteve mesmo na pandemia.

Frota total de PE - 3.328.283 veículos
Frota de motocicletas - 1.293.521

Até abril/2022


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Corrida para os automóveis só não está maior - acreditam especialistas - porque a economia brasileira não permite - Guga Matos/JC Imagem
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Corrida para os automóveis só não está maior - acreditam especialistas - porque a economia brasileira não permite - Guga Matos/JC Imagem
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Corrida para os automóveis só não está maior - acreditam especialistas - porque a economia brasileira não permite - Guga Matos/JC Imagem
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Enquanto a demanda do transporte público coletivo - ônibus e também metrô, trens e VLTs -, estabilizou uma queda entre 20% e 30%, a frota de automóveis voltou a patamares de antes da pandemia de covid-19 - Guga Matos/JC Imagem
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Todo mundo correu para a rua e muitos para os carros. E muitos outros para as motocicletas. Poucos ficaram no transporte público por opção. Infelizmente - Guga Matos/JC Imagem

PRIMEIRA HABILITAÇÃO

O crescimento da procura pela primeira habilitação também é um reflexo da retomada das atividades e da resistência, para quem pode, ao transporte público. A emissão da primeira CNH, que em 2020 teve uma grande redução - caiu de quase 50 mil emissões em 2019 para menos de 32 mil naquele ano - voltou a subir em 2021 e dá sinais de que seguirá subindo. Em 2021 foram quase 60 mil novas primeiras CNHs e, até abril de 2022, já foram emitidas 23.251.

Emissão de CNHs-Primeira habilitação

2018
41.942
2019
49.141
2020
31.841
2021
59.264
2022 (*)
23.251

(*) Até abril/2022

PÓS PANDEMIA, TRÂNSITO VOLTOU COM TUDO

Embora estudos apontem que nos anos de pandemia o trânsito deu uma refrescada - no Brasil e no mundo -, ajudado pelo salto da tecnologia e o avanço do home office, a realidade real está voltando e com tudo.

Os níveis de congestionamento nas cidades estão voltando a crescer e as reduções verificadas em 2020 já foram engolidas pela volta à normalidade de 2021. Os ganhos existem apenas quando a comparação é feita com 2019, na pré-pandemia.

ARTES: THIAGO LUCAS/ ARTES JC  - FOTOS: GUGA MATOS/ JC IMAGEM
Trânsito travado - ARTES: THIAGO LUCAS/ ARTES JC - FOTOS: GUGA MATOS/ JC IMAGEM

Pesquisa da plataforma TomTom, empresa especializada em tecnologia de localização, que colocou o trânsito da cidade do Recife como o pior do Brasil e um dos 15 piores do mundo, voltou a apontar que o trânsito da capital pernambucana é travado, reforçando a sensação citada no início da reportagem.

Mesmo tendo melhorado de forma geral, segue sendo a capital brasileira que teve mais congestionamentos em 2021, deixando para trás até mesmo os verdadeiros monstros da mobilidade urbana do Brasil: as megacidades de São Paulo e Rio de Janeiro, no Sudeste brasileiro, por exemplo.

TRÂNSITO SÓ NO HORÁRIO DE PICO É COISA DO PASSADO

E aquela sensação de que não há mais horário certo para enfrentar congestionamentos ou até mesmo retenções - citada no início da reportagem - também é real.

Não é mais acidente de trânsito. Agora, a definição é outra nas ruas, avenidas e estradas do Brasil

O trânsito mudou de fato e a tecnologia dos aplicativos de mobilidade - que têm base na geolocalização - comprova essas mudanças. Os horários de pico estão mais longos, espaçados.

Das nove capitais brasileiras que integram o ranking anual Traffic Index da TomTom em 2021, o Recife foi a que teve o pior desempenho no Brasil, mesmo com o País apresentando melhorias em relação à circulação de 2019.

O recifense perdeu 92 horas no trânsito ao longo do ano. O nível de congestionamento na capital pernambucana foi de 40%, o que significa que, em média, os tempos de viagem foram 40% mais longos do que costumam ser sem retenções.

Na prática, é como se um percurso que, sem retenções, poderia ser feito em 30 minutos, levasse, na cidade, 12 minutos a mais.

NO TRÂNSITO, SÓ COM APLICATIVO DE GEOLOCALIZAÇÃO

A servidora pública Fernanda Lins e Azevedo não percebe a piora do trânsito em relação à pré-pandemia. Para ela, segue tão ruim como antes. Com a diferença de que, atualmente, é impossível dirigir no Recife sem usar um aplicativo de geolocalização para indicar o caminho mais livre.

Diariamente, a servidora leva entre 40 minutos e 1h para sair da Boa Vista, na área central da cidade, levar a filha no Rosarinho, na Zona Norte, e chegar na Zona Oeste. Seja de manhã ou no horário de almoço.

“Sempre foi ruim e segue ruim. Percebo que os motoristas poderiam ser mais gentis e que a cidade poderia ter menos obras durante o dia. Isso atrapalha demais”, diz.

“Impossível circular sem ter um Waze te ajudando, por exemplo. Mesmo que a rota seja maior. Os congestionamentos estão por toda parte e a qualquer horário”, reforça.

 

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