OPINIÃO | Notícia

Mais do que "vampiros", os morcegos são heróis da Ecologia da Polinização

Entender, preservar e divulgar a Ecologia da Polinização é fundamental para manter o equilíbrio das populações e comunidades........

Por ISABEL CRISTINA MACHADO Publicado em 21/10/2024 às 0:00 | Atualizado em 23/10/2024 às 11:07

No mês em que se comemora o "Halloween" (Dia das bruxas), festa de origem europeia e introduzida no Brasil por influência norte-americana, os morcegos são personagens de destaque, sendo protagonistas de muitas histórias de terror. Uma dessas é a do Conde Drácula, um vampiro sugador de sangue, que morava em um castelo na Transilvânia, atual Romênia. Essa fama de vampiro atribuída aos morcegos, e o temor associado a esses mamíferos, se deve ao fato de algumas espécies se alimentarem de sangue de diferentes animais, inclusive do homem. Entretanto, das mais de mil espécies de morcegos conhecidas na natureza, apenas três são sanguívoras (hematófagas). A grande maioria das espécies de morcegos são frugívoras (comem frutos), insetívoras (comem insetos) ou nectarívoras (tomam néctar). Desmistificar, portanto, a fama de mau, ou seja, de que o morcego é um animal prejudicial, perigoso, recentemente tão rechaçado durante a pandemia de COVID-19, é obrigação de todos aqueles que procuram e estão preocupados em defender o Meio Ambiente.

Os morcegos que consomem frutos dispersam as sementes desses frutos através de suas fezes, muitas vezes durante seu voo. Sendo os únicos mamíferos que conseguem voar, os morcegos podem percorrer grandes distâncias durante sua procura por alimento, garantindo com a dispersão das sementes o repovoamento e a regeneração dos ecossistemas, mantendo a biodiversidade de diversos biomas e formações vegetacionais, como Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Restinga, Cerrado e Caatinga.

A formação de frutos, por sua vez, depende da polinização, que é a transferência dos grãos de pólen, que contém o gameta masculino, para o estigma, porção apical do gineceu, órgão feminino de reprodução sexuada das plantas com flores. Ou seja, a fertilização dos óvulos e a frutificação ocorrem mediante ação inicial de polinizadores. Abelhas, vespas, moscas, besouros, borboletas, mariposas, beija-flores e morcegos atuam como polinizadores bióticos. Os morcegos nectarívoros, durante suas rápidas visitas às flores noturnas para tomar néctar, contactam as estruturas reprodutivas da flor com os pelos de seu corpo, realizando a polinização. Dessa forma, os morcegos prestam muitos serviços ecossistêmicos fundamentais.

As flores noturnas geralmente têm cores claras e esbranquiçadas e atraem os morcegos emitindo um odor desagradável ao olfato humano, composto basicamente por voláteis sulfurados, e produzindo grandes volumes de néctar, que suprem a necessidade energética desses mamíferos voadores. Os morcegos nectarívoros apresentam adaptações como focinho comprido e língua extensível e coberta por papilas, que se exterioriza por entre os dentes reduzidos ou ausentes, durante a coleta de néctar.

A Caatinga, que abriga uma floresta tropical sazonalmente seca, apresenta elevado percentual de espécies polinizadas por morcegos, quando comparada com as florestas tropicais úmidas. Desde 1997 nosso grupo de pesquisa na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) tem recebido apoio de órgãos de fomento como CNPq, FACEPE, CAPES e o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico-DAAD e, em colaboração com cientistas do Brasil, da Alemanha, Inglaterra e Argentina, tem feito registros inéditos, investigando as adaptações e a rede de interações mutualísticas entre as plantas com flores noturnas e seus morcegos polinizadores, especialmente aquelas ocorrentes na Caatinga. Entender, preservar e divulgar a Ecologia da Polinização é fundamental para manter o equilíbrio das populações e comunidades.

Isabel Cristina Machado, professora titular aposentada da UFPE, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal-UFPE e membro da Academia Pernambucana de Ciências.

 

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