INSEGURANÇA | Notícia

No Brasil, 23,5 milhões vivem em áreas com presença de facções ou milícias

Pesquisa revelou que 10 milhões de pessoas tiveram parente ou conhecido que desapareceu nos últimos 12 meses, por causa do crime organizado

Por Raphael Guerra Publicado em 02/09/2024 às 14:33

Um levantamento encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) demonstra o impacto do avanço do crime organizado no País. Ao menos 23,5 milhões de pessoas acima de 16 anos vivem em áreas com forte presença de facções criminosas ou milícias. 

A estimativa tem como base a Pesquisa de Vitimização e Percepção Sobre Violência e Segurança Pública, a partir de dados coletados pelo Instituto Datafolha. O estudo indicou ainda que 14 milhões de pessoas reconhecem a existência de cemitérios clandestinos em suas cidades, enquanto outros 10 milhões tiveram um parente ou um conhecido que desapareceu ao longo dos últimos 12 meses.

"Esses dados demonstram o impacto da presença do crime organizado no dia a dia dos brasileiros, sobretudo nas grandes cidades, o que têm despertado atenção maior de jovens e adultos da faixa etária entre 16 e 24 anos", afirmou Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Segundo ele, essa percepção também ocorre em cidades do interior que se transformaram em pontos estratégicos da cadeia de distribuição de drogas e outros negócios ilícitos das duas principais facções criminosas do País - Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho.

"O Estado brasileiro está diante de um imenso desafio, que passa pela retomada do controle sobre territórios, a identificação do caminho percorrido pelo dinheiro desses grupos nacionais e transnacionais e também pelo controle de produtos do crime a partir do rastreamento de mercadorias utilizadas para lavagem de recursos", disse. 

A Secretaria Nacional de Segurança Pública prepara um projeto-piloto para retomada de territórios que estão sob domínio do crime organizado. Ainda não há prazo para o início da execução, mas a promessa é de que a região Nordeste seja a primeira a receber o investimento de combate à violência. 

Estima-se que há ao menos 88 facções criminosas no Brasil, segundo mapeamento atualizado da Secretaria Nacional de Políticas Penais. No Nordeste há atuação de 53 dessas organizações. 

O diretor-presidente do FBSP destacou que é importante avaliar uma correlação entre os dados de cemitérios clandestinos e pessoas desaparecidas, percebidos por 8,5% e 6,2% dos entrevistados pelo Datafolha, respectivamente.

"A existência de cemitérios clandestinos está, muito provavelmente, correlacionada ao número de pessoas desaparecidas e à presença de facções e milícias nos territórios. Isso traz um problema grande para as autoridades públicas, que apostam em uma queda do número de homicídios, quando na verdade os dados podem estar sendo mascarados por desaparecimentos forçados, ou seja, pessoas que são retiradas de seu convívio familiar pelo acerto de contas com o crime organizado ou outras situações", avaliou. 

Vigilância privada

A pesquisa, que ouviu 2.045 pessoas em 145 municípios do País, entre os dias 11 e 17 de junho, também abordou outros temas, como vigilância privada. 

O levantamento aponta que 18% dos entrevistados, ou cerca de 30 milhões de pessoas, vivem em bairros que contam com a oferta de serviços de vigilância privada prestados por policiais de folga.

A prestação desse tipo de serviço é maior entre os entrevistados que ganham mais de 10 salários mínimos (28,4% do total) e menor entre aqueles que ganham até dois salários mínimos (16,2%).

Os dados também mostram que a presença de policiais prestando serviços de vigilância privada no horário de folga aumenta em 45% a chance de a pessoa presenciar ou ser vítima de violência policial.

"A participação de agentes públicos na gestão de empresas de segurança ou na prestação direta de serviços de proteção é proibida pelas organizações policiais brasileiras. Entretanto, é um fenômeno disseminado", aponta o pesquisador Cléber Lopes, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Governança da Segurança (LEGS).

"Eles podem prestar serviços sem grandes riscos trabalhistas, afinal, a ilegalidade do bico inibe a busca por direitos trabalhistas. Além disso, oferecem recursos que não estão disponíveis às suas contrapartes privadas (os vigilantes), como o porte de arma, o treinamento, o contato privilegiado com outros policiais e o poder legal para impor a lei. São vistos como portadores de soluções 'mágicas' para problemas de segurança", disse. 

Compartilhe