Pandemia

Diretor da Opas cita desigualdade na vacinação contra covid-19 e cobra cuidados: a guerra não está vencida

A desigualdade nos números da vacinação contra a covid-19 preocupa a comunidade científica para uma nova onda de transmissão do coronavírus

Cássio Oliveira
Cássio Oliveira
Publicado em 16/09/2021 às 11:20
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Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Desigualdade no acesso marca a América Latina, que sofre com avanço da Delta - FOTO: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
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A desigualdade nos números da vacinação contra a covid-19 preocupa a comunidade científica para uma nova onda de transmissão do coronavírus. Esse problema atinge, também, os países da América Latina: enquanto o Chile já iniciou a aplicação da terceira dose da vacina contra a doença na população idosa, o Haiti completou a imunização de apenas 341 pessoas. Este foi o número de vacinas da Janssen, de dose única, que chegaram ao país mais pobre das Américas, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Os dados da Opas indicam que o Haiti aplicou, até o momento, 14 mil doses, para uma população de 11,5 milhões de pessoas.

Jarbas Barbosa, diretor-assistente da Opas, afirma que a diferença entre os países na capacidade de comprar vacinas é grande. Em entrevista à Rádio Jornal, nesta quinta-feira (16), ele destacou que o número de casos e óbitos por covid-19 apresentou queda nas últimas semanas, mas reforça que é preciso manter os cuidados.

"Não é seguro dizer quando volta ao normal. Ainda temos transmissão no mundo. Felizmente na América do Sul inteira, no Brasil, nas últimas semanas diminuiu o número de casos e mortes, e isso é atribuído ao avanço na vacinação, que cresce. Mas, do ponto de vista global, nos países pobres, a vacinação avança muito lentamente. Isso combinado com a disseminação de variantes que transmitem com mais força, como a Delta, pode fazer com que novas ondas de transmissão aconteçam, o que nos permite pensar que até alcançar consistência levaremos alguns meses. Então, é importante manter cuidados", disse o cientista. 

A maioria dos países da América do Sul vê declínio no número de casos e mortes por covid-19. O movimento, no entanto, vai na contramão das Américas, que registraram um aumento de quase 20% em novo casos da doença.

América Latina 

Entre os 20 países que integram a América Latina, os que mais vacinaram contra a covid-19 foram o Uruguai, com 143,3 doses a cada 100 pessoas; o Chile, com 139,08; a República Dominicana, com 97,54; e Cuba, com 97,13. Os dados são do Our World in Data, algo como Nosso Mundo em Dados, em português, um projeto do Global Change Data Lab, uma organização sem fins lucrativos com sede no Reino Unido.

A organização explica que a soma corresponde à soma de doses de vacina aplicadas em cada país. Como a maioria das vacinas exige duas doses para completar a imunização contra o Sars-CoV-2, o total pode superar o número de habitantes. Nessa análise, o Brasil aparece em nono lugar na América Latina, com 75,3 doses aplicadas a cada 100 habitantes. Na ponta de baixo da vacinação na região aparecem, além do Haiti, a Nicarágua, com 13,88 doses a cada 100 habitantes, Honduras (28,33) e o Paraguai, que aplicou 31,04 doses para cada 100 habitantes.

Na análise do percentual da população que está completamente vacinada, o Uruguai também lidera, com 68,32%, seguido do Chile (67,44%) e da República Dominicana (40,83%). O Brasil vem em oitavo, com 22,66% da população com o esquema vacinal completo. O Haiti não conseguiu imunizar nem 0,1% da sua população, a Guatemala está em 2,26% e o Paraguai em 4,02%.

Quando se analisa em números absolutos, o Brasil, que tem a maior população da América Latina, lidera com 48,16 milhões de pessoas completamente imunizadas, seguido do México (28,38 milhões) e da Colômbia (13,4 milhões).

Jarbas Barbosa explica a importância da diminuição de casos no Brasil para o mundo. "Coma a diminuição de casos e mortes no Brasil, a preocupação com o país diminui. O Brasil, um país desse tamanho, com mais de 200 milhões de habitantes, se a pandemia seguisse descontrolada, seria maior a chance de novas variantes de preocupação, que produzem mudança de comportamento do vírus. Então, é bom bom a redução, mas alerto não significa que a guerra está vencida, não pode relaxar e considerar que a pandemia foi embora, porque não foi", disse.

Fiocruz

O último informe quinzenal sobre Saúde Global e Diplomacia da Saúde do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), indica que a região completou o esquema vacinal em cerca de 15% da sua população, o que leva a um aumento no número de casos da doença.

“Na Costa Rica, onde quase uma em cada três pessoas está vacinada, o número de casos Covid-19 está em queda. Os países sul-americanos com as maiores taxas de vacinação – como Uruguai, Chile e Argentina – estão relatando quedas muito acentuadas no número de casos. O mesmo ocorre no Canadá e na maior parte dos Estados Unidos. Os estados dos Estados Unidos onde há aumento de casos apresentam as menores taxas de vacinação, demonstrando a importância das vacinas no controle da disseminação do vírus”, alerta o boletim.

Só na América do Sul, o site Worldometers aponta um total de 36,17 milhões de casos e 1,1 milhão de mortes. O Brasil responde por mais da metade desses totais,tendo pouco menos da metade da população da região.

Na América Central, o boletim do Cris-Fiocruz aponta aumento no número de casos. “O aumento no número de casos de Covid-19 está acelerando na maioria dos países da América Central, e altos números de casos e hospitalizações estão sendo relatados na Guatemala. Na vizinha Honduras, há um aumento no número de casos de Covid-19 nos estados ao longo da fronteira”, diz o informe.

Os dados do Our World in Data mostram que, no México, 86% dos casos registrados nas últimas duas semanas. No Equador, chegam a 40%; no Brasil, a 36%; e no Chile, a 4%. O site não tem dados de vigilância genômica dos outros países da América Latina.

Com Agência Brasil

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