opinião | Notícia

Varredores de rua

...nunca soubemos exatamente a diferença republicana entre esfera pública e interesse privado, e a "rua" não é o "público": é o espaço de ninguém.

Por FLÁVIO BRAYNER Publicado em 04/02/2025 às 0:00 | Atualizado em 07/02/2025 às 12:15

Não sei por qual razão, eu tenho uma admiração especial por varredores de rua! Deles, eu guardo uma cena inesquecível, ali na Agamenon Magalhães, num longínquo 7 de Setembro, em que varredores colocaram suas vassouras no ombro (como fuzis!) e bateram marcha enfileirados, marcando o ritmo na caçamba da carrocinha de coleta! Também não sei a razão, mas achei que aquela... "alegoria" representava muito mais a nossa "nação" do que os desfiles grandiosos de nossos militares, em plena ditadura.

Quando vejo, nas ruas, um rapaz ou uma moça, vestido com um macacão amarelo, com a inscrição nas costas "VARRIÇÃO", eu presto atenção ao que ele(a) está fazendo e não posso deixar de refletir um pouco sobre aquela profissão.

Penso a "varrição" como um ato cultural, civilizacional contra a própria Natureza (as árvores que "sujam" naturalmente as ruas e avenidas em certas épocas do ano. A Cultura é uma forma de domínio e controle sobre a Natureza, tanto 'interna' como 'externa') e, em seguida, uma ação contra o próprio Homem, aquele que faz do espaço comum, da esfera pública um...depósito de lixo, como se o lugar onde simbolicamente exercemos o que chamamos, muito superficialmente, de "cidadania", fosse também o lugar onde jogamos fora o que não nos serve mais. Estanha - e, no entanto, compreensível, basta olhar para a história de nossas relações sociais!- RELAÇÃO ENTRE LIXO E PÓLIS! o varredor é, para mim, uma metáfora da cultura, sobretudo quando se volta contra o incivilizado, o que destrói o Mundo Comum.

E como todo trabalho da Cultura, nosso Varredor (grafo com maiúscula, sim senhor!) age em silêncio, quase que "pedagogicamente", tentando com seus gestos repetitivos, sua vassoura e sua cesta, nos chamar a atenção para os incivilizados que somos, mas que é, muitas vezes, invisível, inaudível, uma presença clamorosamente ausente. Imerso em sua absoluta solidão, repete o mesmo gesto, olhando para baixo, num nietzschiano eterno retorno do mesmo que, mal acaba de ser executado, tem de ser recomeçado porque alguém acabou de sujar o que foi mil vezes limpo... Como se o trabalho da Cultura fosse interminável, incansável, silencioso, invisível, uma finalidade sem fim!

A ideia de limpeza urbana, se não estou enganado, começa com a "haussemannização" de Paris, sob o II° Império (1851-1871), à época de Napoleão III°, quando os grande boulevards foram abertos, a cidade higienizada (com objetivos claramente políticos) e a "canaille" afastada para a periferia ("bidonvilles"). Ali começa um tipo de modernidade urbana que será descrito, por exemplo, por Charles Baudelaire com sua profunda inquietação sobre a multidão solitária e agregada ("O spleen de Paris". Ver também, nas "Flores do Mal", "A uma passante": a modernidade é o eterno no transitório!). Foi no país que inventou a República moderna (não falo de cidades-estado como Genebra, por exemplo), enquanto Nação republicana, que a Educação Nacional tinha a função (diferente da Instrução Pública) que nutrir o sentimento de pertencer a um Mundo Comum regido pela Lei. O que acontece com aquele que joga lixo nas ruas, é algo que o antropólogo Roberto Da Matta já havia assinalado em seu memorável "A casa e a rua": nunca soubemos exatamente a diferença republicana entre esfera pública e interesse privado, e a "rua" não é o "público": é o espaço de ninguém. Assim posso varrer "minha" calçada e deixar o lixo no cantinho do meio fio, na rua, que não é de ninguém!

É nesse momento que chega aquele homem/mulher com um macacão amarelo exercendo sua função de AGENTE DA CIVILIDADE PÚBLICA: um alerta "amarelo" para nossa ausência de sensibilidade para a "res publica". Daí para cima, já dá pra gente entender a corrupção, a depravação política, os orçamentos secretos, as emendas impositivas, a apropriação indébita, os desmandos administrativos, os "toma-lá-dá-cá", os Centrões...

Flávio Brayner , professor emérito da UFPE e visitante da UFRPE

 

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