COLUNA JC SAÚDE E BEM-ESTAR

Com mais casos e nova subvariante em Pernambuco, estamos diante de nova onda da covid-19? Veja o que diz o secretário de Saúde

Para André Longo, a circulação de novas variantes, associada a um período de chuvas intensas e prolongadas, nos colocam em alerta

Cinthya Leite
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Cinthya Leite
Publicado em 14/06/2022 às 13:32 | Atualizado em 14/06/2022 às 13:49
MIVA FILHO/SES
"Ainda temos um grupo de cerca de 180 mil idosos que precisa tomar o primeiro reforço da vacina contra covid-19", diz André Longo - FOTO: MIVA FILHO/SES
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Após alguns meses com redução nos indicadores da covid-19 (casos, hospitalizações e mortes), Pernambuco começa a seguir o cenário epidemiológico que toma conta do Brasil. Com o fim das restrições, da obrigatoriedade do uso de máscara e do retorno às atividades, o Estado volta a confirmar mais casos de covid-19, diante da circulação da nova subvariante BA.4 da ômicron, e a apresentar uma subida na positividade dos testes. Para entendermos o retrato do atual momento da pandemia no Estado, conversei com o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo. Nesta entrevista, ele reconhece a subida de casos leves da doença, fala sobre a testagem e assistência aos pacientes, além de destacar o papel importante da vacinação para conter uma nova onda.

JC: O Brasil registra um incremento importante de casos de covid e mortes relacionadas à doença. Por enquanto, em Pernambuco, observamos um aumento especialmente de casos leves, mas os registros de síndrome respiratória aguda grave (srag) também têm subido. O senhor acredita que esta nova onda seguirá um mesmo caminho em Pernambuco?

ANDRÉ LONGO: O Governo de Pernambuco continua monitorando, de forma permanentemente e criteriosa, a evolução do cenário epidemiológico da covid-19. Ainda não registramos mudança de padrão nos registros de srag positivos para a covid-19. O aumento dos casos de srag é causado por outros vírus, que têm tido grande repercussão, especialmente entre as crianças. O que observamos, nos últimos dias, é um aumento nos casos leves da covid-19 e também da positividade, mas ainda sem maiores repercussões sobre os casos graves e, consequentemente, sobre a rede hospitalar. Isso, faço questão de lembrar, é fruto da vacinação. E, como sempre reforçamos, o impacto de uma nova onda será proporcional aos nossos bolsões de pessoas que não estão corretamente vacinadas. Quando olhamos para os locais que já passaram por esta nova onda de contaminação, como é o caso da Europa, as perspectivas são promissoras. No entanto, a circulação de novas variantes, associada a um período de chuvas intensas e prolongadas, nos colocam em alerta. 

JC: O comportamento individual, então, faz a diferença na coletividade...

ANDRÉ LONGO: A atitude de cada um de nós continua sendo fundamental. Um ensinamento que a covid-19 nos deixou é que não podemos baixar a guarda. Infelizmente, temos visto pessoas com sintomas gripais leves circulando pelos locais como se não houvesse riscos. Assim, é sempre válido lembrar que, ao menor e mais leve sinal de gripe, é necessário procurar a testagem (e temos reforçado os estoques dos municípios), fazer o isolamento e usar a máscara.

JC: O Estado já tem 75% das unidades de terapia intensiva (UTIs) públicas ocupadas com os casos de srag. Há algum planejamento para reativar vagas que já foram desmobilizadas?

ANDRÉ LONGO: O aumento na taxa de ocupação das vagas destinadas aos casos de srag, nas últimas semanas em Pernambuco, está diretamente relacionado ao crescimento de quadros respiratórios nas crianças. Mesmo já possuindo a maior rede infantil para casos de srag entre os Estados do Norte e Nordeste, Pernambuco está vivenciando uma aceleração de casos de vírus sincicial respiratório (VSR) como nunca se viu antes em nossa história. Para que você tenha ideia, o número de solicitações por vagas de UTI para crianças superou, em maio, pela primeira vez, o número de solicitações para adultos.

JC: E como está a ocupação das vagas para pacientes adultos? 

ANDRÉ LONGO: A taxa de ocupação dos leitos para as outras faixas etárias permanece em estabilidade. Nesse sentido, é importante ressaltar que os dados de ocupação também sofrem interferência da redução no número de leitos, já que muitas vagas foram reconvertidas para o atendimento de outras doenças. Como exemplo, em 23 de março deste ano, Pernambuco contava com 997 leitos de UTI e havia o registro de 435 pacientes internados (ocupação de 44%). Hoje, temos 673 leitos (redução de 33% na oferta) e temos 489 pacientes internados – um aumento de 12%, motivado, principalmente, pela alta nos registros pediátricos, mas que representa uma taxa de ocupação de 74%.

JC: Qual o diagnóstico desses pacientes internados? Não é covid? 

ANDRÉ LONGO: É preciso reforçar que, mesmo com um aumento da positividade, a maioria dos pacientes internados nos leitos de srag da nossa rede, não está com covid-19. Muitos, na verdade, deram entrada com quadro sugestivo de srag, mas acabam tendo desfecho de outros diagnósticos, que vão de neoplasias até a doença pulmonar obstrutiva crônica, entre outros. Levantamento que realizamos hoje (dia 13 de junho) com 307 pacientes em leitos de UTI adulto, destinados para srag na rede pública, apontou que apenas 15 (4,8%) têm diagnóstico de infecção pelo coronavírus. Por isso, com esse aumento de positividade e a remodelagem da rede de assistência, os leitos adulto de referência para covid-19 adulto terão, a partir de agora, critérios rígidos para acesso, como exame positivo para a doença ou quadro clínico extremamente sugestivo. Nosso objetivo é não expor, ao vírus, os pacientes que não estão contaminados, além de melhor ordenar a rede de assistência. 

JC: No cenário atual, o antigo Hospital Alfa, que é referência para casos de covid, continua em franca desmobilização para atender outras doenças? 

ANDRÉ LONGO: Esperamos não precisar mais expandir a rede para a covid em adultos. Mas, como disse no início, continuamos monitorando o cenário e, caso seja necessário, iremos mobilizar novas vagas em unidades parceiras do SUS em Pernambuco, como já fizemos anteriormente. Sobre o antigo Hospital Alfa, em Boa Viagem, com o crescimento da ocorrência de outras doenças (além da covid), pressionando a rede hospitalar, a unidade continuará mobilizada, exercendo um papel relevante na rede estadual, mas com um perfil assistencial modificado, atuando como espelho para o Hospital da Restauração. No último sábado (11), já foi publicado o processo de contratação emergencial para a unidade, que deve ser assinado nos próximos dias. Assim, ainda esta semana, esperamos já iniciar a operação do Alfa com seu novo perfil. 

JC: Em Pernambuco, há um grupo expressivo sem o esquema vacinal completo (três doses). Como isso pode impactar, no Estado, na intensidade da nova onda, muito associada a subvariantes da ômicron?

ANDRÉ LONGO: Precisamos manter alta a taxa de titulação de anticorpos contra a covid-19 para evitar formas graves e óbitos pela doença. E essa proteção só é mantida com a aplicação das doses de reforço, já que as vacinas utilizadas atualmente têm um tempo de duração determinado. Não tomar ou atrasar as terceiras e quartas doses pode impactar o aumento de casos da covid-19, pressionando novamente a rede de saúde. Nossa principal preocupação hoje é com os grupos mais suscetíveis ao agravamento pela doença, especialmente os idosos, cuja resposta às vacinas é impactada pela imunossenescência (alterações imunológicas observadas no envelhecimento). Atualmente, temos uma cobertura da terceira dose de 86,7% na faixa acima de 70 anos e de 83% entre 60 e 69. Portanto, ainda temos um grupo de cerca de 180 mil idosos que precisa tomar o primeiro reforço. E os que já tomaram esta terceira dose precisam estar atentos para tomar a segunda dose de reforço, assim que completarem quatro meses da dose anterior.

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