NEGÓCIOS

Coronavírus: empresas de tecnologia conseguem manter desenvolvimento e gerar empregos

Demanda por digitalização e serviços remotos levam empresas de TI até mesmo ao aumento dos serviços em meio à pandemia da covid019

Lucas Moraes
Lucas Moraes
Publicado em 10/05/2020 às 2:51
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Foto: Instagram/Porto Digital
Porto Digital prepara levantamento sobre situação das empresas durante a pandemia - FOTO: Foto: Instagram/Porto Digital
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A condição de perdas imposta pela pandemia do novo coronavírus aos negócios tradicionais também atinge o setor de tecnologia, mas de uma forma menos devastadora. Com a covid-19, governos tiveram de adotar o isolamento social, restringindo circulação das pessoas e manutenção dos padrões normais das atividades econômicas. No mercado pernambucano de Tecnologia da Informação, os impactos dessa nova realidade têm se restringido a uma espécie de efeito dominó. Aquelas empresas que atuam na criação de soluções específicas para setores que, neste momento, estão mais fragilizados sentem uma queda na receita, mas ainda assim veem possibilidade de adaptar sua vertical de atuação. De forma geral, mesmo esses casos têm sido tratados como exceção, já que o setor até então vive um momento de “estabilidade”, sem previsões de demissões em massa e, em alguns casos, ampliação dos negócios e novas contratações.

Quando, no início do mês de abril, em todo o País, empresários se viam às voltas pensando em como manter as suas atividades de forma remota, os funcionários da Midiavox- empresa pernambucana especializada em telefonia computadorizada - já possuíam notebooks para uso individual, e o home office não se tratava de algo tão novo assim.

“Somos um setor muito mais fácil de se adaptar a essa ‘nova regra’. Na maioria das vezes, um computador e boa internet são suficientes para que você consiga trabalhar naquilo que fazia antes. Todos os nossos funcionários da área de desenvolvimento já trabalhavam com notebooks, e muitos já tinham prática de fazer home office. O que aconteceu é que passamos de uma condição opcional para algo, digamos, permanente”, explica o sócio e diretor da Midiavox, Alcides Pires.

A facilidade de adaptação, seja no ambiente de trabalho ou no modelo de negócio, tem garantido um sobressalto em meio a mais essa crise. “No nosso caso, especificamente, trabalhamos numa vertical de atendimento remoto. Nossos clientes são grandes call centers. O que aconteceu é que, seguindo um caminho contrário, a demanda pelos nossos serviços aumentou. Para ser bem preciso, dos 40 projetos que estamos tocando, só um cliente pediu para postergar a implantação. Esse cliente é da Inglaterra, estava sem condições de fazer os testes locais necessários”, explica Pires. Na empresa, há expectativa de ainda neste primeiro semestre aumentar o quadro de funcionários em até 30%.

Embora o discurso pareça alheio à realidade, já que segmentos como indústria, comércio e alguns serviços amargam perdas, a travessia desta pandemia tem sido mais sutil, tratando-se do universo econômico, para os empresários de TI. “O nosso mercado realmente é uma área diferenciada neste momento. Todo mundo consegue manter as empresas funcionando, só está sendo afetado na nossa área quem trabalha numa vertical que já vem sendo afetada. Por exemplo, uma empresa que desenvolve software exclusivo para o comércio (que está em sua maioria fechado) obviamente tem uma queda brusca de receita, mas ainda assim essa empresa consegue remodelar e passar a ofertar novas soluções como o e-commerce”, avalia o presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação de Pernambuco (Assespro-PE), Rodrigo Vasconcelos.

Segundo ele, desde o início da pandemia, as empresas de tecnologia não têm relatado mudanças bruscas no quadro de funcionários, seja por demissões ou adoção das medidas propostas pelo governo federal para suspensão de contratos ou redução de carga horária e jornada. “No geral, estamos considerando o setor estável, e algumas verticais estão até aumentando. Não temos notícia ainda de queda muito forte da demanda, nem demissão. Poucas empresas estão trabalhando com a redução de jornada e algumas, até, estão na contramão”, garante Vasconcelos.

Números

Um levantamento mais consolidado está reunindo pelo menos cerca de um terço do total de empresas instaladas no parque tecnológico do Estado. O Porto Digital pretende trazer mais detalhes sobre as condições de mercado vivenciadas pelas empresas de tecnologia durante a pandemia. Estão sendo levantados dados referentes a demissões, demanda por mão de obra, expectativa sobre faturamento e uso das medidas de apoio à economia anunciadas pelo poder público.

A previsão é de que os resultados locais sejam divulgados nesta semana, mas permanecendo o mesmo panorama, os número devem seguir a tendência apontada pela Wayra - braço da Telefônica para escalonar startups. Ouvindo 500 negócios em nove países, incluindo o Brasil. Segundo o estudo, mais de 80% das startups não têm planos de demitir colaboradores e apenas 9% estão apostando na redução de horas como forma de superar a crise. Negócios ligados a setores como viagens, varejo, serviços para a casa e aqueles que precisam fechar negócios ao vivo estão mais receosos com as perdas.

Em geral, a maior preocupação é a queda nas vendas (43%), seguida pela suspensão de pagamentos (17%) e a perda de clientes (11%). Uma em cada quatro startups consideram que a crise trouxe impactos positivos aos negócios. Os setores mais beneficiados são edtechs (educação); healthtechs (saúde); fintechs (finanças) e telecomunicações.

Demanda por crédito

Um ponto em comum que os negócios tecnológicos estão tendo com o mercado tradicional diz respeito às dificuldades de acesso ao crédito. Seja para ampliação ou recuperação dos negócios, para o segmento de TI, essa realidade já era enfrentada há um bom tempo, mas tem se agravado durante a pandemia da covid-19.
O quadro mais crítico se revela em pequenas empresas, a exemplos de startups. A falta de garantias, burocracia e custo das operações para tomada de crédito tem tirado o sono dos empresários de TI que pretendem aproveitar a demanda para ampliar os negócios ou simplesmente ter uma segurança de caixa para poder negociar preços e prazos com seus clientes atingidos pela pandemia.

“Pedimos agora a inclusão de uma emenda num projeto de lei para que fosse considerado pelos bancos o faturamento do último ano, servindo como garantia real. O que temos dificuldade para as empresas que estão precisando de capital de giro, é justamente a linha de crédito demorar a chegar na ponta. Fora isso, tem a questão da garantia. Se você tem uma indústria, há parque de máquinas e estrutura física postas como garantia. Na TI, tem as pessoas, as mentes brilhantes, mas isso o banco não aceita como garantia”, queixa-se o presidente da Assespro-PE.

E referida emenda foi sugerida pelo senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), a ser incluída na Medida Provisória 958, que estabelece normas para a facilitação do acesso ao crédito e mitigação dos impactos econômicos decorrentes da pandemia de coronavírus.

Nos números levantados pela Wayra, a demanda por crédito entre startups neste momento tem chegado a 54% dos negócios.

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