LOGÍSTICA

Por que a sua compra na Black Friday pode demorar um pouco mais para chegar este ano

O varejo estima que esta deverá ser a maior Black Friday já realizada no Brasil em volume de vendas. Mas as empresas de logística devem enfrentar problemas para realizar entregas com rapidez

Edilson Vieira
Edilson Vieira
Publicado em 20/11/2020 às 17:43
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Tanto as transportadoras privadas quanto os Correios (foto) terão que dar conta do aumento em 20% na demanda por compras online neste final de ano - FOTO: NE10
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Quem já comprou, ou ainda vai comprar, na Black Friday deste ano pela internet deve ficar atento aos prazos de entrega. A mercadoria deve demorar um pouco mais do que o esperado até chegar na casa do comprador. A razão são os gargalos logísticos, que só pioram à medida que cresce a demanda pelo serviço de transporte. Atender o pico de demanda que acontece na Black Friday não é tarefa simples.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a Black Friday de 2020 deverá movimentar R$ 3,74 bilhões e registrar a maior movimentação financeira desde que a data foi incorporada ao calendário do varejo nacional em 2010. A diferença entre as vendas feitas em lojas físicas e as realizadas nos Market Places virtuais vai ficar ainda mais evidente. A CNC projetou um avanço real de 61,4% nas vendas exclusivamente online frente à Black Friday de 2019. As lojas físicas, por sua vez, deverão crescer apenas 1,1% comparado com o ano passado. Mas, não existe e-commerce sem logística.

O presidente da Federação da Empresas de Transporte de Cargas do Nordeste (Fetracan), Nilson Gibson, estima que a movimentação de cargas aumente em torno de 18% neste mês de novembro, por conta da Black Friday e chegue a 25% de impulso até o final de dezembro com as compras natalinas. Pernambuco tem cerca de 4.700 empresas de transporte, 70% delas ativas, segundo a Fetracan. “O comércio antecipou as promoções de novembro para facilitar o escoamento dos produtos, para que ele chegue ao cliente final com pontualidade, mas o setor está estrangulado por conta da mudança dos hábitos de consumo da população durante a pandemia”. Nilson Gibson dá como exemplos, o crescimento do agronegócio, do varejo de alimentos e das vendas de material de construção que vêm ocupando o setor de logística.

“Tudo isso impactou tanto a renovação de frota,[ com as fábricas de caminhões sem veículos para entregar no tempo exigido], quanto a contratação de novos motoristas. O transportador está preferindo ter a frota própria do que contratar caminhoneiros autônomos, em função da política de preços da tabela mínima de frete, instituída no governo Temer”. Apesar do aperto, Nilson Gibson acredita que as transportadoras irão conseguir atender a demanda da Black Friday. “Diminuiu o volume de transporte do varejo de confecções e calçados, então vai compensar um pouco o aumento das outras cargas que normalmente aumentam nessa época”, estima o presidente da Fetracan.

O pessoal dos transportes não tem capacidade ociosa, a logística trabalha no limite da demanda. Se a demanda aumenta, faltam pessoal e veículos e daí o preço do frete aumenta”,
Paulo Alencar - Professor de logística da Unit-PE

Para o economista e professor de logística do Centro Universitário Tiradentes (Unit-PE), Paulo Alencar, a logística no Brasil ainda não está respondendo o suficiente para atender como deveria as demandas do e-commerce. “O pessoal dos transportes de uma maneira geral não tem capacidade ociosa, a logística trabalha no limite da demanda. Se a demanda aumenta, faltam pessoal e veículos e daí o preço do frete aumenta”, afirmou o professor, que também é doutorando em logística.

Paulo Alencar diz que o País saiu da recessão econômica. A população, graças ao auxilio emergencial, passou a consumir mais alimentos, o que demandou mais transporte. Além disso, as vendas on line cresceram 77% durante a pandemia. Mas, quem compra on line quer receber a mercadoria em casa, e quer receber logo, o que só aumenta os desafios do varejo. As centrais de distribuição são um recurso utilizado pelas grandes redes para abreviar o tempo de entrega de mercadorias. Pernambuco tem centenas delas, segundo Alencar, mas mesmo as CDs dependem de uma estrutura dedicada de entregas para funcionar a contento. “Quem dispõe dessa estrutura vai poder entregar a mercadoria dentro dos prazos programados. Já quem depende exclusivamente dos Correios ou de outras empresas que não tenham uma logística bem desenhada, vai sofrer um pouco mais e deve atrasar um pouco suas entregas, até porque, se comparado ao ano passado, a logística não estava preparada para suportar um aumento no consumo, como está sendo esperado para este final de ano”, diz Alencar.

ESTRATÉGIA

Existem formas de o consumidor se planejar para que a entrega não seja demorada. Antecipar as comprar é a principal delas, nada de deixar para a madrugada da sexta-feira (27). Na hora de comprar é importante olhar o prazo de entrega e as opções oferecidas pelo fornecedor. Geralmente, o frete mais rápido é o mais caro. Quem tiver pressa, vai ter que gastar mais. “A entrega express nada mais é do que uma fila que passa na frente das outras”, resumiu o professor Paulo Alencar.

Outro caminho para quem tem pressa, mas não quer pagar mais caro para receber logo os produtos comprados na Black Friday, é apelar para o comércio local. Todos os grandes shoppings desenvolveram suas plataformas de vendas online e têm estrutura própria de entregas. O RioMar foi um dos primeiros centros de compras do Recife a adotar as vendas também pela internet, segundo a gerente de marketing, Denielly Halinski. “A nossa plataforma já existe há um ano e podemos oferecer a garantia do produto e da entrega. Ou seja, nós vendemos o produto que efetivamente está na loja, e não em um depósito fora, e a gente dá um prazo de entrega de até 48 horas para entregas feitas num raio de 20 km de distância do RioMar”, assegurou Denielly. Outras vantagens são a possibilidade de reunir compras feitas em lojas diferentes numa mesma entrega, ou ainda comprar pela internet e ir ao shopping apenas para retirar os produtos. “Quem quiser, pode vir retirar presencialmente no Drive Thru”, diz Denielly.

CUSTO

O principal operador logístico do País ainda são os Correios. Cerca de 30% do comércio eletrônico nacional depende unicamente da estatal para entrega de mercadorias. Através de nota, os Correios informaram que trabalham com a expectativa de que haja um aumento superior a 20% na procura pelos seus serviços neste final de ano e incrementaram ações como o sistema para envio econômico de pequenos objetos; a possibilidade de entrega da mercadoria em um segundo endereço alternativo, e o serviço que permite ao cliente escolher uma entre seis mil agencias para retirar a mercadoria. “Também reduzimos os prazos de entrega do SEDEX e do PAC nos principais trechos do comércio eletrônico e fizemos investimentos na capacidade de tratamento e de transporte de carga”, diz a nota.

 

Segundo Stefan Rehm, CEO da Intelipost, empresa de gestão de fretes que atua na América Latina, são os pequenos empreendedores que acabam encontrando no Correios uma alternativa vantajosa. “Geralmente quando a empresa ainda não tem volume suficiente para ter um contrato com uma transportadora”, diz Rehm. Mas o executivo diz que a logística de entregas no País é um desafio pelas dimensões continentais e problemas de infraestrutura, o que acaba refletindo no custo das transportadoras. “A logística no Brasil é muito ancorada no transporte terrestre. Temos estradas bastante precárias em algumas regiões, o que impacta no custo de manutenção dos veículos, além de pedágios e ocorrências como roubos. Tudo isso gera um custo para as transportadoras e isso impacta diretamente varejistas e consumidores”. Afirmou Rehm.

Para João Caldana, diretor da Dachser, empresa alemã de logística que atua no Brasil, a qualidade das estradas nacionais, em comparação com a Europa, pode ser o fator de maior deficiência, para as empresas. Mas Caldana afirma que a pandemia foi, e continua sendo, a principal dificuldade para o setor em 2020. “Bloqueio de rodovias e cancelamentos de voos diminuíram as possibilidades de envio, além de aumentarem mais que o dobro o valor do frete. Por isso, algumas empresas precisaram buscar outras saídas, como o uso dos serviços de containers marítimos”, diz Caldana. Apesar das dificuldades, ele acredita que a logística vai funcionar nesta Black Friday. “Todo setor pode estar preparado, desde que haja um planejamento estratégico eficiente por trás. É necessário um controle de estoque, com armazéns, e de cronograma para que o cliente seja sempre atendido no tempo estipulado” diz Caldana.

 

Promoções preferidas pelos consumidores na Black Friday

Frete grátis – 83%

Desconto no
preço do produto – 61%

Cupom de desconto – 50%

Desconto em compra de mais de
uma unidade do mesmo produto – 34%

Bonificação em programa de fidelidade – 22%

Desconto no frete – 22%

Fonte: Ebit/Nielsen

 

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