COLUNA JC SAÚDE E BEM-ESTAR

"Venha de onde vier", diz epidemiologista da Fiocruz Pernambuco sobre a esperança nas vacinas contra covid-19

Nesta entrevista, Ana Brito faz uma avaliação sobre o combate à pandemia e sobre o esquema de imunização. "O problema atual gira em torno da escassez de vacinas", diz a pesquisadora

Cinthya Leite
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Cinthya Leite
Publicado em 24/01/2021 às 12:37 | Atualizado em 24/01/2021 às 12:43
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Ana Brito é médica epidemiologista e pesquisadora da Fiocruz Pernambuco - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Dez meses após alertar, nesta coluna, sobre a necessidade do isolamento social para controlar a covid-19, a médica epidemiologista Ana Brito, da Fiocruz Pernambuco, faz uma avaliação sobre o combate à pandemia. Em relação ao esquema de imunização, ela traz sugestões e críticas, sem deixar de destacar que não podemos perder a esperança. Com pós-doutorado em Epidemiologia pela Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), ela frisa que o descaso do governo federal diante do planejamento para aquisição dos insumos só fez atrasar a imunização da população. "O problema atual gira em torno da escassez de vacinas", diz a epidemiologista, nesta entrevista a Cinthya Leite.

JORNAL DO COMMERCIO - Qual a avaliação que a senhora faz do enfrentamento à pandemia em Pernambuco, considerando a partir da confirmação dos primeiros casos, em março?

ANA BRITO - Acertamos em instalarmos, naquele momento, em Pernambuco, medidas de isolamento social, porque o Estado, a partir da Região Metropolitana do Recife, foi um dos primeiros locais onde ocorreram a disseminação da covid-19. Mas por falta de uma ação articulada, essas medidas foram flexibilizadas num período muito precoce. Se as restrições fossem mais prolongadas, teríamos outro desfecho, certamente não assistiríamos a essa avalanche de casos e óbitos que houve até setembro. O plano de convivência deu um estímulo imenso a grandes aglomerações, com pressão de muitas áreas, como a comercial. De repente, flexibilizou-se tudo. Era como se tivesse decretado o fim da pandemia. O plano de convivência era para ser pautado na realidade da disseminação do vírus. Além disso, nosso segundo maior erro foi ter centrado o enfrentamento em cima de medidas hospitalares. A gente interrompe transmissão do vírus com medidas de prevenção, e não com ações de internamento hospitalar, que são importantes também. Mas o monitoramento da pandemia tinha que necessariamente ser feita com base na atenção primária.

JC - A falta de um comando nacional no combate à pandemia no Brasil, desde o início, pode afetar a vacinação em massa e, consequentemente, o controle na transmissão do vírus?

ANA BRITO - Sim. Houve um descaso do Ministério da Saúde diante do real planejamento para a aquisição de vacinas, independente das que estão sendo desenvolvidas em parceira com institutos brasileiros. O governo brasileiro teve um papel de atrasar esses processos. Com as doses que há hoje, não chegamos a cobrir nem 40% da força de trabalho da Saúde, exposta claramente à covid-19, e os outros grupos prioritários da 1ª fase. A expectativa era chegar a vacinar, no começo do 2º trimestre, 20% da população vulnerável, dos quais fazem parte profissionais de saúde, idosos, pessoas com comorbidade e a força de trabalho da Educação.

JC - O que diz sobre a forma com que o plano de imunização foi concebido?

ANA BRITO - O modelo adotado pelo governo federal, copiado pelos Estados, não corresponde à dinâmica socioeconômica da iniquidade, da desigualdade da nossa população. Ora, se estamos tendo um grupo desproporcionalmente afetado para novos casos e óbitos, e esse grupo é uma força jovem, qual deveria ter sido a priorização para a 1ª etapa da campanha de vacinação? Essa força de trabalho dos serviços essenciais, composta pela população jovem, que precisa trabalhar no supermercado, ou como motorista de ônibus, apenas para citar exemplos, deveriam estar na lista prioritária para a vacina, assim como os professores da pré-escola e do ensino fundamental. Eu batalharia por essa composição (no plano de imunização) e sugeriria que vacinasse quem hoje é mais vulnerável e tem mais chance de carrear o vírus para dentro das suas coletividades.

JC - As vacinas já chegaram a todos os municípios pernambucanos...

ANA BRITO - Embora seja justo do ponto de vista da igualdade, eu não distribuiria a vacina em relação à proporção da população neste momento. Sabe por quê? Existem municípios que não atendem um só caso de covid-19, sequer realiza teste. Claro que o certo é que todos recebessem, mas o problema atual é a escassez de vacina.

JC - Neste momento, é acertado vacinar todos os trabalhadores de hospitais que atendem exclusivamente pacientes com sintomas de covid-19?

ANA BRITO - Por mais bem intencionados que sejam, é preciso dizer que, em uma unidade 100% covid, nem todos profissinais estão expostos ao vírus. São equívocos. Quem está planejando tem que ter cuidado em relação a isso. Uma pessoa que entrou (em prioridade) para tomar uma vacina, porque foi chamada para isso e porque estava dentro do planejamento do Estado, não pode ser criticada. Quem deve ser chamado a atenção é o Estado ou município que estabeleceram essas regras. Eu sei que é difícil. Não são equações simples. E não são simples exatamente porque não temos a totalidade das vacinas. Por isso que é necessário usar a racionalidade na distribuição e na aplicação das vacinas.

JC - Dias difíceis...

ANA BRITO - Eu diria que a gente está vivendo, talvez, o pior momento da pandemia. Assistimos a este aumento de casos nas últimas semanas. E espero não ter razão, mas, dentro de duas semanas, teremos quadros de colapso da nossa rede de assistência terciária (hospitais), porque os casos graves começarão a pressionar o uso de leitos de retaguarda. Por isso, a luta dos brasileiros tem que ser por vacina já. Temos competência para aplicá-las. Não podemos perder a esperança, pois o mundo tem vacina, e a gente pode tê-la, venha de onde vier.

 

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