COLUNA JC SAÚDE E BEM-ESTAR

É inaceitável: em cidades com piores condições de saneamento, como o Recife, milhares ainda adoecem sem acesso à água tratada

Sem investimento em saneamento, dificilmente teremos avanços na saúde pública e continuaremos com a perpetuação de várias doenças agravadas em cidades insalubres.

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 25/03/2022 às 20:59
GUGA MATOS/JC IMAGEM
Alagamentos e falta de saneamento em comunidades de Jaboatão dos Guararapes e do Recife - FOTO: GUGA MATOS/JC IMAGEM
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Num momento em que a ciência e a tecnologia avançam, milhares de pessoas ainda ficam doentes devido à falta de acesso ao saneamento básico no Brasil. É inacreditável; inaceitável. Por outro lado, investir em abastecimento de água, esgotamento sanitário e limpeza urbana traz um avanço imenso para a melhoria de vida da população. Infelizmente o retrato do saneamento básico, feito pelo Instituto Trata Brasil, realizado com dados do Ministério do Desenvolvimento Regional, revela que 20 cidades (entre elas, a capital pernambucana e Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife) estão mal quando avaliados os indicadores de saneamento básico. São municípios que não quitam a dívida antiga com o saneamento e a situação de saúde, especialmente em comunidades que vivem em situação de vulnerabilidade social.

E essa é uma aflição antiga. O livro Saneamento do Brasil, do médico sanitarista Belisário Penna, publicado em 1918, teve como marca o destaque para as doenças e a falta de saneamento. Foi Penna que trouxe à tona o diagnóstico de que o Brasil era um grande sertão, assolado por doenças, o que o levou a fazer críticas duras ao poder público e a dar luz ao movimento Liga Pró-Saneamento, fundado em 1918, um ano após a morte do médico cientista Oswaldo Cruz. Ao ser eleito prefeito de Petrópolis, Oswaldo Cruz preparou um plano de governo que incluía, entre outras metas, a construção de rede de esgotos e a organização dos serviços sanitários da cidade.

Mas anos se passaram, e a lição do pioneiro no estudo das doenças tropicais não tem sido colocada em prática. Por quê? Faltam planejamento, formulação de leis e execução de ações de longo prazo. É preciso uma intersecção continuada entre as esferas municipal, estadual e federal, por gestões consecutivas, para combater a desigualdade do saneamento básico.

Quantas famílias vivem à beira de um córrego, local para onde vai a água suja do banheiro? Em quantas casas não chegam água encanada? Em quantas ruas correm o esgoto a céu aberto? Sim, infelizmente esses cenários são uma realidade. E o quanto se investe na solução dos problemas de saneamento? Muito pouco, e é o próprio estudo do Instituto Trata Brasil que revela isso. Os municípios em melhor posição no ranking investiram cerca de R$ 135 por habitante em saneamento básico.

De outro lado, nas cidades com piores condições, a média foi de R$ 48. É até incompreensível ver que as políticas públicas de saneamento não têm, nessas localidades, prioridade. Deixar de aplicar recursos nessa área é colocar de lado o investimento no bem-estar e na qualidade de vida das pessoas. Afinal, não restam dúvidas de que saneamento básico está relacionado diretamente com a saúde da população. Cidades com piores condições de saneamento tendem a gastar bem mais recursos com a saúde, a fim de tratar doenças que não estariam no nosso mapa se houvesse aplicação adequada de verba em saneamento.

Um outro levantamento do Instituto Trata Brasil revelou que, em 2019, foram 273 mil internações e 2.734 mortes provocadas por doenças de veiculação hídrica. Entre elas, diarreias, malária, hepatites, cólera, esquistossomose e as arboviroses, que incidem de forma intensa ano após ano por aqui no nosso Estado. Nem precisamos voltar muito no tempo para ver, em Pernambuco, a carga da chicungunha, responsável por epidemia em 2021, sem falar nos surtos anteriores.

Este ano, a dengue já mostra subida nos gráficos epidemiológicos. Se isso tem relação com a precariedade do saneamento básico? Com certeza. O mosquito Aedes aegypti precisa de água parada (limpa ou suja) para se reproduzir. Por isso, um local onde não há acesso à coleta de esgoto serve de criadouro do mosquito e está em maior risco de ter surtos das infecções causadas pelo Aedes: zika, dengue e chicungunha.

Dessa maneira, os governantes não podem mais deixar em segundo plano projetos e soluções para melhorar o acesso da população à água potável, coleta e tratamento de esgotos. Sem isso, dificilmente teremos avanços na saúde pública e continuaremos com a perpetuação de várias doenças agravadas, gestão após gestão, em cidades insalubres.

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