INVESTIGAÇÃO

Depósito onde armas foram desviadas, no Recife, iria sofrer incêndio criminoso

Depoimento de policial civil trouxe elementos importantes para o inquérito que apurou o sumiço de 326 armas de fogo e mais de 3 mil munições

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 15/09/2021 às 6:00
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BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Operação Reverso da Polícia civil no GOE. - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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Novos detalhes da investigação sobre o sumiço de 326 armas de fogo e mais de 3 mil munições revelam que o depósito onde os materiais estavam guardados, na Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, na área central do Recife, iria sofrer um incêndio criminoso. E provas fundamentais para descobrir o extravio dessas armas seriam perdidas. A informação consta no relatório do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), que denunciou 20 pessoas - sendo cinco policiais civis - à Justiça.  

O depoimento de um policial civil lotado na Core, no dia 15 de janeiro deste ano, ajudou os investigadores a montar o quebra-cabeça em relação ao envolvimento de servidores no desvio das armas, descoberto no dia 05 daquele mês. "Consta que, no final de dezembro de 2020, em data próxima ao Natal, ao retornar ao depósito da Core para desligar o ar-condicionado, pois tinha saído sem desligá-lo, ele (o policial) percebeu que a porta e uma grade de acesso à armaria não estavam da mesma forma como havia deixado, ocasião em que sentiu forte odor de fumaça e encontrou, sobre uma bancada de manutenção, uma lata com solvente com uma bucha em sua abertura, já fumaçando, como se fosse uma 'bomba relógio', pronta para pegar fogo", descreve relatório do MPPE.

E continua: "Ao lado dessa lata de solvente, havia outros produtos inflamáveis que, de maneira proposital foram deixados no local, provavelmente para causar incêndio e, com isso, destruir vestígios que pudessem revelar a nefasta prática de subtração do material bélico ali armazenado. No entanto, como a mencionada testemunha apagou o pavio, o plano arquitetado com esse objetivo criminoso acabou frustrado, o que demonstra o grau de periculosidade dos ora denunciados".

Artes JC
O plano de incêndio - Artes JC

Sem correlacionar os casos, o inquérito policial enviado ao MPPE cita ainda que dois outros incêndios foram registrados, nos anos de 2010 e 2012, em depósitos de armas, no bairro da Joana Bezerra, e que eram ligados à Core.

O primeiro incêndio ocorreu em 15 de setembro de 2010. Além do depósito, as chamas também atingiram um prédio de dois andares, onde funcionavam delegacias (uma delas era a Antipirataria). Na ocasião, a Secretaria de Defesa Social (SDS) confirmou que o fogo havia começado no depósito e que rapidamente se alastrou, mas alegou que as armas foram tiradas a tempo e que outras estavam guardadas dentro de um cofre, que ficou intacto.

O segundo incêndio no mesmo depósito ocorreu em janeiro de 2012. O fogo destruiu o espaço, que, segundo a polícia, contava com cerca de uma tonelada de munições para espingarda, que estavam apreendidas.

A coluna Ronda JC apurou, nessa terça-feira (14), que, em ambos os incêndios, não ficaram comprovados indícios de atos criminosos.

PUNIÇÃO

Reportagens publicadas pela Ronda JC, desde o último domingo (12), estão revelando detalhes do inquérito que apurou o esquema criminoso. Os delegados Cláudio Castro e Guilherme Caraciolo concluíram que, aproveitando-se da falta de câmeras na Core e de medidas para evitar extravios, os policiais vendiam as armas e munições a integrantes de pelo menos duas facções criminosas que agem no Estado.

Cento e vinte pistolas .40, que pertenciam à Guarda Municipal de Ipojuca e estavam guardadas na Core, também foram extraviadas. Elas teriam sido repassadas por valores de R$ 6,3 mil a R$ 6,5 mil, cada uma. Já submetralhadoras eram vendidas por até R$ 22 mil, apontaram os depoimentos.

Os 20 acusados respondem por crimes como organização criminosa, comércio ilegal de armas de fogo, peculato, lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva. O processo está na fase de apresentação da defesa prévia à Justiça.

Além disso, os comissários José Maria Sampaio Filho, Cleido Graf Gonçalves Torreiro, Josemar Alves dos Santos e Edson Pereira da Silva (todos presos durante operação em agosto deste ano) também respondem a processo administrativo na Corregedoria da SDS. O agente administrativo da Polícia Civil Carlos Fernandes Nascimento, também acusado, deve ter declarada a extinção da punibilidade pela Justiça, visto que ele faleceu 17 dias após ser preso.

Em nota, a assessoria da SDS informou que "a Corregedoria aguarda ter acesso aos autos desse inquérito, até então sob segredo de Justiça, para dar andamento ao processo disciplinar iniciado à época da descoberta dos fatos". Destacou ainda que "a Polícia Civil realizou um amplo inventário de materiais apreendidos e adotou novos protocolos de segurança, de modo que fatos como esse jamais ocorram novamente". 

COMO AGIRAM OS POLICIAIS, SEGUNDO INQUÉRITO

1 - José Maria Sampaio Filho (comissário da Polícia Civil)

Foi reconhecido por uma testemunha por ter, em três momentos, “repassado grande quantidade de munição comercializada, que se destinou a uma facção criminosa. Numa operação da polícia, em agosto, para cumprir mandados de prisão contra os investigados, o policial foi flagrado na posse irregular de uma arma de fogo calibre 9mm sem registro.

2 - Cleido Graf Gonçalves Torreiro (comissário da Polícia Civil)

Apontado pelos investigadores como “o grande mentor/articulador” de todo o esquema de desvio de armas, munições e acessórios. Detinha acesso irrestrito à armaria da Core. “Sem qualquer justificativa, frequentava aos sábados e domingos a armaria. Manipulava planilhas com a inserção e supressão de dados. Utilizava intermediários na comercialização”, pontuou relatório da Polícia Civil ao MPPE. Ainda teria adquirido casa de veraneio e automóvel em nomes das filhas.

3 - Josemar Alves dos Santos (comissário da Polícia Civil)

Investigação apontou que ele auxiliava Cleidio no desvio das armas, munições e acessórios, manipulando as informações em planilhas no setor administrativo.

4 - Edson Pereira da Silva (comissário da Polícia Civil)

Segundo as investigações, “faltou com dever funcional realizando pesquisas no sistema integrado da Polícia Civil para integrantes da organização criminosa, justamente de um desafeto que eles estavam procurando para matar”.

5 - Carlos Fernandes Nascimento (agente administrativo da Polícia Civil)

“Fez contatos, intermediou, despachou e arrecadou dinheiro da venda de munições, armas e carregadores desviados da Core”, descreve o inquérito. Ele faleceu 17 dias após ser preso.

DEFESA DOS RÉUS

O advogado Diego Roberto Albuquerque, responsável pela defesa de Cleido Graf, apontado como o suposto mentor do esquema, informou à coluna que o policial civil tem mais de 30 anos na corporação. E que a inocência dele será provada. “Ele tem 70 anos, tem comorbidade e está no Cotel (Centro de Observação e Triagem, em Abreu e Lima). Nem a segunda dose da vacina contra a covid-19, tomou ainda. Entramos com liminar, que foi negada na Justiça. Agora, vamos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para que ele responda ao processo em liberdade”, afirmou.

A advogada Aliadja Larissa Leão, responsável pela defesa de Carlos Fernandes Nascimento, pontuou que, no dia da prisão, em 12 de agosto, ele estava com o quadro de saúde delicado. Segundo ela, houve pedidos de prisão domiciliar, porém, após 17 dias no Cotel, ele faleceu. “Estou peticionando o pedido da extinção da punibilidade”, disse a defesa.

A coluna não conseguiu contato com as defesas dos outros acusados, mas o espaço segue aberto.

Artes JC
O plano de incêndio - FOTO:Artes JC

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