INVESTIGAÇÃO

Homem que ficou cego em protesto no Recife só fará exame de corpo de delito após um mês

Saiba como estão as investigações relacionadas à atuação dos policiais militares

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 22/06/2021 às 17:13
Notícia
HUGO MUNIZ/DIVULGAÇÃO
A vítima passava próximo à manifestação quando acabou atingido pelo tiro de bala de borracha no olho esquerdo - FOTO: HUGO MUNIZ/DIVULGAÇÃO
Leitura:

Atualizada às 09h35, do dia 23/06

É quase inexplicável, mas uma investigação que promete ser isenta e ágil está falhando em um dos pontos fundamentais. O adesivador Daniel Campelo da Silva, de 51 anos, um dos trabalhadores que foi atingido no olho e ficou cego durante ação violenta da Polícia Militar numa manifestação no Recife, só fará exame de corpo de delito no Instituto de Medicina Legal (IML) no próximo dia 28 de junho, ou seja, um mês depois. 

O exame é necessário para tirar as dúvidas, de vez, sobre o que atingiu o olho esquerdo do adesivador. Na ocasião, assim como aconteceu com o arrumador de contêiner Jonas Correia de França, 29, falou-se que Daniel foi atingido por um tiro de bala de borracha disparado pela PM. Mas, pouco mais de uma semana depois, o secretário de Defesa Social, Humberto Freire, afirmou, em coletiva, que existia a possibilidade de o adesivador ter sido atingido por fragmentos de granada usada pela PM. O fato é que, até hoje, nenhum policial foi identificado e afastado das funções.

 

A data do exame no IML foi confirmada pelo advogado de Daniel, Marcellus Ugiette. Segundo ele, a data foi agendada durante um reunião com a direção do instituto. Sobre a demora, Ugiette disse que vai levar o histórico de exames feitos no Hospital da Restauração, onde Daniel chegou a ser internado, para ajudar no laudo do IML. 

A assessoria da Secretaria de Defesa Social (SDS) se pronunciou nesta quarta-feira (23) sobre o assunto. Em nota, afirmou que "tão logo foi procurado pelos advogados da parte, na tarde de 21/06, Instituto de Medicina Legal (IML) agendou a perícia a ser realizada por uma perita médica legista, com formação em Oftalmologia, ofertando atendimento de qualidade e apropriado para uma ocorrência específica de trauma ocular. O IML esteve, desde que manifestantes foram atingidos de forma grave, no dia 29, à disposição para a realização das perícias médico-legais".

A nota disse ainda que Daniel "não pode ser periciado no dia do ferimento porque ficou internado. logo após receber alta médica, foi feito o encaminhamento ao IML. Como a realização das perícias dependeu do quadro de saúde, não houve, como leva a crer a matéria, morosidade ou qualquer limitação por parte dos órgãos de segurança envolvidos no caso".

INVESTIGAÇÕES

As investigações sobre a atuação dos policiais militares na manifestação estão sendo conduzidas pela Polícia Civil (no âmbito criminal) e pela Corregedoria da SDS (no âmbito administrativo), mas ainda não há prazo para conclusão. Na corregedoria, há nove procedimentos em andamento. E 16 PMs lotados no Batalhão de Choque e na Radiopatrulha foram afastados das funções, inclusive o suspeito de atirar em Jonas. O policial foi afastado da corporação por 120 dias, por determinação do secretário de Defesa Social. 

INDENIZAÇÕES

Em paralelo às investigações, o governo de Pernambuco está em negociação para pagar uma indenização vitalícia às duas vítimas, que não participavam da manifestação. Além disso, durante três meses, o governo vai pagar dois salários mínimos a cada um. A Procuradoria-Geral do Estado (PGE), no Recife, está acompanhando tudo.

QUEDA DO SECRETÁRIO

A ação violenta da PM também derrubou o delegado federal Antônio de Pádua, que foi exonerado do cargo de secretário de Defesa Social no último dia 04 de junho. Pádua está no centro da investigação que busca esclarecer quem deu a ordem para que os policiais militares avançassem e atirassem contra os manifestantes. Pádua nega que tenha dado a ordem e diz também não saber quem foi o responsável.

"Os fatos ocorridos foram graves e precisam ser investigados de forma ampla e irrestrita. Minha formação profissional e humanística repudia, de forma veemente, a maneira como aquela ação foi executada. Seis dias depois do episódio, com um novo comandante à frente da PM, com os procedimentos investigatórios instaurados e após prestar contas à Assembleia Legislativa, à OAB e ao Ministério Público, entreguei meu cargo com a certeza do dever cumprido e mantendo nosso compromisso com a transparência e o devido processo legal", afirmou, em nota oficial, Pádua.

POLÍCIA MILITAR

O comando geral da PM também mudou em Pernambuco. José Roberto de Santana tomou posse em substituição ao coronel Vanildo Maranhão. Até então, Santana exercia o cargo de diretor de Planejamento Operacional da corporação. O coronel tem 31 anos de serviço à polícia. Já Vanildo foi transferido para a reserva remunerada, como revelou a coluna Ronda JC

O subcomandante da PM, André Cavalcante, também foi substituído. No lugar dele, assumiu o coronel Aníbal Rodrigues Lima. Até então, ele era corregedor adjunto da Corregedoria da SDS. Ele tem 30 anos de efetivo serviço.

 

 

Comentários

Últimas notícias