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Documentos revelam detalhes do sumiço e venda de armas da Polícia Civil, no Recife

Ao menos 326 armas, incluindo submetralhadoras, e mais de 3 mil munições foram desviadas da corporação. MPPE denunciou 20 pessoas, incluindo 5 policiais

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 12/09/2021 às 20:51
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BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Policiais foram presos durante operação da Polícia Civil realizada em agosto deste ano - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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Vinte pessoas - entre elas cinco policiais civis - acusadas de envolvimento no desvio e venda de armas de fogo que estavam armazenadas em um depósito da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), vinculada à Polícia Civil, na área central do Recife, foram denunciadas pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE) à Justiça. Ao menos 326 armas (pistolas, revólveres e submetralhadoras) teriam sido furtadas, além de mais de 3 mil munições. As investigações conduzidas desde janeiro deste ano revelaram um grande esquema criminoso, criado há alguns anos no Estado, e que ainda pode resultar em desdobramentos, visto que há indícios de que facções envolvidas com homicídios e tráfico de drogas continuam com parte das armas desviadas - e vendidas por preços variados. A coluna Ronda JC teve acesso em primeira mão à íntegra da denúncia do MPPE e do relatório final do inquérito policial. Os acusados respondem por crimes como organização criminosa, comércio ilegal de armas de fogo, peculato, lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva.

As investigações, sob sigilo, tiveram início um dia após um comissário da Polícia Civil voltar de férias, em 05 de janeiro. Responsável pela manutenção e conserto de armas da Core, ele sentiu a falta parte do armamento - incluindo 119 pistolas que pertenciam à Guarda Municipal de Ipojuca, município da Região Metropolitana do Recife (RMR) - que estava guardado numa sala isolada e com acesso restrito. Ele informou à chefia da desconfiança e passou a fazer a contagem do material - foi quando descobriu, de fato, o sumiço do arsenal. Em depoimento à polícia, relatou que o ar-condicionado da sala estava inclinado e sem as espumas de vedação - o que poderia indicar por onde as armas teriam sido retiradas. E disse mais: que nas caixas de papelão onde deveriam estar o armamento, colocaram munições para simular o mesmo peso. Só quem tinha acesso à sala eram alguns dos policiais lotados na Core.

Perícia do Instituto de Criminalística foi realizada, mas não encontrou nenhum sinal de arrombamento, “o que levou o perito criminal a destacar o cuidado, preocupação e estratégia dos infratores na tentativa de ludibriar os funcionários do local e retardar a descoberta do crime”, pontuou o MPPE, na denúncia enviada à Justiça. Por uma falha grave de segurança, no interior do setor de armaria não havia câmeras (conforme informação que consta no relatório final do inquérito policial), o que dificultou ainda mais o trabalho dos investigadores.

Diante da gravidade do caso, e indícios de participação de servidores públicos no sumiço das armas, a chefia da Polícia Civil designou dois delegados para comandar o inquérito: Cláudio Castro, gestor do Departamento de Repressão ao Narcotráfico (Denarc), e Guilherme Caraciolo, que posteriormente passou a comandar o Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco).

JC Imagem/Arquivo
Delegado Cláudio Castro investigou o caso - JC Imagem/Arquivo

PISTAS

A partir da descoberta do sumiço das armas, os investigações identificaram que quatro submetralhadoras apreendidas pela Polícia Militar, em dezembro de 2020, com integrantes de uma organização criminosa, no bairro de Cavaleiro, em Jaboatão dos Guararapes, na RMR, estavam entre as desviadas da Core. Investigadores decidiram ouvir os suspeitos, que estavam presos aguardando julgamento.

No dia 08 de janeiro, em outra ronda de rotina, policiais militares apreenderam uma pistola .40 com uma mulher, em Olinda, também na RMR. A perícia identificou que a arma também havia sido levada da Core. Consta em documentos que, dias depois, a suspeita foi morta. No dia 12 do mesmo mês, um homem foi preso com outra pistola. Disse, em depoimento, ter adquirido por R$ 5 mil. Em março, mais apreensões de pistolas e de outra submetralhadora.

Em depoimento à polícia, ainda em janeiro, um detento revelou que, anos antes, havia se dirigido à Core para comprar munições destinadas a uma facção criminosa - indicando os delegados que a prática ilegal não era recente na unidade policial. O vendedor teria sido justamente um dos policiais civis que acabou denunciado pelo MPPE ao final desta investigação.

Outros depoimentos colhidos pela polícia revelaram a suposta ligação de comissários da Core com criminosos. A venda de munições e carregadores de pistolas seria prática comum e antiga. Para se ter uma ideia, uma caixa com 50 munições era vendida por R$ 350, revelam depoimentos.

Interceptações telefônicas também apontaram que armas desviadas da Core foram comercializadas para facções criminosas por valores que variavam de R$ 6,3 mil a 6,5 mil, cada uma. Já as submetralhadoras custavam R$ 22 mil nesse comércio ilegal. Integrantes ou pessoas ligadas a pelo menos duas organizações criminosas - incluindo detentos do Estado - foram identificados e fazem parte do rol de denunciados à Justiça.

Quebras de sigilo fiscal e bancário apontaram, ainda, que os comissários investigados tinham movimentações financeiras incompatíveis com seus rendimentos.

Em 12 de agosto deste ano, a Polícia Civil deflagrou a operação denominada Reverso, que cumpriu 18 mandados de prisão e 22 de busca e apreensão, autorizadas pela 18ª Vara Criminal da Capital, pouco antes da conclusão das investigações. Entre os presos, estavam os policiais investigados. Todos foram encaminhados ao Centro de Observação e Triagem (Cotel), em Abreu e Lima. Mulheres também foram presas e levadas para a Colônia Penal Feminina. A Justiça ainda determinou o bloqueio dos bens de parte dos investigados, a pedido da polícia. No dia da operação, também foram apreendidos oito armas, cerca de três quilos de uma droga derivada da cocaína, R$ 40 mil em dinheiro e R$ 5,8 mil em notas falsas.

Uma organização criminosa, que teria se beneficiado das armas desviadas, já vinha sendo investigada por tráfico de drogas e homicídios em vários bairros da Zona Oeste do Recife. Alguns dos integrantes foram presos em outras ocasiões, inclusive. No dia da operação, a cúpula da Polícia Civil fez uma breve coletiva sobre o caso. E o chefe da corporação, Nehemias Falcão, cravou: “As armas subtraídas por esses policiais alimentaram essa organização criminosa”.

Com a denúncia do MPPE recebida pela Justiça, agora os advogados dos acusados serão notificados para que apresentem as defesas prévias. A partir daí, audiências para ouvir testemunhas de acusação e defesa serão marcadas.

COMO AGIRAM OS POLICIAIS, SEGUNDO INQUÉRITO

1 - José Maria Sampaio Filho (comissário da Polícia Civil)

Foi reconhecido por uma testemunha por ter, em três momentos, “repassado grande quantidade de munição comercializada, que se destinou a uma facção criminosa. Numa operação da polícia, em agosto, para cumprir mandados de prisão contra os investigados, o policial foi flagrado na posse irregular de uma arma de fogo calibre 9mm sem registro.

2 - Cleido Graf Gonçalves Torreiro (comissário da Polícia Civil)

Apontado pelos investigadores como “o grande mentor/articulador” de todo o esquema de desvio de armas, munições e acessórios. Detinha acesso irrestrito à armaria da Core. “Sem qualquer justificativa, frequentava aos sábados e domingos a armaria. Manipulava planilhas com a inserção e supressão de dados. Utilizava intermediários na comercialização”, pontuou relatório da Polícia Civil ao MPPE. Ainda teria adquirido casa de veraneio e automóvel em nomes das filhas.

3 - Josemar Alves dos Santos (comissário da Polícia Civil)

Investigação apontou que ele auxiliava Cleidio no desvio das armas, munições e acessórios, manipulando as informações em planilhas no setor administrativo.

4 - Edson Pereira da Silva (comissário da Polícia Civil)

Segundo as investigações, “faltou com dever funcional realizando pesquisas no sistema integrado da Polícia Civil para integrantes da organização criminosa, justamente de um desafeto que eles estavam procurando para matar”.

5 - Carlos Fernandes Nascimento (agente administrativo da Polícia Civil)

“Fez contatos, intermediou, despachou e arrecadou dinheiro da venda de munições, armas e carregadores desviados da Core”, descreve o inquérito. Ele faleceu 17 dias após ser preso.

DEFESA DOS RÉUS

O advogado Diego Roberto Albuquerque, responsável pela defesa de Cleido Graf, apontado como o suposto mentor do esquema, informou à coluna que o policial civil tem mais de 30 anos na corporação. E que a inocência dele será provada. “Ele tem 70 anos, tem comorbidade e está no Cotel. Nem a segunda dose da vacina contra a covid-19, tomou ainda. Entramos com liminar, que foi negada na Justiça. Agora, vamos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para que ele responda ao processo em liberdade”, afirmou.

A advogada Aliadja Larissa Leão, responsável pela defesa de Carlos Fernandes Nascimento, pontuou que, no dia da prisão, em 12 de agosto, ele estava com o quadro de saúde delicado. Segundo ela, houve pedidos de prisão domiciliar, porém, após 17 dias no Cotel, ele faleceu. “Estou peticionando o pedido da extinção da punibilidade”, disse a defesa.

A coluna não conseguiu contato com as defesas dos outros acusados, mas o espaço segue aberto.

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