Tecnologia e Inovação, com Guilherme Ravache

Tecnologia e Inovação

Por Guilherme Ravache
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OPINIÃO

A genialidade está na diferença, mas é preciso lutar contra o universo, ensina Jeff Bezos

Em sua carta de despedida da Amazon, Bezos discute porque lutar contra a normalidade é essencial, mesmo tendo de ir contra tudo e todos

Guilherme Ravache
Guilherme Ravache
Publicado em 27/04/2021 às 12:00
Notícia
AFP
Jeff Bezos é o dono da Amazon - FOTO: AFP
Leitura:

Jeff Bezos é um fenômeno. Além de ser o homem mais rico do mundo, o criador da Amazon também é um dos melhores escritores de negócios e auto-ajuda do mundo. Os ensinamentos do empresário chegam por meio de suas cartas anuais para os investidores da Amazon.

Em fevereiro, Bezos anunciou que deixaria o posto de CEO da companhia. Ele fundou a Amazon em 1994 e esteve 27 anos à frente da gigante de comércio que hoje vale mais de US$ 1,7 trilhão.

Desde 1997 Bezos publica sua carta aos investidores. A de 2021 foi sua última. O executivo falou sobre “criar mais do que consome”, discutiu questões trabalhistas da Amazon e como precisam melhorar neste sentido, o impacto da empresa do clima, e no final, ressaltou sua constante luta contra a normalidade.

Lutar contra ser normal pode parecer estranho. Afinal, boa parte dos nossos esforços é para se “encaixar” na sociedade. Desde a escola somos ensinados a seguir padrões. Nos ensinam que ser criativo ou diferente é difícil. Mas se Bezos fala, vale escutar. E a lógica dele é poderosa.

Lição de biologia

Bezos abre a conversa apontando uma passagem do livro O Relojoeiro Cego, de Richard Dawkins. É sobre um fato básico da biologia:

“Escapar à morte é coisa trabalhosa. Abandonado a si mesmo - como acontece quando morre -, o corpo tende a regressar a um estado de equilíbrio com seu ambiente. Se medirmos a temperatura, a acidez, a porcentagem de água ou o potencial elétrico de um corpo vivo, constataremos que diferem marcadamente das medidas correspondentes a seu redor. Nosso corpo, por exemplo, costuma ser mais quente que o ambiente, e em climas frios o organismo tem de se esforçar para manter esse diferencial.

Quando morremos, esse esforço cessa, o diferencial de temperatura começa a desaparecer e terminamos com a temperatura ambiente. Nem todos os animais se esforçam tanto para evitar o equilíbrio com a temperatura ambiente, mas todos os animais fazem algum esforço comparável. Por exemplo: numa região seca, animais e plantas lutam para conservar o conteúdo fluido de suas células, isto é, lutam contra a tendência natural da água a fluir de dentro deles para o mundo exterior seco. Quando não conseguem, eles morrem. De modo mais geral, se os seres vivos não se esforçassem para evitá-lo, todos acabariam por se fundir em seu ambiente e deixariam de existir como seres autônomos. É o que acontece quando morrem.”

Segundo Bezos, “embora a passagem não pretenda ser uma metáfora, é fantástica e muito relevante para a Amazon. Eu diria que é relevante para todas as empresas e todas as instituições e para cada uma de nossas vidas individuais também. De que forma o mundo o atrai na tentativa de torná-lo normal? Quanto trabalho é necessário para manter sua distinção? Para manter viva a coisa ou as coisas que o tornam especial?”

É isso, o universo à nossa volta trabalha para nos tornar normais. Mas no momento em que você se torna normal, é absorvido pelo ambiente que o cerca. Você morre.

Bezos cita o exemplo de um casal que conhece em que o marido, brincando, sempre pergunta à mulher porque ela não pode ser mais normal. Mesmo no fundo sabendo que é o fato dela ser diferente que a torna especial.

E aqui traduzo alguns trechos da carta de Bezos, que escreve muito melhor do que eu:

“Este fenômeno ocorre em todos os níveis da escala. As democracias não são normais. A tirania é a norma histórica. Se parássemos de fazer todo o trabalho árduo contínuo necessário para manter nossa distinção a esse respeito, rapidamente entraríamos em equilíbrio com a tirania”.

“Todos nós sabemos que a distinção - originalidade - é valiosa. Todos nós somos ensinados a ‘ser você mesmo’. O que realmente estou pedindo que você faça é aceitar e ser realista sobre quanta energia é necessária para manter essa distinção. O mundo quer que você seja típico - de mil maneiras, isso atrai você. Não deixe isso acontecer”.

“Você tem que pagar um preço por sua distinção e vale a pena. A versão do conto de fadas de ‘seja você mesmo’ é que toda a dor para assim que você permite que sua distinção brilhe. Essa versão é enganosa. Ser você mesmo vale a pena, mas não espere que seja fácil ou grátis. Você terá que colocar energia continuamente.

Ou seja, a distinção não vem de graça, tem um custo e é alto. É uma luta constante contra o universo. Mas também é sinal que você está vivo. E quanto maior a luta, mais vida há em você.

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