VIOLÊNCIA

Polícia prende, mas criminosos seguem em contato com facções nos presídios de Pernambuco

Apesar do aumento de prisões neste ano, falta controle no sistema prisional para impedir avanço da criminalidade

Raphael Guerra
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Raphael Guerra
Publicado em 07/12/2021 às 6:30
BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
COMBATE AO CRIME Para a Polícia Civil, a desarticulação das organizações criminosas contribui com redução dos assassinatos. Neste ano, Estado acumula queda de 12,5% nas mortes - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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Em meio à pandemia da covid-19, a Polícia Civil de Pernambuco conseguiu, em 2021, ampliar o número de operações de repressão qualificada - aquelas destinadas a desarticular grupos criminosos, a maioria das vezes ligados ao tráfico de drogas, aos homicídios e também à lavagem de dinheiro. Em 11 meses, foram 80 operações, que resultaram no cumprimento de 547 mandados de prisão. No mesmo período de 2020, foram 75 ações, com 476 pessoas capturadas. Mas chama a atenção que, em quase todas operações, há mandados sendo cumpridos em presídios do Estado - revelando que, mesmo presos, criminosos continuam agindo livremente. E, muitos, dando ordens a perigosas facções.

"Essas operações têm como viés principal o combate aos crimes violentos. Na Zona da Mata e Agreste do Estado tivemos redução de 18% no número de homicídios neste ano em relação a 2020. Isso foi possível graças ao trabalho investigativo da polícia e das prisões efetuadas", afirmou o titular da Diretoria Integrada do Interior 1 da Polícia Civil, Jean Rockfeller. "A polícia tem feito um trabalho cirúrgico. Temos percebido, inclusive, que algumas organizações criminosas atuam em outros Estados, além de Pernambuco, por isso estamos fazendo operações interestaduais", completou.

Dados da Secretaria de Defesa Social (SDS) apontam que 2.769 pessoas foram assassinadas no Estado entre janeiro e outubro deste ano. No mesmo período de 2020, foram 3.164. O recuo é de 12,5%. Para a polícia, as operações são fundamentais para garantir a queda dos homicídios e atingir a meta do Pacto pela Vida, que é de redução anual de 12%.

Apesar disso, em entrevista à coluna Ronda JC, Jean Rockfeller reconheceu que o sistema prisional pernambucano continua sendo um problema no combate à violência. "De fato, boa parte dos alvos dessas operações pratica crimes de dentro do sistema prisional. A gente tem integração com a Seres (Secretaria Executiva de Ressocialização), com o Ministério Público, com o Poder Judiciário. O problema dos presídios é nacional, infelizmente", disse.

ARTES/JC
NÚMEROS DA POLÍCIA CIVIL - WEB - ARTES/JC

A Operação Camarás, deflagrada pela Polícia Civil em 29 de julho de 2021, é um exemplo. Na ocasião, policiais civis e militares cumpriram 13 mandados de prisão e outros nove de busca e apreensão domiciliar, com o objetivo de desarticular uma organização investigada pelos crimes de extorsão contra comerciantes, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e crime contra o sistema financeiro nacional. A atuação ocorria em municípios como Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife. O detalhe é que o líder do grupo criminoso já estava preso no Complexo Prisional do Curado, Zona Oeste da capital pernambucana. Mas, como revelaram as investigações, continuava dando ordens aos seus subordinados. Outros mandados contra detentos também foram cumpridos.

Atualmente, o sistema prisional pernambucano é formado por mais de 34 mil pessoas, que estão à espera de julgamento ou já cumprindo as penas. Mas só há vagas para 13.635. A taxa de ocupação é de 253%, uma das mais altas do País. Números que podem explicar a falta de controle do governo do Estado sobre os detentos.

FALTA EFETIVO

De acordo com o Sindicato dos Policiais Penais de Pernambuco, há 1559 profissionais responsáveis pela segurança nas unidades. A categoria diz que o ideal seria ter, no mínimo, 3 mil policiais penais. O último concurso foi em 2017, mas só 157 aprovados foram chamados. A expectativa de que uma nova seleção seja anunciada pelo Estado até o começo do próximo ano.

"Atualmente, no plantão, são apenas seis ou sete policiais penais por presídio. É muito pouco. Sem contar que às vezes o número é menor porque eles precisam sair para levar presos para audiências, por exemplo. As revistas para encontrar materiais ilícitos (como drogas e armas) deveriam ser continuamente, mas não há efetivo. Por isso, os detentos continuam agindo", declarou o presidente do sindicato, João Carvalho.

O QUE DIZ A SERES

Procurada pela coluna Ronda JC, a assessoria da Secretaria Executiva de Ressocialização (Seres) informou, por nota, que "intensificou as revistas nas unidades prisionais do Estado a fim de evitar a entrada de ilícitos, bem como, instalou equipamentos de segurança como sanners corporais e detectores de metal (portais e manuais)".

Quanto à instalação de bloqueadores de celular, projeto que há anos vinha sendo analisado no Estado - inclusive com testes mal sucedidos no Complexo Prisional do Curado, em 2014 - a assessoria da Seres disse que "é uma medida nacional sob avaliação do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) e Ministério das Telecomunicações".

 

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