SISTEMA PRISIONAL | Notícia

Operação prende ex-diretor do Presídio de Igarassu e policiais penais por corrupção e outros crimes

Nove mandados de prisão estão sendo cumpridos nesta terça-feira (25). Polícia Federal diz que grupo promovia crimes de tráfico de drogas na unidade

Por Raphael Guerra Publicado em 25/02/2025 às 9:32

Uma operação da Polícia Federal prendeu um ex-diretor do Presídio de Igarassu e policiais penais suspeitos de integrar uma organização criminosa que atuava no tráfico de drogas e na prática de outros crimes na unidade prisional que fica no Grande Recife. Nove mandados de prisão preventiva, sendo oito contra policiais penais, estão sendo cumpridos nesta terça-feira (25). 

A Operação La Catedral, como foi denominada, é resultado de uma investigação iniciada após a identificação de um detento que comandava crimes na unidade, contando com o apoio de servidores do sistema prisional.

"Durante as apurações, foram constatados atos de corrupção passiva praticados por policiais penais, além de acessos indevidos a sistemas internos para favorecer detentos", informou a Polícia Federal, em nota oficial. 

A investigação indicou que policiais penais recebiam propina, como joias, refeições e até celulares, em troca de benefícios aos presos de Igarassu.

As prisões foram determinadas pelo juiz José Romero Maciel de Aquino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). Um dos alvos é Charles Belarmino de Queiroz, que atuou até o final do ano passado como diretor do Presídio de Igarassu e que foi exonerado após denúncias de irregularidades na unidade. 

Outro alvo é Lyferson Barbosa da Silva, que foi condenado em 2016 por participação no assassinato do médico Artur Eugênio de Azevedo, de 35 anos. A acusação aponta que Lyferson foi contratado para executar a vítima. O crime ocorreu em 12 de maio de 2014, em Jaboatão dos Guararapes. 

No ano passado, Lyferson foi transferido para a Penitenciária Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, por decisão da Vara Única da Comarca de Rio Formoso, na Mata Sul de Pernambuco.

Na ocasião, a Justiça alegou a necessidade do regime diferenciado porque, segundo o Ministério Público, o criminoso continuava dando ordens à organização criminosa liderada por ele, por meio de celulares.

Um diálogo descoberto em investigação, em 2023, apontou que Lyferson teria ordenado a um comparsa que realizassem ataques a repartições públicas, como o Detran, escolas e até hospital, além de "incendiar veículos e assassinar pessoas inocentes".

O grupo estaria insatisfeito com decisões tomadas pela cúpula da segurança pública estadual e, por isso, teria arquitetado os atos na tentativa de derrubá-la. 

Na operação desta terça, também foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão, dois afastamentos de função e o sequestro de bens dos investigados nas cidades do Recife, Paulista, Goiana, Carpina, Abreu e Lima, Itapissuma (todas em Pernambuco) e em Campo Grande (para cumprimento da preventiva de Lyferson).

DIVULGAÇÃO
Operação da Polícia Federal combate a corrupção e tráfico de drogas no Presídio de Igarassu - DIVULGAÇÃO

CRIMES ATRIBUÍDOS AOS SUSPEITOS

Os investigados devem responder pelos crimes de:

tráfico e associação para o tráfico de drogas;

lavagem de dinheiro;

corrupção;

prevaricação;

promoção ou facilitação de ingresso de aparelho telefônico em presídio;

participação em organização criminosa.

Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização de Pernambuco (SEAP) afirmou que "não compactua com quaisquer atos ilícitos dentro do sistema prisional de Pernambuco, bem como desvios de conduta por parte de seus servidores".

A pasta disse ainda que tem o compromisso de combater a criminalidade nos estabelecimentos penais. E destacou que, na gestão atual, foram implementadas medidas estratégicas e técnicas como "mudanças nas gerências prisionais, criação da ouvidoria penal e fortalecimento da Comissão de Sindicância".

PRESOS DENUNCIARAM CORRUPÇÃO DURANTE INSPEÇÃO DO TJPE

O Presídio de Igarassu é, atualmente, o mais precário e superlotado de Pernambuco - posto que, dois anos antes, pertencia ao Complexo Prisional do Curado, localizado na Zona Oeste do Recife. A unidade conta com mais de 5 mil presos, mas só tem capacidade para aproximadamente 1,2 mil. 

Em agosto do ano passado, durante inspeção do Conselho da Comunidade da 1ª Vara Regional de Execução Penal do Estado no Presídio de Igarassu, presos denunciam irregularidades - inclusive esquema de corrupção envolvendo servidores públicos. 

"Dentre as principais violações, foram constatadas agressões e violências físicas constantes cometidas pelas próprias pessoas privadas de liberdade que são indicadas como responsáveis por atividades de gestão, como 'chaveiros', 'gatos', 'auxiliares de chaveiros'", descreveu relatório obtido pela coluna Segurança

"São diversos relatos encontrados apontando corrupção de agentes públicos na unidade e ações abusivas por parte dos próprios presos na condição de 'chaveiros' ou 'representantes de pavilhão'", disse outro trecho do documento. 

SINDICATO DOS POLICIAIS PENAIS SE PRONUNCIA

Em nota, o Sindicato dos Policiais Penais de Pernambuco afirmou que acompanha os desdobramentos da operação.

"Reiteramos nosso compromisso com a legalidade, a ética e a defesa dos direitos fundamentais, destacando que todo cidadão tem direito à presunção de inocência, conforme previsto na Constituição Federal. Aguardamos o devido processo legal, com a ampla defesa e o contraditório, para que os fatos sejam devidamente esclarecidos", disse o texto. 

O sindicato reforçou, na nota, que "não compactua com qualquer conduta que possa configurar desvio de função ou prática criminosa".

"Nosso papel é representar e defender os interesses da categoria dentro dos princípios da legalidade e da moralidade pública. O sindicato já enviou seu departamento jurídico para acompanhar de perto o desdobramento dos fatos, garantindo que os direitos dos policiais penais envolvidos sejam preservados e que a verdade seja devidamente esclarecida", pontuou. 

 

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