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Coronavírus: o que é 'passaporte imunológico' e por que ele não dá garantia de defesa prolongada à covid-19

Secretário Estadual de Saúde, André Longo, ressalta que há muitas expectativas sobre o que se chama hoje de 'passaporte imunológico'

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 14/06/2020 às 17:49
Análise
DANIEL MIHAILESCU/AFP
Entre os desafios da ciência, está saber se quem já foi infectado pelo novo coronavírus desenvolve anticorpos duradouros para permanecer imune a um novo adoecimento - FOTO: DANIEL MIHAILESCU/AFP
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Passados os primeiros três meses da epidemia por covid-19 em Pernambuco, o secretário Estadual de Saúde, André Longo, ressalta que há muitas expectativas sobre o que se chama hoje de “passaporte imunológico” (desenvolvimento de anticorpos duradouros que protejam da doença). “Isso ainda é algo incerto, que permanece em estudo e aguardamos ansiosamente para saber (dos resultados). Pesquisas pernambucanas também vão investigar esse e outros aspectos.”

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O secretário acrescenta que é necessário aguardar uma melhor definição sobre o desenvolvimento desses anticorpos. “É preciso saber se eles terão pujança, força para proteger em relação ao novo coronavírus nos anos subsequentes (a esta primeira onda de covid-19). Sabe-se que temporariamente existe essa proteção para as pessoas que foram expostas ao vírus e desenvolveram anticorpos. Mas é necessário ver com que força isso vem e por quanto tempo isso protegerá as pessoas”, destacou André Longo.

Ainda no quesito imunidade, o secretário Jailson Correia considera que a discussão precisa ser ampliada. “Devemos considerar que a distribuição de pessoas positivas ( já se infectaram) não se dá de forma igual em toda a população. Há um grupo que, durante o isolamento, ficou mais exposto e existe também o comportamento (da covid-19) por faixa etária e por região da cidade. É necessário ver se as pessoas que entraram em contato com o vírus são predominantemente mais jovens e hígidas. Se sim, a preocupação é maior porque teríamos um bom pedaço de pessoas acima de 60 anos com comorbidades susceptíveis.” 

Imunidade no Recife 

A segunda fase do estudo Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil: Estudo de Base Populacional (Epicovid19-BR), coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em parceria com o Ministério da Saúde, revelou que a proporção da população brasileira com anticorpos para covid-19 aumentou de 1,7% na primeira fase para 2,6% na segunda rodada. Em 83 cidades, foram testadas 200 ou mais pessoas nas duas fases da pesquisa (a 1ª foi feita de 14 a 21 de maio; a 2ª, de 4 a 7 de junho). O Recife participou de ambas as etapas, sem apresentar diferença na proporção de pessoas com anticorpos (aquelas que já tiveram ou têm o coronavírus). Essa taxa ficou em 3,2%. Embora os resultados das análises tragam as proporções por cidade, a coordenação do estudo destaca que os dados não devem ser extrapolados para todo o País, pois são provenientes de cidades populosas.

“Esse estudo especificamente tem importância de avaliar, no Brasil, tendências gerais ao longo do tempo, de um aumento da dinâmica de prevalência a nível nacional. Ele não tem poder estatístico de fazer desdobramento do resultado por município”, comenta o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia.

Ele acrescenta que, num cálculo modesto, estimativas levam a um percentual um pouco acima de 15% de pessoas que entraram em contato com o novo coronavírus no Recife e, consequentemente, possam ter desenvolvido anticorpos. O secretário explica que esse tipo de conta considera pontos como a proporção de assintomáticos já mostrada em estudos, o número de doentes que evoluem para a forma grave e os que vão para a UTI, a mortalidade hospitalar entre 40% e 50% e o número de mortes pela infecção. “É uma estimativa a grosso modo. Só os estudos de soroprevalência vão demonstrar isso”, frisa Jailson. O que se considera é que estamos longe da imunidade coletiva, pois ainda há muitas pessoas susceptíveis à infecção pelo novo coronavírus.

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